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domingo, 20 de novembro de 2011

Sistema óbvio das ausências

       Sempre, nada se compara ao charme do invisível. Da selva anterior preenchida pelo mistério. Da estrada sem destino, da catarse do vazio, do dilúvio das ausências. O momento da espera de todas as coisas é um momento ímpar.  Algo que implica violentamente no nervosismo de nossos corpos frente ao amanhecer de um novo dia. Embevecendo-nos de motivos, razões inventadas, pensamentos insaciáveis, gramaticas incompletas. Pontuando fins a cada minuto, hora, dia, ano; a cada palavra e a cada espera de uma; a cada conversa e a cada espera de uma; a cada encontro e desencontro. Uma estante a espera de livros, o começo de um novo milênio e os ciclos viciosos se perdem em coisas mesmas de diferentes maneiras. De modo que a beleza não se canse, os motivos não se desgastem e as coisas, ainda assim, se omitam e não mudem.

Palavras sem significado

       Havia um livro em suas mãos, sem palavras. Apesar de escritas quase 46.000 delas. Havia muitas dúvidas se elas existiam, diziam-se ou multiplicavam-se. Não eram essas, aquelas palavras, as ditas. Ditas cujas que por qualquer um dos dois, poderiam ser lidas.
      De fato, só havia um lado apto a atravessar os abismos semânticos ali contidos. Enquanto do outro lado, mesmo que olhando-as, ainda não se podiam lê-las, as palavras. Sem falar, nas leituras sonoras que decifrariam o medo, a solidão e a asperesa desse informante. Sentimentos esses deixados para trás. Não que eu enxergue ou perceba a presença de tais elementos.
     O que muda? Talvez não importe. Não importa não ver alem da profundidade que pudesse haver. As linhas de interpretações que intercalam-se com as leituras prévias. Em outras palavras, aquelas não ditas. O que eu quero dizer com isso se resume a uma pergunta: é preciso entender com igualdade as coisas da vida? Deve haver um nível, que reflete sobre o quanto se entende para  que outro seja entendido; um nível que diga o quanto não entendido o outro é. 
     De qualquer forma, não iriam se entender os Homens de Neandertal, se isso fosse preciso. Isto é, e se a palavra não for tão importante, tão afiada e inteligível  quanto as dimensões polissemicas do homem? Para ser mais específico, levanto a tona a pergunta: quem diria que o homem primitivo nunca amou? Ou o amor nasce após o Romantismo medieval? Ou são apenas as histórias, com palavras.
     Portanto, não há livro de História que contasse essa história mal contada. Surgiria o amor com as palavras ou será que ele justamente morreu após seu surgimento? Seria um amor menos original? Havia um livro em sua mão sem palavras, respostas às perguntas dadas, pensou ela, a menina que amava Eduarda.

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada." Clarice Lispector


sábado, 12 de novembro de 2011

Para despir-me dos pensamentos que pesam

    A vida é como um inverno permanente, que mesmo no verão esfria as mãos e os olhos, queimando poucas  esperanças, estabelecendo entre minhas ações gritos de silêncio, que de tanta fúria configuram-me em sua insignificância expressiva; assim como uma árvore que não dá frutos e a água que escorrega por entre os dedos; sem motivos, sem significados.


Life purpose

William Shakespeare 

Life's but a walking shadow, a poor player,
that struts and frets his hour upon the
stage, and then is heard no more; it is
a tale told by an idiot, full of sound and fury,

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Penso, sinto e não acredito

Não sei se o que eu penso é o que eu deveria pensar;
se essa culpa é a consequência do que fiz.
Não sei se esse sentir-se pequeno deveria transbordar-me constante nos dias que passam sem me afogar.
Não sei se o que vive em mim é puro e merece a pureza de um infeliz

Não sei se o que eu sinto é o que eu deveria sentir.
Não sei se permanecerei enclausurado nessa condição
Não sei se é o fogo que me faz rir
Não sei se é o gelo que me encolhe ao chão

Não sei se mudo aos poucos ou se mudo em marchas lentas;
Ou se existe uma opção  para tais crenças
Não sei se o que me rasga são as incertezas
se soubesse não escreveria linhas densas

Não sei se o que faço é o que eu deveria fazer
 se te machuco e olho por mim
 se me machuco e olho por ti
Não sei se a dor  ainda é uma opção
Não sei se a dor foi sempre invisível como uma maldição
Uma doença sem cura e razão
Mas não sei se quem fala vem do meu coração
Não sei se o meu coração é quem fala em vão

Não sei se o dia começou ou terminou
Não sei se os ponteiros falam a verdade ou fingem se sobrepor
Não sei se acredito mais nas coisas da meia noite
Não sei se fico, não sei se vou

Não sei se minha alma já se esgotou
de respirar; de gostar e sufocar; e temer; e esvaziar
De voltar aos versos de primor;
De sentir-se pequena em meio ao seu maior dilema
que é o amor

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Segurei o sol

         Mesmo que hoje ainda eu falasse o óbvio, não seria suficiente. Foi o que pensei ao voltar em meus pensamentos    há alguns anos atrás.
        Esperava sob a chuva sentado no meio-fio entre a calçada e a rua. Estava na frente da sua casa. Esperando uma ligação que fizesse sentido. Nariz fungando, frio que te encolhe e a água batendo contra minha lateral incessante. Continuei firme, pois valia a pena esperar, afinal era você, da outra cidade, sob uma convulsão emocional por causa minha ( hoje vejo bem que  por causa sua mesmo ). Fitei o fim da rua quando o relâmpago iluminou o poste desligado e havia uma nuvem logo atrás com o formato de seu rosto. Pensei em te contar caso ligasses, iria te dizer que havia te visto feliz e que tinha consegui até mesmo perceber os seus dentes no meio daquela escuridão. Mas segundos depois desanimei-me com a certeza de que você não iria acreditar ou mesmo me dar razão, sentir-se instigado. Noutro dia, pela manhã, havia pensado em te dizer que as janelas do prédio onde estudo, em um vendaval, quebraram-se uma a uma, inclusive uma que estava encostado. Sorte a minha que saí dali para te enviar uma mensagem perto das escadas, aonde havia sinal da operadora. Não seria muita coincidência você ter me salvado? Acontece que, de certa forma, isso não tinha nada a ver conosco. Isso o que? Vincular a realidade com a fantasia ( pelo menos foi o que você disse quando tentei te contar ). No nosso último final de semana fui à praia e você me perguntou o que eu estava fazendo lá. Eu  o respondi que estava tentando pegar o sol. Você disse que eu estava mentindo e que era pra ser realista e te respondi o mesmo, esperando que você reagisse diferente. Meu peito apertou e sua voz se enrijeceu. E depois de abusar de minha tolerância, você se desfez de mim como faz com absorvente.
           Te liguei milhões de vezes e fui na tua casa, bati na tua porta e imaginei que você iria desculpar-se, me abraçar e me beijar; imaginei que você  iria querer me entender, se sentando no sofá e perguntando o que estava acontecendo; imaginei que você se arrependeria e perceberia que sempre te quis bem; imaginei que você apenas estava insegura e iria tentar melhorar; também imaginei que você poderia abrir a porta e dizer que eu estava sendo imaturo e que tinha mudado de idéia: eu era muto novo pra você; imaginei que você poderia estar com alguem e me mandaria ir pra casa ver desenho animado; imaginei que você iria dizer, "desculpa, mas acabou para sempre". Mas isso tudo é ficção: a única coisa que não imaginei era que você se mudaria e nunca mais atenderia ou ao menos retornaria uma ligação. A realidade é que você me deixou ali na chuva com o seu sorriso que nem sei se é seu;  um buraco no peito no lugar que habitava um coração; com um amor que nem sei se aconteceu; e uma foto daquele domingo de primavera na praia.

   

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Confusão final

          Todo artista ao escrever se preocupa com o efeito que quer provocar no leitor. Pois, todo texto possui um propósito comunicativo, já diria Jacques Lacan. No entanto, o que acontece, é que dessa vez quero desconstruir e bombardear esse sentimentalismo barato (?). Afinal, segundo Freud "o desejo é o desejo do Outro" . Bom, embora isso tenha soado subjetivo demais, constitui-se de uma reflexão psicanalítica da linguagem. Em suma, o significado de querer fazer-se entender ao desconhecido. Na linguagem verbal, isso se evidencia desde a organização de seu texto, as escolhas lexicais, e as questões que tangenciam o "meio" e que, através de suas variações, modificam os "fins" . De fato, tudo tem inicio, meio e fim. Faz parte da vida; é a dialética prenunciada de Marx; é o ciclo da vida. Mas imagine só quantas coisas passam por esse processo na vida de uma, apenas, pessoa. O idealismo está avesso a vida em tese: para alguns mais, outros menos. Tudo teria sentido se as coisas fossem mais simples. - Ai, que texto estranho! Re-li agora e resolvi escrever no meio experimentalmente. Desconsidere isso, ok? - E o que há de simples na vida? Sim, tudo; algumas coisas; nada. Cada um possui sua verdade, haja vista sua observação empírica. Mas não curto, plenamente, as ideias planas de Descartes sobre a vida. Existem coisas, aformicas nesse plano. Além de números, em um nível de pensamento extremamente submerso ao existencialismo, há uma superfície frágil, ilegível, indecodificável, tão permeável quanto a água, tão deslizante quanto o gelo e tão concreta quanto o vapor. Falar de sentimentos, não é somar dois mais dois, variantes existem, mas muito além delas estão as histórias, as angustias e o medo. - Queria férias. - Medo de viver, medo de acabar medo de começar,medo de não ser, medo de estar, medo de não amar, medo de sofrer, medo de pensar. Medo de não querer temer. Medo do que é diferente.  Medo do x e do y. A angústia de prometer, porque as promessas falham. Rir e não estar querendo rir. A pressão de ter que estar, ter que aproveitar, ter que ter um labrador, ter que se casar, ter, ter, ter. Pra ser feliz, eu preciso ter isso, pra estar feliz eu preciso ter aquilo, pra ser saudável, eu preciso comer isso, pra viver disso, eu preciso fazer aquilo, pra saber isso, eu preciso saber aquilo... tudo seguido, racionalmente, como se a vida fosse linear, regimentar e limitada as mimeses, rotinas, habitos, ao cliche do pensamento, as asneiras e leis, à crítica a qualquer ser humano, como se a razão fosse uma só, arbitrária e gradual .Existe uma razão pra tudo hoje em dia. - e que chato e impossivel é saber tudo -  Dia a dia é sempre uma nova euforia. E o que eu quero com isso? Dizer algo ou nada, dizer nada, sei lá.- Que vontade de apagar tudo! - Só sei que tudo tem fim.