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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

História inacabada (PART 1)

       Sempre contei os passos na praia:  a cada vívida marca na areia. Sentei-me sob as nuvens de algodão observando o balanço do mar, enquanto a calma trafegava junto a maresia para minha alma. Havia um desequilibrio em mim, que estremecia meus braços e perturbava minha mente, gritante. Então, o fiz. Duas horas antes em meu escritório pensava o porquê, por que? Minha gravata sufocava, minha coluna era referência social. Tanta gente, tantos amigos, tantas e tantos pretendentes, mas nenhuma razão. Amigos mesmo? Talvez um ou dois dos cento e poucos. Desde quando isso era vida? Desde que eu respirava ? Seria esta a vida? Joguei meus objetos pessoais para o chão em um fluxo de raiva e tombei. Minha vida passou em um minuto e três segundo desde  que mergulhei em direção ao fundo aonde não haveria como alcançar a superfície. Lutava contra meu peso até ver todos os que passaram por mim. Não sabia quando ou onde, parecia que não havia mais tempo ou lugar apenas sentia energias atravessando meu cérebro, enquanto a única coisa que naturalmente sentia era o demasiado excesso de sal que ardia minhas narinas e faringe, parecia rasgá-las. Eu disse tchau para ela no dia 13 de dexembro de 1968, quando as ruas de Copacabana eram tomadas por militares e cavalarias em peso. Seu pai era o poderoso chefão do Jornal do Brasil, e eu um redator indisciplinado que tentava vida na cidade grande. Ela me disse que não iria voltar, não hasvia entendido muito bem a razão, mas esclareceu-se antes de minha chegada na praia. Seu pai era a personificação do Lucifer em pessoa, e de certo os deuses fossem julgá-lo transformando-o em jornal velho, ou melhor, papiro. O abastado jogou contra as vontades da própia felicidade de Anna Bela. Ela, que era Bela, por causa de sua indiferença com a estética, irônica e bela; seu padrão despadronizado e os vestidos despreocupados; era Bela porque era lida, entendida e despida de mentiras. Ana leu, leu.. leu tanto que se embebedou de Shakespeare quando ao menos podia com o  Gregório. E antes de vê-la pela ultima vez me escreveu em linhas tortas que precisava de mim para sua cena final, porque não podia ir em vão. Ana tira isso de sua janela - era o que deveria ter falado quando hesitei em visitá-la para salvá-la das garras de Seu Everaldo, bastardo gerimundo. Agora ela precisava de mim, e isso era certo, eu estava a caminho.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

it never goes out

"Take me out tonight
where there's music and there's people
and they're young and alive
Driving in your car, oh,
please don't drop me home."
Morrisey

Circunstâncias de Fuga

Dos teus olhos de pedra
reluzem as portas dos mistérios
mais profundos e litiginosos
seu suspense é seu discurso
seu nome repito incansavelmente

sob os flashes da camera
eu sorrio e meus lábios contraem-se
esperança de que os teus
encontrassem em mim
a saída deste mundo irreal

Foi tua presença
que entorpeceu meus sentidos
e calou minha fala
Foi teu corpo que cedeu
Foi meu coração que
se entregou

Três momentos
Três estrofes
Um pedido

Nós

           Ele moveu dez livros da estante da casa do amigo. Ela beijou a outra na casa do namorado. Ele se entrete  com os sucrilhos no prato fundo. Ela matou a aula com as amigas. Ela atende o telefone para irmã. Ele limpa os pratos e toma banho de sunga. Ela correu para o onibus pra não perder a hora. Ela geme com seu chefe no intervalo dentro do elevador. Ele abraçado a namorada comendo pringles enquanto assistem sessão da tarde. Ela olhando-se no espelho, pesando-se sobre a balança. Ele correndo junto a esposa na praia. Ele comemorando a vitória do jogo do Internacional. Ela vomitou todo almoço na vaso.  Ele escreve desesperadamente para entragar seu texto ao chefe. Ela se masturba em pleno domingo. Ele joga video game freneticamente. Ela chora porque seu pai faleceu e vai ter que morar com a tia.  Ele parece ter acabado de ser prese. Ela estava prestes a dar a luz na sala da parto. Ele fica no semáfaro limpando parabrisas dos  carros. Ele leva a famíli no parque de diversões. Ela estuda filosofia e trabalha como professora de inglês. Ele acaba de perder a virgindade com a vizinha. Ela assiste TV escondida enquanto seus pais nao chegam. Ele gosta de brincar com o cachorro antes do almoço. Ele faz academia. Ela costuma andar de calçinhas pelo apartamento. Ela lê o jornal no café da manhã.  Ele está usando o banheiro. Ela dirige Taxi e faz faxinas. Ele atende um cliente extremamente autoritário. Ela beija o amigo na boca. Ele beija o amigo na boca. Ela cuida da mãe com câncer. Ela rasga as cartas do ex-namorado.  Ele assiste aulas de Ciências da Computação. Ela toma mate no parque a tarde. Ele compra seu primeiro carro. Ela vê o pôr-do-sol com seu amigo. Ele fica acordado até tarde da noite. Ela reprova na faculdade. Ela dança sem parar nas baladas. Ele anda de bicicleta. Ela faz regime. Ela foi no cinema com a família. Ele bateu o carro dos pais. Ela pagou a luz e o telefone...  todos nós.

Olhem o olhar

Olha olhos olhantes
Olha mas não vê
Olha teus pulsos
Olha teus braços
Olha tua volta
Sou eu mas não estou
Olha teus risos no espelho
espelho de reflexos
Olha teus olhos mentirosos
Olha quem olha por dentro deles
Olha quem não quer te ver
do que teme ele?
do que teme ele?
de que incerteza move o
céu? Ou só existe?
céu? Longe.
Ou inexiste lá, nada
Olha...

Restante

Faltam páginas
habitam vazios
faltam cores
minha caixa
vazia de emoções
vazia de sentimento
à espera de algo

Faltam textos
habitam vazios
faltam histórias
minha caixa
cheia de contradições
cheia de incertezas
à espera de alguem

sábado, 11 de dezembro de 2010

Monólogo

Com todo o respeito
Onde você foi?
Com toda liberdade
Você toca aqui?
Com toda intolerância
E teus lábios? Não?
E tuas mãos? Não?
E tua boca? Não?
E tuas palavras? Não?
Com toda força...
Fica?

Sentido

Não posso viver comigo
mais um segundo
já é demais
pensar em tudo;
já é suficiente
tudo ter sentido em si só

tanto para tão pouco
não pensar em tudo
não pensar em nada
ainda que nada seja uma
palavra que não dê explicação

ainda que não existam explicações
existem as coisas que existem
Eu existo,
desconsidero qualquer
definição, qualquer
significação
apenas nas coisas em si
mora a verdade.

Instante

      Creio  que é manhã de verão de janeiro de sol de janelas abertas. Os doze Deuses no Olimpo sorriem enquanto eu olho a vida da vizinha da janela do apartamento de cima da confeitaria da casa da minha irmã. Em Porto Alegre ninguém me conhece mesmo. Um catador de lixo que ia passando gritou "olhando pro apê das vizinhanças...". Poderia simplesmente ignorá-lo, mas dei bom dia e fui tomar um café reforçado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entre_Linhas

   Não.
 
   Não me importa quem tu és. Não é a definição que me vale.
 
   Não quero que descrevas como ages. Porque despenca em mim um abismo de possibilidades e impossibilidades. Verdades e mentiras, ou até mesmo inverdades (aquelas internas que nem mesmo Tu sabes).

   Não me importa que tu impressiones. Não aceito algo superficial. Tambem não preciso de um poço profundo. Respeito a naturalidade e aplaudo fenômenos da natureza.

   Não me ignore e me veja. Não te peço nada. Nem para que tu leias.

   Não desista nunca. Não diga que a estranheza acabou e que a lua já vai dormir. Não quero um outro dia. Não quero um novo sol. Não diga...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Algo

"Alguma coisa escapa aos naufrágios da ilusão."
(Machado de Assis)

Revelação

"Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro
o ser humilde entre os humildes seres
Embriagado, tanto de prazeres
O mundo para ti foi negro e duro

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste a saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto
Magoado, oculto e aterrador, secreto
Que o coração te apunhalou no mundo

Mas eu que sempre  te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo"

Cruz e Souza

Mistério

Não raro envolvido da luz corada dos fins de tarde,
deixou-se por vezes tocar pelo mistério da noite.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ao sol que queima

         Como um rio que seca quando o sol está muito forte. O rio dos teus olhos não mudarão minha mente, pois talvez nos reencontraremos em outra vida. Tendo tantos pontos em comum , tantos planos, e alguns anos dividos, é dificil falar. Enquanto tudo acontece na cidade, ainda não me movo. Me ame quando estiver alta, e me deixe quando chorar. Como um rio que seca quando o sol está muito forte, somos vítimas de nossos desejo. Como estranhos, que passam, sem se  notar. Talvez esteja mais claro através de outro lugar.  Imagine se tudo scumbisse, e apenas você brilhasse. Escapa-se as vida. E por que negar que vivemos vidas diferentes? Adeus, Talvez nos reencontraremos em outro lugar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Viagem

"Sim" ele respoundeu-lhe acirrando os dentes.
Naquele momento seu sangue ferveu e suas mãos esfregaram na sua camiseta lavando-a de sangue. Por mais que pensasse, a resposta não parecia vir à tona. Estendeu seu braço direito ao desconhecido como quem aponta uma arma de fogo desejando a morte de seu pior inimigo, mas não poderia suportar a vida. Nem mais um pouco, pois já era tempo de fazer as malas.
"Não" ele respondeu na entrada do aeroporto, "não vamos na frente, porque não foi o pacote que compramos, meu amor". A menina se debruçou em seu braço enquanto era arrastada contra vontade por seu pai no corredor. Até chegar a classe média, procurou pistas de onde sentaria através do bilhete.
"Sim" ele respondeu ao irmão. "É o unico jeito", enquanto agarrava a ponta da arma, que o alvo agora era sua testa.  "Pelo amor de Deus, só assim você vai fazer a viagem de volta".
"Sinto Muito"  - splaft.
Ele havia se acordado em uma tribo indigena, a qual o cercava quando a silhueta de uma menina surgiu por de traz dos rostos ignotos.
"Papai? Você acordou?" ela perguntou.
"Foi uma longa viagem, querida. Mas estou com você." ele respondeu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Regrave a fita velha

Record

Sei que eles nos afundam
somos únicos e, talvez , acordássemos.
Eu não peço muito, nem peço algo,
mas a inexistencia, talvez,
soasse como um belo presente de natal;
Ilustro a idéia objetivando  o descanso.


Record
Estando às margens da noite
Estando as lanternas à postos
Estando as madrugadas sobre a limpida e calida água.
lavando a alma para esquivar-me
de ti, deles, de mim e dos outros.

Record
Sei que nada acontece
e nem ao menos afundamos
e a morte parece regressar sádica e precisa
quando nosso tempo de vida é tão literal
enquanto tudo se destrói e se desfaz
entristecedoramente,  continuaremos  de pé.

Record
Record

Nota vívida

Assim como a música dança
de maneira serpenteada envolto ao corpo;
ela escorrega sutilmente
por dentro d'alma
onde acalma o espirito
e reluz vida
                       - sem ela nem vida seria.

Assim como a música é catarse;
ela tambem corta fundo como navalha
direto nas sensações essenciais
da natureza humana
É obscura, provavelmente, anestésica;
mas pode ferir a mente
                       - sem ela nem vivo seria.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Expectativa Mortal

          O quanto ela tremia era perceptível. Nenhum deles não sentiu. Talvez de maneiras diferentes tivessem reagido, talvez fosse o brilho da tardinha,  talvez fosse a estranheza recíproca,  mas nada foi dito.
           Ela pode vê-los juntos por meses ou quem sabe anos em sua projeção. Uma faísca acendeu o sorriso de seu rosto, e ele não mais retornou a ligação.
           Agora ela tremia como o anoitecer enquanto o vento batia em sua janela naquele dia de novembro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Furacão

       Lembro que costumava a lembrar-me de você. Você se lembra? Eram aqueles dias que não passavam, as horas que se arrastavam e as coisas que giravam em torno de sua lembrança; agindo sobre minhas emoções, por mais que eu me mantivesse ereto e intocável. Você era como um furacão que arrancava todos meus pensamentos enquanto estivesse por perto. Hoje, não lembro mais de você. Lembro de mim.

sábado, 30 de outubro de 2010

Pecado

          Divino? Pensei que fossem minhas preces sendo apuradas por algum anjo preguiçoso e desorganizado devido ao tempo que passou até isso finalmente se realizar. Seria ficção, mentira e traição ou benevolência, pudor e  insegurança? Quaisquer que sejam as intenções, a única certeza é disso ser fruto de um desejo {sendo libidinoso ou não}. De qualquer forma, minha pergunta resume-se neste momento em:  Deus permitiria um de seus anjos intervir em um relacionamento desses? Ou estariam danificados os conceitos humanos de pureza? Enfim, ainda que não seja puro, é envolvente, como todo pecado.

Sem sangue ou marcas

         Aliás, teu corpo é suspeito. Primeiro,  cheio de suspense e mistério, atraindo meus aveludados  olhos silenciosos, que dançam sobre teus lábios estreitos e magnificos. Segundo, teu perfume,  o qual recai sobre o ar autoritariamente fazendo minhas mãos tremerem e suarem a todo instante. Conclui-se,  idílicos arquipelagos do desejo, tudo  aquilo que nos move.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Há a presença de uma ausência aqui

Na estrada, a poeira atravessa-me;
na avenida, a água enxarca-me;
na rua, os arbustos cobrem-me.

Logo, continuo em tempestades, carregado de nuvens carregadas.
Logo, de uma maneira inusitada continuo o mesmo - ainda que diferente.

Ainda faltam tijolos em minhas paredes;
ainda preciso da regagem matinal no meu jardim.

Ao acaso deixo a dor emudecida,
e a  minha euforia em tudo aquilo que houve,
Agora, só restam, vazios insubstituíveis e imperdoáveis.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Escuro

Não tenha medo. - Ela disse enquanto agarrava sua mochila ao se levantar. - Isso passa... -  falou enquanto saia com seu olhar adoçicado pela porta. E eu? Eu estava sem ar ao passo que submergia para o profundo fundo da noite interminável, sem alcançar a superfície... nunca mais.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Todos

           Não me impressionava que o mundo viesse acabar em tempos como este.  São tempos apocalípticos para o homem. Que signficam o encerramento de um ciclo e a abertura de um novo. Não é difícil entender os vestígios e as marcas desse degenerado fim.

Em dias atuais,
Todos andam sem olhar uns para as outros e fecham-se em círculos sociais,    
julgando aqueles que estão fora de alcance.
Todos andam em um mundo tomado de medo, com as defesas erguidas       
objetivando esquivar-se de qualquer projétil, de qualquer ataque.
Munidos de argumentos, armas e escudos.
Todos andam no escuro, segmentados,
sem confrontar-se com os Outros deste mundo em que vivem.                             
Uma vez que deparam-se com semelhantes,
Todos desentem-se pela fragmentação de suas identidades;   -
pela confusão de seus "eu";
pelo desentendimento de sí.

E aí, sabe como é que é:
uma palavra crua leva à outra;
uma ofensa leva à outra;
uma briga leva à outra;
uma guerra leva à outra;
E, prontamente, o chão está lavado de sangue e angústia.

Existiu em tempos antigos uma conduta como essa, mas essa conduta sofreu metamorfose temporal modificando sua forma (não sua essência), ela se tornou a classe, a etnia e o gênero.

Prendeu-se a respiração.
Escutou-se os bombardeios e a dor.
Sentiu-se a raiva e a lamina da espada.
Pensou-se a existência.
E o que ficou, além do pó, foram os restos.

Me aproximei da janela no intento de ver através da persiana se o medo estava lá fora, mas havia apenas o frio. Minha aflição aumentou quando percebi que poderia estar sozinho... abri as janelas e esperei... foram quinze minutos sem resposta.

-
Nem cachorro, nem vizinho, nem carros passando.
Nem índios, nem pardos, nem negros, nem brancos.
Não havia categorias. Não havia pessoas.
-
Ao entardecer, o sol já esfriava.
O sereno baixava e o mar agitava-se  - sob influência da lua.
E agora, podia-se escutar o choro e a lamuria daqueles que restavam sob o campo de oliveiras. 
E o meu medo pendurou-me pelo pescoço na ponta da mesa
enquanto via meu último pôr-do-sol.
Morreram Todos,
por dentro.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Além do que se vê

       Quando te vi, deixei tua voz soar da maneira que quizesse. Soltei o ar, que em meus pulmões transitava,  e  respondi "tudo bem".  Nunca pensei que a mentira ardesse como uma vodca marginal: rasgando da garganta até a boca do estômago. Pedi para que minhas palpebras não se inundassem, que minhas mãos não latejassem, que minha voz não escapasse, mas  pareço não ser bom em nada que faço. E ao sentarmos-nos  cordialmente em sofas opostos - tão perto, e tão longe - só pensava em abraçar-te a fim de arrancar toda dor e angústia de mim. Tuas desculpas e outras  verdades, em mim, abrigaram-se.

domingo, 10 de outubro de 2010

Orações Subord. Cond. Adverbiais

E se eu não estiver vivo.
E se o que eu sinto for algo inventado.
E se o que eu vejo não seja real.
E se o passado for literatura.
E se o que é literatura não for racional;

E se tudo o que eu penso resume-se
                                   a um ponto de reticencias infindável.

E se tudo o que dizem não é fruto de um fato científico.
E se as verdades forem na verdade uma inverdade sociológica.
E se os mitos não forem os monstros.
E se eu acordar amanhã;

E se nem a dor  me torne real.
                                  E se o sangue não me conte a natureza

E se o caminho não esteja  frente aos meus pés.
E se não for preciso.
E se for.

domingo, 3 de outubro de 2010

Santa Ignorância

          Sei porque eles falam. Sei porque eles dizem. Sei porque não escutam. Sei porque fingem escutar. Sei porque eles confabulam. Sei porque eles relatam como se fosse em primeira pessoa.Sei porque eles gostam. Sei porque eles odeiam. Sei porque eles mentem. Sei porque evitam a verdade. Sei porque eles resistem. Sei porque eles tem medo. Sei porque dizem "bom dia". Sei porque eles não choram. Sei porque eles não lutam. Sei porque eles creem. Sei porque eles culpam. Sei porque apenas não entendem. Sei porque assistem TV. Sei porque não apagam as luzes. Sei porque eles gritam para falar. Sei como eles se defendem. E ao passo que Sei disso, eu não sei o quanto precisa ser meu esforço.

sábado, 25 de setembro de 2010

Standing Still

Death is a familiar face
Its smell comes from within
a rotten bliss to my faithless soul

Death is one hell of a good pal
along my side in thoughts
never letting go

Death within the time
as it goes by
tearing apart
every inch of expectation
every hour that is left in the dust of past

Death has ever whispered me
There is no doctor to heal those wounds
no therapist to stop the pain
It always talks about it
And I sigh

Death has ever whispered me
There is no doctor for our soul
There is no directions to paradise
There is no escape from pain
And I sigh

Blame me

Now it is morning.
Yet this flood of thoughts
have already begun
what has sprung into my head
is your image;
the figure of your face
smiling towards me

For now,
it consumes me like fire,
a fire that no one can put out
a fire that nobody can notice
because there is no smoke,
there is no sign
it is hidden beneath my skin,
in the back of my mind
almost unbearable

It suffocates me,
I choke,
I am wordless and mute

For now,
it is morning
the question is:
can I get through the rest of the day?

Dilúvio

        Tinha certeza que eu estava certo. Pensei que fosse você, mesmo quando suas mãos escorregavam. Cegamente, podia ainda ver o mesmo você: instável, em conflito contra minha inércia. Afogando-se em distâncias e melodias amargas, naufragando em um dilúvio de promessas e impossibilidades. E agora, não há cartas por baixo da manga, não posso fazer mais nada se não assistir a introspectiva tragédia.

Life

The saddest thing is:
life is no fiction
The only problem is:
it is just noticed
when it hits on spot
because, then, it hurts
and hurt is just
as real as the bed I lay.

Brasil

         Sinto-me ardente nas praias de Rio de Janeiro. Sinto-me cheio da praia carioca. Sinto-me demasiado febril com a temperatura e o custo do Pau-Brasil. De vermelho, para ordem-e-progresso; de verde-amarelo para favela. Sinto-me extasiado com as vistas tão belas - onde eu cantaria assim que fosse visitar. Sinto-me  confortado por apenas com meu barro trabalhar - só de canto, como já dizia minha mãe, impossível se virar. Uma terra de palmeiras como cá. Uma terra paralela, de outras vidas e outros cais - observo nossa água desaguar: a democracia das inverdades

domingo, 19 de setembro de 2010

(Re) invenção

Inventivas linhas,
linhas de gerações
de fatos à prova de ficção
Linhas rebuscadas,
rebuscada melodia ritmada
normativa de normas, de normalidade
no paradigma do sentido sem disparidade
aprova, comprova, desaprova
o vulgo, o pessoal e a camiseta pra fora
Que razão a ti te enfeitas;
Que emoção a ti te despeitas;
Não crês, não ouves, não vês
de fatos à prova de ficção
ao científico: tu reinventas.
tomado de mentiras adornadas
uma antiga história  alterada, aumentada, desengonçada
linhas de gerações documenta:
verdade suprema - axioma
pirâmides de pedtras,
de mitos e desesperos.

Mississippi

            There is still a lot of moist around the dirty mud from Mississippi. Yet the nday has awaken bright and clean at that time, there was a dark mistery and also a disturbing silence echoing from the children who already were outdoors playing soccer and tasting a fake truth -  children who are hanging over the corners of New Orleans. Thieves are noticed escaping from chimneys and backyard upstair windows. The houses are clean and painted in white. The corridors are covered with shade and full of doors. The attics are standing still washing the landlords' places with decrepit life: smiling towards the stairs. Vivid stairs pointing at the front doors. The pounds, painted in red and flies. Flies that are eaten by frogs. Frogs that are eaten by snakes. Snakes that are eaten by crocodiles. It never finishes. Endless and traditional: vicious cycle or natural course?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Campo-minado

       Tempos de guerra espreitam-nos com seus instrumentos bélicos. Mesmo que esteja consignado a essa missão, ainda sinto flores entorpecendo meu olfato, a maresia que impregna minha pele e a dor de precisar partir e deixar  meus pensamentos aqui. 
       Tudo parece fora do lugar... ainda que eu reconheça 'tudo'. Tanto ar lá fora e tão pouco aqui dentro. Não parece justo. Parece sádico. São reprimidos,  feridos, vividos. Todos os dias tendo que partir e ficar, amar e desamar, cair e levantar, dormir e despertar. 
       Parece sádico, mas a vida é feita de guerras frias: sem disparos, só silêncios.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Casa

Se os raios secaram-me, desidrataram meu corpo e desertaram meus pensamentos sou conseqüência de onde estou. Vegetando em flora inexistente, cercado de fluviais feitas de poeira e nada.  Minhas cordas vocais estão secas, minha pele inexoravelmente destonada, vezes de carne, vezes madeira, minha cabeça, meu abrigo e meu coração a porta do quintal dos fundos, seco, esgotado do vazio. Enfadonha é minha irritação, mas estático repouso aparentemente solene. Sua vida não corre em mim, portanto, a minha reside em estâncias que se perdem do horizonte de ninguém. Não há marcas, não há tempo. É um presente, intenso apocalíptico, começo, meio e fim. Compilados em uma só unidade. Unidade singular, sobre nuvens, companheiras elas, negras e desconfiadas, ao disparar seus relâmpagos sem fazer chover, sem fazer água. Como que se por ser unidade, devesse estar cumprindo pena. É pena que sente. Pois condena: as portas, as paredes e as janelas.  


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cha 3 - Hale at "Don't Know Land"

He did not know what had happened in that night when he saw that stranger. He did not remember.
When he opened his eyes he was already there. Lying down silenced by his fear and washed in blood. He felt different than before. His body was entirely heavy.
"Perhaps is some kind of drug." he sigh.
He walked out of his stretcher and paid attention for his surroundings in order to  recognize what place was that. At least, it was fancy. Seemingly, a good 3 billion dollar mansion. The walls were covered in golden tone and the bulb lights were shining vivid.
He got off his room and bumped into a busy corridor full with doors marked with question marks where people walked by choosing where to go. He was not believing on what his eyes were seeing. For that reason, he grabbed someone's arms.
"What stranger? You want to know where you are, don't you?" the guy responded spontaneously. 
"That's all I want." Haled answered nervous.
"Follow me, I can talk to you meanwhile I make my way."  the stranger smiled at Hale and then nodded.
"Spit it out. Whoever you are!" Said Hale trying to follow the pace of the stranger's steps.
"Person, you are at "don't know land". Can't you see with you own eyes or you're neophyte here?" the man said swinging his head negatively.
"Translation, now." Hale suggested.
"Which language?" laughed the man.
Hale got angry and threw the man against the wall.
"No jokes, if you still want to go." he conclude.
"Sorry. I just guessed you didn't notice you're not speaking. We are  see-through minded.  Like transparent. Like using real expressions, but none languages." the stranger seemed virtuous by telling him that, as if he had given the answers to all of Hale's questions.
"What the heck you sayi..."
"You are not opening your mouth nor I am. Look at me. "  the stranger  was totally excited with that.
Hale looked at the stranger's face which stood by and didn't move a centimeter, even though he kept saying words.
"We have transparent souls here, see?"  his smiles  were pretty transparent, thought Hale.
"I must be dreaming or in a nightmare. I might have crashed and died  or I got a comma."
" Stop worrying about and move on. Choose the door and stop making questions. It's your choices that make you what you are."
"How did you hear me.. I didn't say... crap. "
"You are transparent here. I feel your worries, fears, preoccupations. As you might feel my will to get to my door. I really want to go. See you, cowboy." and he got to a door.
"Name, you scumbag?"
"Oregion is my name. I must fall on my way. Hasta cowboy!" and he got in.
He thought he could follow Oregion but as he opened the door, there was nothing but clouds.
"Ok. So I got to find my way. "
One fluid, suddenly, came out of his chest and follow straight the corridor. As a water beam uncolored. He ran in its direction until he sight one left door. But this one was not shiny and white with a black question mark onto it, but the inverted colors. It was completely dark with a  white question mark painted on it.
"why that's gotta be mine... just my luck." and then he entered.

Herdeiros da Tradição

Ele caia de pára-quedas na mata. Ele flutuava pairando sobre o capim alto e desaparecia através de suas pontas verdes. Ele juntou-se ao silêncio da noite e separou-se do barulho dos grilos e vaga-lumes. Ele ainda estava vivo. Ele fez fumaça em território de Tarumbaçu. Ele dormia dentro de saco verde do lado da fogueira. Ele de longe era miúdo, assim como de perto. Ele branco e acomodado também. Ele brasileiro, provavelmente. Ele  de manhã me viu. Ele foi trazido por guerreiro Nuwamai e Çarumuiu. Ele perdido em território de nós, sim. Ele miúdo, comida teve. Ele feliz. Deuses felizes. Virtude nossa. Ele fica nossa terra sem saco verde. Ele dorme rede de  vime agora. Ele planta e come. Ele fez progênito em filha  minha, Geikiwaçu, também. Ele risca papiro com muitos riscos azuis. "Consegui Doutor Alfredo, estabeleci comunicação positiva; eles são uma comunidade isolada, sem escrita e sem aparelhos tecnológicos. Eles não tem língua, pois eles gemem uns para os outros. Uma vez que quase foram esquecidos no Acre... eles sabem agricultura, o que poderia ser meio de produção para exportação..." - De novo?  Tudo de novo? Por que tudo de novo? Porque não refletem. Por que não conseguem livrar-se de seu ego? Porque é mais trabalhoso, porque têm medo de tempestades e conflitos. É mais fácil ver as coisas a partir do seu próprio umbigo do que aceitar a diferença.

Menos depressivo

Se o carro bate-se agora, não iria ser grande coisa. Até que ele bateu. O barulho das buzinas, do freio e do poste que despencara, inundaram a rua. Senti um arrepio atrás do pescoço. A princípio era raiva que me consumia, mas agora apenas vejo culpa sobre o sentimento que havia sido despertado em mim. Seu corpo estava suspenso pelo cinto. O airbag inflado contra seu rosto amassado. Larguei minhas compras no meio fio e, em um átimo, me aproximei do carro espatifado de pontas pro ar.  Estava inerte ali dentro. A única coisa que se movimentava era a gota de sangue que escorria pela lateral de seu rosto como suor.  A ambulância chegou de pressa junto aos bombeiros.
Ás vezes, sentir frio como se ainda estivesse esperando por algo é natural. É como estar parado estático no "achados e perdidos" buscando encontrar a chave que solucione seus problemas. Tragédias da vida moderna. Preciso me encontrar, pois já esperei tempo de mais por algo que não vai voltar. Não estou alone agora, tenho meus pensamentos. 

punto és diferente de punto final

Hace años, todavia voy a acordarte que eso es un error. Pensé que ibas a darme el color y ponerlo en mis manos. El alma de vos no me pareció tan arreglada tal cual tus piensamentos. y cuando me llevabas a la  cama y al baño; tu venió al mi alcance y me enseñaste que no era dificl. las vacaciones son siempre llenas de cosas memorables, no? dime se hice lo que te encanta; dices "no" ahora, dijes "nadie me encanta". Pero tu venió. y tu dapartió. y ahora tu quedó.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Incompreensão

          No meu quarto, de fato, me sinto latejando. Estou me afogando em uma dor irremediável a medida que a noite cai. Não há nada que se faça sobre isso a não ser acalentar esse sofrimento e acomodá-lo contra o travesseiro. Já te proíbo de leres meus pensamentos, pois começo em plano raso e termino em cais profundo. Não quero assistir outros náufragos ao meu redor.
         Estou sob efeito de drogas pesadíssimas: olhos piscando como os do vagalume, acendendo e apagando, quase divagando, no escuro flutuando, me olhando contra o reflexo do espelho e me deixando. Do outro lado já não é meu rosto que me encara, mas teus olhos verdes. Eles me arrastam, eles me levam contigo. Eles dançam pela calçada e me desenham teu sorriso fazendo uso do batom de teus lábios. A ponta dos teus dedos encostam nos meus  - enquanto eu inspiro intensamente esse momento - na superfície de meu reflexo. Até que minha noite amanheça.
          O que os normais diriam? O que diriam os anormais? "Sádicos", "loucos" ou "sãos guiados por uma outra Razão que não se é compreendida".  E é por isso que queimo, inundado de pensamentos. Não parece  que tua voz  seria capaz de me dizer isso.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Athenas, a verdade


É primavera aqui, mas onde vivo é Alaska, Antártida, Groenlândia. Já não cheiro as flores, não piso em folhas e não vejo beija-flores. Não há cartas, não há e-mails. Não há perfumes. Mesmo que elas existam, não há pessoas. Vivo em um iglu cercado de rachaduras. Meu coração está em quarentena, sem cobertores ou braços. E além disso, morro a cada segundo, pois meu Deus nunca considerou meu estado de paz.  Athenas diz que me tornei o primeiro esquimó brasileiro.

Que(ria)

         Queria te fazer rir com essas folhas de árvore. Queria te fazer embalar em uma canção batucando as costas do violão. Queria te fazer novamente admirado pelas minhas atitudes estabanadas. Queria te fazer tocar de alguma maneira. Queria te fazer os olhos me encontrar. Queria te fazer ficar uma noite na praia apenas conversando. Queria te fazer me perceber quando nem ao menos existo. Queria te fazer escutar meu silêncio, meu sinal, minha dor. Queria... e depois de mais de dez mil linhas, ainda quereria.

Comprimido


Não há saída nem mesmo pela porta dos fundos. Poderia chacoalhar o mar, combater a chuva e transbordar um vulcão. Assim tamanha é minha agitação. Mas não sou o reflexo equivalente às palavras “destruição” e “caos”. É apenas uma enfermidade exagerada a minha, sem rima, sem tudo, sem nada. Me sinto comprimido nessa droga de mundo sem cura.

Escolha errada. [carta não-enviada]

... ,

           Deixo a chuva escorrer todas as gotas em minha janela. Essa atmosfera é completamente influenciadora. Um filme de romance que acaba em separação, uma música diferente que não vou ser capaz de esquecer mais tarde - por não estar acostumado à baladas em espanhol - e tua mensagem.
             Me lembro do que a gente teve e foi tanto real quanto imaginário. Tenho medo de te deixar pra trás. Mas não posso te carregar comigo no presente. Entende, fui deixado primeiro. Embora eu esteja apoiando minha incoerência emocional, me apego a corência lógica: não é certo eu fazer o mesmo que fizestes comigo, mas não me entenda por seguro, com afinco...
           Estou triste por essa confusão na minha cabeça e em meu peito. Não consigo descartar nossas semelhanças: tua jovialidade, teus gostos, teu sorriso, tuas diferenças. Só de pensar que estou te machucando faz minha respiração ficar ofegante e meus olhos pesados. 
            Estou sensível esse mês e cheio de coisas na cabeça - o que não é vantagem para alguém de mesma natureza. Só peço um tempo para o tempo. Não tenho certezas, aqui, comigo, agora. Na verdade, minha vida está em obras.

Saudades, (para sempre) pela curta vida : eu.

Qual língua é a tua?


Sobre mim e a língua não vejo uma ponte e sim um viaduto.  Embora não seja 50% bem sucedido, a minha tradição é fugir do tradicional, não olhar para trás - não abdico de minha prévia cognição, mas não aturo categorizações. Me interesso em personalidades fortes e boas argumentações. Embora todo mundo tenha um pouco de cada coisa, de jeito nenhum me vejo como vítima, sou mártir. Me contradigo: me odeio e me acho um máximo. Uso minha língua para dizer e fazer-me dito (frase, oração, ou período composto), para tocar outra língua, lamber cada palavra, massagear o palato,  esculpir o sentido, articular as articulações (aquelas),  sentir o salgar das lágrimas, e é claro, sem falta, para o sexo oral. Dane-se as definições. Estúpidas são elas, aquelas, julgamentais, já ditas. Não fazem parte da minha língua.

Minha Gramática e Literatura


Meu passado é perfeito, mas meu presente é recheado de imperfeições, incoerências e contradições. Uma seqüência de adjetivos me perseguem como antagonistas do meu próprio romance: o vazio, o frio e o fragil. Eles não me modificam, nem atribuem uma qualidade a mim. Eles praticam uma ação sobre mim. Me sacrificam, me atormentam, tornam-me sujeito a supremacia do pesar e a escravidão da nostalgia. Por isso, renego a impessoalidade, aliás, sou ultra-mega-hiper pessoal quando falo de mim, você e eu. Nessa corrida incessante o que muitas vezes me mata (pois já morri algumas outras) é a expectativa. Me perco em intransitividades enquanto caio e anoiteço. Procuro a toda a brida sentido em tuas palavras no breu do ontem.  Sou transitivo, objetivo e direto mas me comunico por figuras de linguagens, às vezes mantenho-me subentendido.

Hoje aqui

         É o presente de mim que se encontra despedaçado. E meu único salvador também é meu melhor inimigo. E é assim que não penso, mas sinto. Pensar é uma ferramenta que elucida todo o tipo de dor: aquela que vive no quintal da sua casa até a outra que habita as paredes do seu interior. Desordem invertida. Sem silêncio. Sem luz, sem noite ou dia. A presença de uma ausência, é ficar. Hoje, tudo é estranho agora e isso faz apenas alargar a dor, embora eu saiba que é apenas assim que se vive vivendo.

Melhor amigo


Você alguma vez já viu ela? Normalmente passeia através das árvores. Anda pelas ruas despreocupada. Não importa a estação ou o tempo. Sendo frio ou calor, chuvoso ou nublado. Ela não liga para essas convenções convencionais. Às vezes mergulha em lugares inapropriados. Adora a hora do almoço e adora meu abraço.  Sente-se a vontade apenas estando jogada no sofá olhando simplesmente para o teto. E algumas vezes tem o leve costume de fazer com que as pessoas pensem que é anti-social. Na hora de dormir, ela  geme.  Ela sempre tem pesadelos. Se você alguma vez já viu ela, ligue pro número 01234567. Ela tem um laço vermelho no pescoço e se chama  Calda. Possui porte médio e deixa baba por tudo onde passa. É uma mistura de felicidade com alguma coisa estabanada.  Se olhar no fundo da esfera dos olhos dela você notará claramente a íris  manchadas por uma cor acinzentada. Após isso, certamente, caso seja realmente ela, certifique-se de que sua cara (ou mão), não fora lambida. Não se preocupe, qualquer aproximação brusca, não é agressiva, e sim uma forma mongolóide de pedir carinho. Queria um dia encontrá-la. Mas estou certo de que se encontrá-la, você não fará ligação nenhuma. Não é todos os dias que você pode encontrar um melhor amigo.   

Sol

        As luzes através de seu rosto se cruzaram em forma de cruz. Era sol outra vez naquela varanda. Podia vê-las reluzirem no seu sorriso. Teus dentes bem feitos. Tua boca contornada. Teus lábios macios. Tua cozinha estreita. E teus olhos... inexplicavelmente indescritíveis. Fizeram me sentir tão pequeno e insignificante quanto uma minúscula virgula em teu inteiro romance.

Um rio só


Me recuso a aceitar que passou. Mais um ano passou e nem ao menos percebi. Não percebi os dias, nem os meses, tão pouco as estações.  Foi aquele principio de inverno provavelmente. Aquele principio de inverno que congelou meus dedos, meus olhos e meu coração. Meu coração congelado na dor, permaneceu semi-estático envolto a grossa camada de gelo. Gelo que nem o verão pode degelar.
Mantendo-se apertada contra o coração, acolhida sentiu-se a dor. Sentiu-se em casa. Mas não fora assim como meus olhos sentiram-se. Melosos e lubrificados pelas gotas. Fundou-se ao meu redor um rio. Esse rio chama-se Solidão. E eu sou uma ilha. Uma ilha cujo único habitante sou eu. Me recuso a aceitar que passou. Mais um ano passou, e eu só envelheci.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Aleatório

Dialética
 
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinícius de Moraes !

Nota 10

Observem a abstração de um aluno de oitava série nas aulas de ciências !



 "Levar a sério a escola"   -     É engraçado como a escola impõe predeterminado papel para as crianças e adolescentes. "As crianças entram na escola para aprenderem a ser gente." Ou seja, virar meio de produção para o mercado, ser útil a sociedade. Em outras palavras, ela não é gente até adquirir o diploma, não  é gente até deixar de resistir as imposições. Existe algo de errado no modo que ainda abordam a escola...

"Você já está confundindo as coisas."   -   Tenho certeza absoluta que esse carinha aí foi muito mais além do que decorar algumas linhas de livro, ele foi muito além ao ponto de ter a consciência da reação do professor.

 "É assim que encara as aulas de ciências?"   -  Talvez eles (os alunos) esperem algo mais inteligível, que faça sentido para a vida deles, e não a nota ou o circo da inteligência do Prêmio Nobel - do campo da memorização.

Realmente engraçado! Nota 10!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cancer

     Minha índole é genuinamente evolutiva. Minha filosofia é fundamentada sobre as idéias de síntese e acréscimo sobre qualquer tipo de experiência. Aprendi que nada se generaliza e que não existem verdades absolutas e que a ser maniqueísta é um equivoco homérico. Eu sei, sou canceriano de casco grosso, e por isso, entendo a imparcialidade e as contradições que necessariamente transitam na integração da nossa totalidade: ying-yang. E por isso, me perco e me reencontro. O entendimento do desentendimento. Me acho novamente em alguém, e me perco de novo em mim. E update: me reconstruo e otimizo esse sistema natural e complexo.

Apesar

Na verdade, é que preciso que as palavras sejam vomitadas. Não se pode reprimi-las de modo que  te aprisionem sob pena de morte. Costumo a estilhaçar-me em pensamentos. Por que? Por que? Desesperadamente. Na verdade, que ótimo que as coisas tendem a mudar. Apesar dos apesares.

Subversão: a sala de estar

        Eu não sei o que verte em meu sangue, não sei o que conduz meus pensamentos. Meus instintos não deixam minha mente persuadir meus atos. Apesar do drama, não aceito romances na vida real porque estes são ficção. Ironicamente, meu problema maior deve-se a minha abstração emocional. Tem algo em mim que me eletriza dos pés à cabeça. Que altera meus batimentos. Que me entorpece e evoca delírios. Fico trêmulo e desaprendo o que já sei. Percebo ainda a falta de algo nessa pratilheira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Nas núvens

       Queria um minuto de silêncio. Queria que você parasse de lembrar do outro. Queria ter seus pensamentos nos meus, mas sei que isso é improvável. Queria sentir teu cheiro no meu. Queria tanta coisa. Nunca vou te ter inteiramente. Agora só são flashes, a cada lágrima derramada - escorrendo em minhas bochechas se acomodou no canto da minha boca. Agora não te tenho aqui para afagar meu rosto e me proteger da dor. Tu foste, no dia, meu escudo, na noite, minha força e na vida, meu ar. Tu és tudo o que conheço. E agora...  já faltam palavras, signos. Existe algo em mim sem vida agora. Mas minha maldição foi tua herança e essa dor só acabará quando meu espirito dizer adeus e partir para além do além. "Hoje à noite não tem luar. Já não sei... Onde está meu amor?" Renato Russo

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Entendimento

Ele estava cego e não podia enxergar. Tentou tatear as paredes em busca de equilibrio, todavia sentia-se tonto, torto naquele chão frio. De fato parecia estar afogando suas narinas com a porção de umidade daquele cubículo, e o ar que respirava, infelizmente, vinha em pequenas quantidades. Sentiu um calafrio em seu pescoço enquanto seu rosto pingava suor. Uma nausea demorada não deixava-o pensar direito. Mas resgatando sua vontade mais oculta, persistiu na tentativa de clarear seus pensamentos. E começou a lutar.  (...) Era uma vez tudo tão concreto. Só que agora, estava imerso em uma rebelião de idéias. Uma guerra. Bombardeios para todos os lados e muita dor. Sangue e lágrimas. Uma revolução com apenas um caminho sem volta. Por algum tempo, foi tomado por um clarão. Sentiu medo pelo confronto, pois o que se defrontava caracterizava-se como algo diferente do que já era conhecido.  Ele percebeu que aquele era o tempo que precisava para poder se concentrar em apenas  um objetivo: achar uma solução para livrar-se da maldita e ferrenha escuridão. Seus olhos percorreram afoitos a dependência, mas estava cego e não enxergava. Devia se acordar. Livrar-se do breu, do julgamento; quebrar aquelas paredes, combater  a sí mesmo. Não enxergava o que precisava ser enxergado. A resposta era clara, a não ser que ele não quisesse vê-la ou aceitá-la. Talvez nunca conseguisse sair dali. Ou conseguisse. A única coisa que sabia é que precisava saber. Ele teria que mudar. Mudar, para enxergar.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

I, 2, III (um, dois, três)

Parte I

Sei que um dia tu me ouvirás pronunciando aquelas palavras que um dia rejeitei te dizer. Quando tu voares pelo mundo vou estar aqui absolutamente sozinho. E não importa o tempo que levares até que te sintas nostalgico procurando novamente o caminho pros meus braços, eu vou estar aqui. Nunca serei o mesmo, preso nessas memórias. Na ilusão de que ainda pertença a ti. Porque depois de te amar nunca poderei ser o mesmo. Nada se compara, nem as folhas, nem as lágrimas, nem o tempo: não depois de ter amar. Sei que agora me ouvirás emudecido em um mundo tumultuoso de palavras.

Parte II

Leve tudo embora. Mesmo que aparentemente eu já não tenha nada. Se um dia estive me sentindo no céus -em um paraíso imaginário -hoje devo estar enterrado a sete palmos abaixo da terra. Porque a unica coisa que me restou foram teus tormentos, tua triste alegria, teus bondosos gestos de ingenuidade e o jeito que levavas a tua vida.

 Parte III

Existe algo entre o céu e o inferno. Há tu. Ainda não sei como é ao certo, mas é a média entre o limbo e o jardim do paraíso.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tempos Difíceis da Divagação Temporal

Hoje me pergunto "por quê o amanhã nunca chega?"
E amanhã me pergunto "porque tudo passa tão rápido?"
E hoje me pergunto "por quê me perguntaria isso?".
E amanhã me pergunto "por quê pensei que não perguntaria?"
E hoje me pergunto "o que restou de ontem?"
E amanhã me pergunto "o que restou de ontem?"
E hoje me pergunto "pra onde fica o ontem?"
E amanhã me pergunto se o ontem é um dia antes de hoje.
E ontem, não existia o mesmo ontem.
E hoje existe o ontem e o hoje.
Para o ontem o hoje é o futuro de amanhã.
Só que depois de amanhã eu não sei.
Eu não sei amanhã e não saberei ontem
Mas o que hoje eu soube?

Porcos-Maus


     Certa vez em um verão, havia uma loba que teve três lobinhos. Ela estava velha e não tinha como sustentar a ninhada, então mandou que partissem em busca da sorte. E antes disso os alertou:
     “Meus filhotinhos temo que talvez possam não sobreviver, mas se ficarem não terão chance... E tudo porque os porquinhos são os bonzinhos... E infelizmente a nossa situação alimentar pede que comamos carne... mas vão..."
    O primeiro lobinho andou, andou até que encontrou uma casinha de palha, então bateu na porta...  Ninguém atendeu.
    O lobinho perambulou a casinha toda tarde e nada. Estava cansado e faminto.
   “Porquinho, porquinho, deixe-me entrar.”
    “Não, não, pelos fios de minha barba, aqui você não vai entrar.”
    “Então vou soprar, e vou bufar, e vou sua casa adentrar.”
     Com as ultimas forças inspirou o ar e soprou.
     A casinha caiu ao chão e sem forças não conseguiu pegar o porquinho que estava descansado e bem alimentado, apenas o viu correr à orla da floresta, enquanto via a noite começar, estirado a frente da casinha, sentiu suas pálpebras fecharem.
    O dia clareou, o segundo lobinho andou, andou até que encontrou uma casinha de tojo, então já muito cansado na porta bateu...  ninguém atendeu.
    O lobinho perambulou a casinha toda tarde e nada. Estava cansado e faminto.
   “Porquinho, porquinho, deixe-me entrar.”
    “Não, não, pelos fios de minha barba, aqui você não vai entrar.”
    “Então vou soprar, e vou bufar, e vou sua casa adentrar.”
     Inspirou ar para seus pulmões e soprou.
     Mas o lobinho guardou suas últimas forças para pegar o porquinho.
     A casinha caiu ao chão e quando conseguiu pegar o porquinho que estava descansado e bem alimentado, apenas ouviu um ronco vindo a sua direita, então sentiu uma panelada na ponta de seu focinho, e alguma coisa corpulenta e fedorenta subir as suas costas, roncando sem parar, sentiu suas pálpebras fecharem.
    “Pega ele... Geraldinho! Assim não vale seu porco sujo!”
      O dia seguinte clareou mais tardio, e as folhas das árvores se encontravam caídas ao chão, às laranjeiras geravam laranjas e os limoeiros, limões. Era outono. O terceiro lobinho andou, andou, e andou, até que encontrou uma casinha de tijolos, então já muito, muito determinado, na porta bateu...  Ninguém atendeu.
    O lobinho perambulou a casinha toda tarde e nada. Estava começando a ficar com fome, mas sabia que não podia sentir-se assim.
   “Porquinho, porquinho, deixe-me entrar.”
    “Não, não, pelos fios de minha barba, aqui você não vai entrar.”
    “Então vou soprar, e vou bufar, e vou sua casa adentrar. Mentiroso.”
     O porquinho se assustou.
    “Ahm?”
     Com as últimas forças inspirou o ar e lembrou-se do homem fazendeiro sobrevivente da segunda guerra mundial, que havia conhecido na floresta, que o tinha ensinado como um porquinho pensa e então como eram suas casinhas.
    Jogou então uma “granadinha” pra dentro da “casinha” pela “chaminézinha”.
    KABOON!
     A “casinha” caiu ao chão então fora até o corpo dos porquinhos, chutou o primeiro para um lado, o segundo pra cima do pianinho esfacelado, e o outro pros destroços da chaminé, atravessou a sala, e se aproximou do caldeirão... Tirou o corpo de seu irmãozinho lobo e saiu da casinha com sua cabeça erguida, comendo as laranjas jogadas a beira dos arvoredos que adentrava e jurando que nunca mais iria comer porcos.
    Então, ele pensou.
    “Se estão queimados, são presuntos.”
   Voltou para comê-los e satisfazer seu ego sem peso na consciência, até porque, não foi ele que havia os matados e sim a “granadinha”.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Escrever

       Quando trata-se de transpor as idéias em um papel, a reflexão é a conseqüência de palavra por palavra, frase por frase, período por período, oração por oração, que são acorrentadas no objetivo de entender o próprio pensamento. Escrever torna-se, então, uma ferramenta capaz de projetar o sujeito que produz em níveis de compreensão sobre os processos que formam as idéias do seu autor.
        Mesmo quando nos sentimos vazios, ou sem argumentos para representar em textos alguma idéia, sempre contamos com a cognição e o entendimento básico que já possuímos de mundo, ou seja, as noções construídas a partir de nossas respectivas realidades, proporcionando assim, uma atividade de re-pensar sobre aquilo que já pensamos e re-significar tudo o que tínhamos por definido. Neste caso, proveniente de nossos textos e daquilo que escrevemos, resulta nossa própria e única colaboração ao mundo das idéias, o que em outras palavras poderia ser descrito como a criticidade e a peculiaridade da visão que se estabelece sobre o diferente.
        Embora o procedimento da escrita lide, em boa parte, com o abstrato mundo das idéias, - e daí é criado uma barreira e um monstro chamado prática de leitura e prática de escrita nos inquietos - temos em vista que ela também tem o caráter da mimese. Em outras palavras, existe por trás de qualquer texto uma re-leitura da realidade ou de uma situação ou ficção - atende-se aí as concepções que revolvem sobre subjetividade pessoal e coletiva - já pensada. O que se sabe e o que é passível de ser visto, é um ato juvenil. Uma reciclagem de conceitos e o esculpir sobre o que já havia sido considerado, outrora, obra prima.
        Escrever sobre escrever é indiscutivelmente pensar sobre a genesis de nosso ato propriamente dito. Visualizar mais nitidamente o por quê da necessidade humana de recorrer às práticas de escrita, e a relação intrínseca entre o pensamento e a reflexão. Uma ação de se auto-reconhecer, um jogo dos sete erros em frente ao espelho que transita entre a teoria e a prática. É deixar a ociosidade de lado para falar sobre tudo, tudo aquilo que faz de nós aquilo que somos ou aquilo que deixamos de ser, ou então, o simples reflexo do que acreditamos ou deixamos de acreditar.

Ser humano

         "Provavelmente", "ser" "humano" é estar trancafiado em mais um daqueles pesadelos que tu tentas fugir correndo mas não sai do lugar, aquele que tu gritas seco e mesmo assim tua voz não transcende o silêncio por mais que se esforce. Ou então sujeito aquele pesadelo repentino que te arrasta para uma queda interminável na qual tenta se segurar em algo mas não tem força pois seus braços estão cansados e seu corpo pesado. Ou por último, afogado no mais temeroso e também o mais nobre dos sonhos ruins: o da onda. Tu sabes o que vai acontecer, te sentes acuado e sem esperança, e por isso tu simplesmente desiste de lutar uma batalha perdida. Te situas em algum lugar com uma visão privilegiada e espera que a onda lave toda as coisas de ti: as boas e as ruins.
         Provavelmente, embarcastes naquelas situações que tu sentes como se fosse o nada. Deixaste a água levar todas tuas memórias e sentimentos que resgatassem tuas concepções de humano, certo e errado. E percebestes, só assim, que apenas foi o que tu mesmo criastes. Nesta seqüência, tu concluístes que não reconheces mais os teus próprios fragmentos submersos na água à luz da lua. E então tu te conformou. E aceitou.
        Humano. Cruzou alguma vez em teu pensamento que tu ages contra esse desaparecimento. Resistes a essa fragmentação. Negas a morte. Mentes para a vida. Driblas a ti mesmo e retorna a ti como um peão que gira sob seu próprio eixo? A cada mau dia, tu respondes bom dia e ainda te espantas por leres a estranha locução mau dia. Tu dás nome a pessoas e a coisas, tu te reafirmas. Comemoras menos um ano de vida. Sofres porque amava alguém que não amou... a ti. Às vezes (quase sempre) te olhas no espelho e não vês o que precisas. O nada. O vazio. O abstrato. O impossível. E não usas teu maior poder, tua qualidade genuína: a habilidade de ler tudo das mais diversas maneiras.
        Provavelmente, todas as partes de ti ficaram para traz. E haviam provas de que um dia elas te pertenceram e que tudo fora real. Poderias existir em um mundo inexistente em um outro estado, de outra forma, com outro significado, com outros princípios; outros surrealismos reais, sem conexões e sem sentido. E, sim, estar feito de incertezas, queridas agonias, urgências e medos, como os tais pesadelos; estar (in)feliz por estar infeliz. Sobre qualquer circunstância ser humano é ser como és. Provavelmente.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Quimera

Quimera. Tuas palavras são restos.
Elas me dariam um livro.
Teu nome seria um dos personagens.
Tentaria te trazer para um mundo que só você existe - já seria o suficiente.

Se por acaso tu lembrares de mim em um dia qualquer.
Sentir a vida em um lugar bem distante, ouvir a música e tocar as ondas. - já é o suficiente.

Teus anseios me preocupam e fazem meu corpo ficar trêmulo.
Mesmo em silêncio tu falas mil palavras.
Tudo passa enquanto estás na estação e teus braços ainda estão abertos;
tudo passa em todos os lados enquanto tu estás na estação;
tudo passa aqui;
e tudo
é nada.

Tu encontraste a chave para a porta de meu apartamento, sem ao menos perguntar onde.
Tuas fotos estão guardadas na gaveta do armário da sala.
Tua música favorita na pasta saudades, no desktop.

Não tenho frio, porque uma vez foste sol.
Tuas cartas estão, ainda, sobre o bidê do quarto.
E por entre as fendas da janela tu vens.
como fios de luz, suaves e fracos, no início.
Que aos poucos tornam-se feixes maiores, iluminando meu rosto.
E não há tempo.

Não há tempo.
Nunca houve. Nosso tempo nem é tempo.
Tempo é biológico, é uma questão de ponto de vista.
Teu tempo é eterno e efêmero.
E por isso eu digo,
não há tempo.

Tuas palavras quando se juntam formam lindas frases nunca feitas.
Tuas mãos macias e teu abraço cuidadoso e sutil
me conferem o suicídio dessa lembrança,
mas nada de piegas, nada de tudo.

Aposto em problemas não resolvidos
aposto em tua natureza ambígua
tua movimentação voluptuosa
e tua personalidade inquieta e instável
teu âmago enfadado de sonhos altos demais para qualquer um alcançar.
Aposto nas macieiras de sábado e de um dia no campo;
Aposto nas cartas e na tuas frases lindas que derivam de tuas primeiras palavras.
- Apostar é jogar. Jogar é a abertura de uma simplíssima oportunidade de perda.
Aposto em perder. Se eu perder não vai soar tão ruim. -
Ilusão. Ter-te-ei acompanhada até meu leito de morte com plena felicidade de minha ida.
Afinal, tudo passa, não passa?

Sideral


A aparência do telescópio era anciã. Estava coberto de pó e seu tripé bastante enferrujado. Podia ver através de seus olhos bondosos uma nova versão do vazio que representa nossa Via Lactea. Naquela noite, os planetas estavam desalinhados e os cometas traçavam linhas alaranjadas por traz do anel de saturno. Entre as estrelas havia uma nevoa abaçanada emitindo um sentimento amargo, que exprimia uma mistura de desilusão e misticismo. Por ventura desses mesmos olhos bondosos, pôde ser avistado um aeróstato suspenso no infinito... perdido, flutuante, sozinho, sem ninguém, sem ser cuidado. Foi ai que fechei o livro.

sábado, 24 de julho de 2010

Condo 2.


Lembra que eu jurei não amar?
O condomínio nunca foi o mesmo.

Sim. Eu não amei mais, me tornei uma lenda das baladas. Todas as noites eu chegava em casa depois de muita bebida com alguém. Uma noite de sexo e prazer. Só por uma noite. No outro dia, na maioria das vezes, tinha que perguntar o nome de quem estava ali. Já nem lembrava, não importava.
Além de minha falta de memória absoluta, tem também minha irmã que se mudou para o apartamento do fim do corredor - que perturba de vez em quando..
Desde então, não acredito mais em amor. Mas o motivo vem logo depois.
Lembra do casal que eu costumava assistir da janela do meu apartamento há 5 anos atrás? Os românticos vizinhos. A resposta de um relacionamento perfeito?
Eles ainda moram no condomínio. Bom, na verdade não quero entregar de bandeja o final da história. Existe uma série de coisas que precisa-se falar antes que julguem qualquer um dos dois ou a mim:
O nome dele era Daniel e o dela é Julia. Ambos se conheceram em meados de 90, eram colegas de aula. Estudaram juntos até concluir o colegial. E depois foram morar juntos na capital: Porto Alegre. Alugaram o próprio apartamento e começaram a viver a linda vida de casal juntos. Aparentemente tudo estava bem até completarem 2 anos vivendo juntos. As coisas mudaram um pouco a partir daí. Eu lembro que eram como unha e carne e pareciam muito unidos. Eram os defensores do brasão do amor. Só aparentemente.
Acontece que ambos eram um pouco diferentes em alguns aspectos extremamente significativos:
Daniel não era organizado, Julia mantinha sempre a toalha no banheiro. As cuecas sempre ficavam em cima do bidê. E o pente sempre ficava com os cabelos da Julia. Ela era perfeccionista, Daniel não sabia o que isso significava. Ele era romântico, Julia um pouco racional, as vezes fria. Daniel de puritano, tornou-se sincero e de sincero tornou-se qualquer um. Daniel queria sexo e Julia estava cansada do trabalho. Daniel estava com dor de cabeça e Julia dorme com a TV ligada. Enfim, existiam certas divergências, na verdade.
Bom, nunca acreditei em amor até algum momento.
Meu nome é Pedro. Lembra pedra. Pedro coração de pedra. Talvez minha mãe previu tudo isso. Quem sabe?
Amor pra mim era algo abstrato. Como nos confirma meu amigo Aurélio. Não conseguiria transcrevê-lo pra vida. Até encontrar Karina.
Karina estava em um desses ônibus cheios na vinda da faculdade. Ela estava do meu lado, me mantive imóvel. Olhava para ela através do espelho. Percebi que ela não me olhava.
Hmm, pra mim Amor era nada do nada. Era como a janela e o espelho, transparecendo apenas reflexos e traços de uma existência que não poderia ser atingida, alcançada.
No entanto, ela perguntou as horas. E eu comentei sobre a temperatura. Ela perguntou o que eu cursava e eu perguntei o que ela fazia. Eu perguntei onde ela morava. Ela me disse que morava perto de onde eu descia. Ela tinha telefone. Eu não. - mas anotei em um bloco de notas que ficava no bolso de minha pasta.
A partir dai tudo foi inquestionavelmente inacreditável. Como num conto de fadas.
E então, uma chama, flamejando, uma faísca se acendeu dentro do coração de gelo, derretendo-o em lágrimas após 2 anos de namoro. Amor? Amor que morre?
Ok. "Senta lá Claudia" ( uma expressão que uso pra alguém que conta história pra boi dormir). Como resultado, fiquei meio ano desolado.
Meus pais se mudaram e deixaram o apartamento pra mim e minha irmã, que em seguida resolveu se mudar para o tão- aclamado "apartamento do fim do corredor".
Foi aí que através de um impulso juvenil pós-traumático e das teorias de Waldo Emmerson "você pode, você consegue" ( os american values mesmo) acabei por tornar-me "qualquer um", assim como Daniel (ex-namorado de Julia - caso não estejam prestando atenção.).Eu era a lenda do Independência.
Nos finais de festa felizmente podia escolher, quem já havia conhecido... a Betinha, a Renata, a Dani, a Alessandra, a Luisa e a Nessa e etc. (outras mulheres comuns)
Cada vez que ia pra cama com uma delas, criávamos um gesto singular. E na balada, podia escolher apenas por simples gestos. E assim que eu o fazia. Uma vinha. E as outras nem suspeitavam. Apelidei esse momento da noite como "Caça". E genericamente elas... são "presas", sem terem ao menos consciência, é claro. Bom, eu não sou machista. Só estou descrevendo um processo.
Hoje é 20 de dezembro e faz já um mês que comecei a conhecer a Julia. Tudo aconteceu numa livraria. Ela estava lá na sessões de Sexo e eu não acreditei.
Fui perguntar como ela estava e o que fazia ali. Ela me disse que sempre gostou de ler e que é uma boa distração. E eu disse " mas sexo". E ela disse que prefere um livro de sexo do que um filme pornô, disse que optava pela imaginação! Perguntei como ela estava (de novo, por algum motivo estranho), e ela respondeu que estava bem. Nos sentamos no sofá e perguntei de Daniel. Ela me contou tudo o que tinha acontecido: "foi a vida.as coisas passam, tudo passa, as pessoas passam." Depois daquela resposta senti um calafrio na parte de traz do pescoço e uma leve fraqueza no estômago.
Acabamos nos encontrando em uma festa, e no final da noite fomos pro terraço do apartamento dela conversar e tomar chimarrão. - e vimos o sol ressurgir.
Sou mais novo que ela... 6 anos. Mas estamos nos entendendo bem. Curto o jeito dela. Ela é durona, diferente. Ela não se entrega fácil, mas quando se entrega é intensa. Estamos vivendo bem, estou vivendo muito bem. As vezes no apartamento dela, as vezes no meu. Quem sabe não é amor? Ninguém pode saber. Hoje em dia é tão fácil se apaixonar, deixar alguém entrar. Todos temos apenas o grande medo de sermos o lado em desvantagem: aquele que é deixado. Que pára de viver, e apenas sobrevive. Se alimentando de memórias para resistir, como um parasita, dependente. Dia à dia. Um sofrimento desnecessário que se carrega até o tumulo. Pessoas realmente passam, assim como as coisas. Mas elas deixam marcas que demoram pra ser apagadas. Não tem volta. Amor, amor, amor: uma vida de riscos. O condomínio está mais alegre... por agora (pelo menos). Todos nascemos e morremos sozinhos e por mais difícil que seja aceitar essa imensa vontade de se fazer entendido e de poder dividir alguns problemas ou sensações com outro ser, nunca poderemos dividir o que sentimos, nunca poderemos dividir os nossos sonhos, os nossos pensamentos, o que os nossos olhos e o que nosso coração vê e sente. Somos seres solitários. E é só isso.