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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pai

           Existia um caminho. Meu pai disse que eu deveria tomá-lo com coragem. Não olhar para trás, nem ao menos duvidá-lo por um instante. Que deveriam, as escolhas, serem confiadas com o poder da alma; assim não haveria tempestades devastadoras; nem terremotos mortais; a vida no deserto iria ser parte da imaginação. Continuei caminhando,mas minha garganta estava seca. Tentei não reparar e lembrei que meu pai disse que talvez estivesse errado: porque todos erram, mas as vezes errar é uma escolha e, portanto,  faria parte de quem eu seria. Não haveria problema nenhum se, por exemplo, eu parasse pelo canavial e, esperançoso, como ninguém mais, esperasse um eucalipto arrastar-se sob minha sombra,  se partisse ao meio e vertesse um pouco de sua água em minha boca. Eu não gostava da ideia de um eucalipto locomovendo-se como um ser humano, pois me parecia um tanto alienígena, - ou pensar nisso seria algo alienígena ? -; eu estava bem concentrado na minha anomalia, mas acreditava cegamente no diferencial. Aprendi a  rastejar como eucalipto que nunca existiu, enquanto meus olhos marejavam um rio que se afastava. Eram alguns esqueletos no reflexo do solo enfraquecido, alguns esqueletos que ia driblando. - Uma vez perto da fazenda, no curral do vô, um boi-zebu comeu a Novinha e outros gados. A Novinha mamava na teta da mãe ainda. Ela brincava de lamber  meu braços secos de areia e me deixava doido para brincar com ela. Mas o pai disse que tínhamos que dar modos para ela, e trata-la como se fosse um filhote de vaca qualquer. Afinal, se fosse preciso a Novinha iria virar comida, porque a seca ameaçava a fazenda do Vô. O medo era grande, porque a senhora minha mãe estava de cama, meu Vô ja não falava coisa com coisa e chamava pela falecida. Mas meu pai disse que a gente tinha faculdade ainda pela frente; a gente: eu e meus dois irmãos: Izaquiel e o Iodo. Nós nunca acreditávamos  porque ele era fracassado em sua vida rural e vivia chorando o sertão. Tinha perdido tudo e acabou por ficar com a propriedade do Vô; Mas meu pai num desistia facil. Ele seguia e me dizia para seguir, e filho de peixe- peixinho é. - Eu já me debatia sem os pés, gangrenados quando continuava me arrastando pela Estradinha da Tristeza. Só podia ser ele: mirei com os olhos marejados, baixo 30 graus... um menino me abraçou e carregou meus restos na parte de trás da carroça.. mas não era. Acreditei em meu pai, e deixei parte de mim para trás para viver a vida ardida do "seguir em frente". Não foi como meus irmãos que apodreceram nas barragens do São José, pouco antes do canavial. Eu chorei ontem por não ter ficado, porque hoje não sei se fiz meu pai feliz; só sei que sofri durante o caminho, o caminho que já percorri.



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ciclo da Mudança Comum

         Deixei entrar. As palavras dormiam enquanto o silencio as consumia - a maior catástrofe que um dia houve em um gesto pacífico. A noite transbordava, e não era do sangue minha fraqueza esguia: maior que minha vida, menor que minha rua. Compondo suas mudanças climáticas, definiam as conveniências de um dia de noite; do som longínquo vento pueril, do cinza frio, do quarto quente vazio.  Era uma novidade antiga. Meu pensamento esquiando num gelo primaveril, acompanhando as imagens da minha inconsciente inocência - que falta de prudência. Eram as estações avassaladoras, mas eu te disse nada (pois o nada causaria). Então, me senti secluso, conjurando poesias para sobreviver as ausências atuais ou àquelas agora-conscientes. Me perdi na sua cor, em meus textos tão indolores, insensatos- inferiores. Me lembrei do nascimento, o abrir dos olhos do sentir - que quando sinto, me sinto perdido, pois me acho, acho-me sendo quem eu vejo quem realmente sou. Temo ser eu, uma ideia tão controversa - ou ser simplesmente igual a todo mundo. Se nasço nas noites do breu - pensando - meu berço é feito de estrelas. Afinal, são delas que nossos fragmentos originam-se. E das ideias me nutro para ser a neve; a neve azul, breve, a que derrete, que muda e verte a cada primavera que passa, a cada dialogismo que não cessa.


domingo, 23 de setembro de 2012

O dia em que tudo parou

      Ao disparar os olhos sobre o pêndulo do relógio, o tempo passava sem passar. As sombras se arrastavam pela sala de jantar e era madrugada. Pensou no dia que estava para nascer enquanto roía um de seus dedos. Havia uma viagem pela frente e a ansiedade lhe consumia. Assim como os anos mudavam, era sabido que mudanças aconteceriam e a necessidade delas parecia cada vez mais transparente. Sua família dormia todo esse tempo e já era tempo demais para esperar que acordassem. Seus olhos estavam pesados, mas ele precisava dormir e a porta aproximava-se de suas intenções. Observou as escadas na última esperança de que alguém acordasse, no entanto não houve sinal. As notas fixadas na porta da geladeira  chamavam atenção sobre as regras da casa: Não abra a porta do freezer, mesmo se pretender fechá-la; Não suje o chão, mesmo se pretender limpar; Não ultrapasse os limites, mesmo se tomar responsabilidade por suas consequências; Não tenha curiosidade, mesmo se for curioso; Não veja TV, mesmo se quiser ver;
       A cozinha era grande  e retangular. Havia o tal relógio, a geladeira e um balcão velho de madeira que fazia volta. Nos fundos da mesma havia uma escadaria e em seu lado oposto havia uma porta com a seguinte inscrição "Pronto: destrave a maçaneta para viver sua vida.". A direção entre ele e a porta diminuia enquanto os recados na geladeira pareciam maiores e as letras aumentarem duas vezes o seu tamanho comum. O relógio soava três da manhã e eu imaginava todas coisas que esperavam por mim atras de seu universo no minimo diferente. Os segundos tornavam-se mais lentos que o normal enquanto meu pensamento temia o pior: não ter a coragem suficiente para combater a prosopopeia daquela cozinha sombria. Os armários tinham sorrisos ironicos e a geladeira murmurava algo para as anotações como se fosse uma espiã. A mesa tremia seus quatro pés enquanto meu corpo tremia por inteiro. A chaleira na boca do fogão assoviava frenética  lhe impulsionando a revelação. Todos objetos contra um. Sentiu-se suprimido. E no chão das escadas a sombras do trovão refletiam o clarão. Os dedos tocavam a maçaneta. Não havia ninguem ali. Segurou-a. Girou-a. Os armários abriam-se imóveis, estagnados no tempo.  Uma luz invadia a cozinha, seus olhos miravam a fresta. A mão que puxava a maçaneta exigia a realidade, exigia o impossivel naquela cozinha. Um vento cruzou seu rosto, ele não se esqueceu quem era, ele não parou.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lugar para encontrar


É  noite, mas no escuro a poesia se esconde
na introspecção da tormenta, 
na calma da tempestade,
o sentimento gigante
no concreto das ideias abstratas.

Sabia o poeta que ao sentir obteria instrumentos,
a indiscrição da palavra, 
na memoria das atitudes mais intrometidas;
da beleza que fora nunca escolhida;
desembrulhei, portanto, a realidade afrodisíaca,
da ausência de um encanto sempre presente;
a que faiscara olhar perdido ao relento;
um movimento pulsante sobre a ciência do pensamento: 
era tu. - te olhei e era noite, 
a tristeza acabava virando a esquina -
pois na noite encontrei a essência de meu composto-elemento:
queimas no sangue, enches o pensamento, 
imagens de ti nutriam alegria,
imagens de ti sem qualquer sentimentos: a inércia.

A noite assim se ia
no enroscar de um caloroso dia -
tu amanhecia; e em mim é noite.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Incomunicabilidade

         Eu gritei não, mas não fui ouvido - havia o ruido incessante da televisão. Senti o pulsar de minhas veias e minha boca salivar umas três vezes a mais do que o normal. Eu disse Amarelo, e ainda havia dedos no vermelho, apontando, convincentes. Apertei minha mão no pano da mesa segurei-o fortemente num acesso de raiva momentâneo. Havia uma telefone entre nós. Gritei sim, eu disse sim, e ouvi algo soar como um "Por quê?", um por quê desnecessário, pois em meu sim a justificativa já vinha acompanhada em anexo semântico: o contexto.  Foi grego, e coloquei minhas mãos na cabeça. Havia uma conexão de internet entre nós. As linhas de minha garganta inchavam como se fossem explodir,  minhas palavras enchiam-se de ironia, me senti fraco e impotente. Gritei claro que não, mas você tornou a opor-se aos desejos meus  aqueles mais inconscientes, impacientes e incoerentes. E eu falei "faça o que quiser" e o mais lógico que tu fizeste era o obvio: viraste as costas e  caminhaste... mesmo quando nunca pedi por sua ida: e me lamentei -desejando sua vinda.

Espectador

        Não havia mais inspiração, nem copo de água. Não havia mais tristeza, nem frio ou quietude. Não havia introspecção apenas um leve sufocar. Não havia ausências, talvez uma distante nostalgia. Mas não havia magoa ou rancor. Não havia coceira nas ideias, não havia canetas, não havia anotações. Não havia sonhos, não havia expectativa. Não havia anseios maiores que os do dia posterior. Não havia nervosismo, escuridão, insegurança. Não havia papel,  nem telefone,  nem vontade de segurá-los com a ponta do dedo. Não havia melodia, nem rima, nem vontade de fazê-la existir. Não havia beleza, num espasmo de clareza, não havia tristeza.  Não havia  amargura, nem campos floridos, catástrofes, apocalipses, crises e incertezas, maldade ou desespero. Não havia critica, nem vontade de achar uma. Não havia testes a serem realizados.Não havia nada. Não havia. Parei por um segundo, enquanto me refleti no espelho do quarto que não era meu, e não me vi o mesmo de ontem. Quando percebi: voltei a ser um mero espectador da vida.

Son and Father

     "In the end we are lonely, and naked, somewhere bleak. Empty of thoughts and  full of blurry expectations. The only thing that truly saves us is love" as he finished reading, the man closed the book and nestled his son into bed.
       - End of story. Now I think it's time for you to get some sleep.
       - What does it mean? what did Shakespeare want to say?
     - It's no worry for a ten-year-old boy like you. But I think he is talking about something that is common to all of us: beings victims from our existence, we cannot escape from our own nature.
       - So dad, am I going to die lonely? - the boy leaned his head on his right hand curiously.
       - I can't predict the future. But I know deep into you there are good intentions.
       - What does it have to do with dying lonely?
      - It has all to do with dying lonely...  - he arranged the boy's pillow. - people are made of ideas. Let's say your head is a big colorful profitable farm. Well.. if you sow nice thoughts, filled up with caring and hope and they grown strong with you, then you would produce good acts... even becoming a part of yourself. Then, whenever you made a decision, it'd make you ponderate if that would be the finest move, accordingly to your nature.
       - So, are there good people and bad people? Do the bad ones die alone? What about the good people, do they have to die? 
      - There are people, and everyone dies. Our body grows old, it's part of life. The difference is not how it end; it comes when we make decision; when we stand for a cause; when we fend for what is right instead of corrupting ourselves;  and respect the different forms of thinkings, eventhough we cannot fully understand them.
       - So, loving and being good is a politic act?
      - Attitudes are politics. Humans, based on their social conditions, are politic beings. In order to live in harmony and happy they need to comprehend their brother and sister. 
       - So if I sow good thoughts and produce proactive attitudes, I won't bother how I'm going to die?
       - Will it matter in the end at all?
       - I don't know..
       - One step at a time.
  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Direção

         Começaria uma viagem ao desconhecido, ou não.
         Senti o vazio tocá-lo com meus olhos, pois deixaria algo, mesmo que não mais o quisesse. Sabia que poderia ser doloroso, torturante ou até mesmo feliz. Minhas mãos tremulas e o pensamento falhando enunciavam talvez que não fosse haver solo sobre meus pés nesse trajeto. Não até que eu me adaptasse as tormentas constantes. Portanto, te adentrei sem hesitar. Não precisei de uma explicação ou desculpa qualquer. Apenas entrei levado pela curiosidade sobre a dor e felicidade, que outrora havia desaprendido. E só de olhar para o relógio pude perceber que meu tempo também já não era o mesmo tempo que vivi numa outra realidade qualquer. Meu pensamento ia se perdendo.. E foi-se por completo quando atingi a água. As coisas balançavam e tu assoviavas. Meu corpo percorria as sensações mais diversas, contidos e conservados, embora não conseguisse esconder minha euforia e entusiasmo. Nem mesmo sentia como costumava sentir, o vazio aos poucos transformando-se em uma estranha tranquilidade. Caminhei até a proa a fim de olhar pela ultima vez  o que havia passado por mim nos últimos momentos, captar o que havia sentido, pois o que foi também são fatores que define quem eu era agora, do teu lado. Embora meu corpo estivesse dentro do navio, vi outros Eus abanando suas mão, cumprimentando um adeus, para sua estrutura material, seu D/RNA ambulante. Vi os fatos desaparecendo na beira da costa, pensei sobre suas ausências e seus inevitáveis efeitos sobre mim.
        Ao me virar, não havia expectativa, nem pudor e muito menos hesitações -mentiras. Afundei como uma ancora em um profundo futuro desconhecido - verdade. Aliás, não definiria isso como um novo começo, pelo fato das coisas terem um  único fim e essa ser minha opinião final. Eu não carregava o conceito humano de curta datas, como se fosse um mecanismo para ocultar as coisas insanas, que muitas vezes fazemos. Na história do homem, os erros são desculpas para o surgimento desse "novo começo". "Uma nova mentira", soasse mais sincero. A vida não era e nunca havia sido uma peça tragicômica. Isso era apenas uma maneira um tanto limitada de percebê-la. As coisas seriam mais especificas. Por exemplo, na vida de qualquer ser humano, o começo, dá-se quando ele ou ela nasce, e o fim, dá-se quando a morte tocar a campainha desse sujeito. Eu pensei em você, e pensei que você também poderia isso ver. Não tentei expressar justificativas, desculpas, limitar e mentir, dizendo  que nada aconteceria. Nada disso aconteceu, pois naquele horizonte, permanecia clara uma linha continua, a mais pura verdade: a continuidade e o sentido amplo das coisas. E ela  e só ela que nos importava. Olhei por traz, em um ato de insegurança, e a vista da costa desaparecera por completo. Ouvi sua voz vinda de todos lugares, e eu ri, rumo a tua direção...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

9 meses depois

           Sem me dizer nada, tu me disseste tudo que carrego em mim até hoje. Só pensava nos ventos da praia. Pensava em como eles sopravam em sincronia obscura. Refletia sobre a lentidão de cada uma das notas enquanto seus olhos fechavam-se no leito da sua ultima aurora.
         Outro dia estava submerso em mais de duzentos daqueles mesmos pensamentos fervorosos que costumava repassar como um filme preferido em um ataque de nostalgia nervosa. Não fazia muito que chegado das ruas bati a porta preparado para aproximar-me mais uma vez. Passei pela cozinha, apanhei uma garrafa de vinho e sentei-me junto as almofadas da sala, próximo a estante escura de riscos nublados. Abri a última gaveta para começar a busca a sua procura. 
             Meu coração palpitou mais alto, mas ignorei-o e prossegui com o processo pendente. As janelas da sacada estavam abertas e as estrelas me encaravam talvez tentando ler meus pensamentos enquanto eu vasculhava cada maço de papel que havia socado ali durante o ano anterior. Por um segundo, hesitei em um impulso artístico de levar meu violão até a sacada e representar o papel do bom homem bêbado do século 19. Ao contrario disso, resolvi concentrar-me em você. E como não poderia? Havia marcas de você por todo lado. E se hoje ainda comia na mesa é para recompensar os sermões tradicionais dos almoços que perdi. Joguei todos papeis e contracheques ao chão enquanto meu peito acelerava desesperadamente. Lembrei de mais um aniversário em especial. Foi quando senti teu riso em algum lugar da estação se aproximando... Continuei cavando meu caminho para as fotos que eu ainda guardava até o momento em que finalmente segurei o envelope que as contia. Parei por um segundo, retornando a minha sensatez monótona de ser, retirei o selo e o abri. Talvez todas as catarses se agruparam e resolveram acontecer dentro de meus sentidos: minha mão tremula, meu coração  pulsante, meus olhos lacrimejantes e  minha boca seca. Eu sabia que aquele era meu apartamento e que o condomínio era seguro, que nenhuma bomba ou asteroide colidiria com a Terra; nenhum desastre natural aconteceria, não estava para morrer ( ao menos no sentido literal), porem algo me dizia que aquele era o apse, a ponta do precipício, o limite, o momento em que minhas emoções se perderiam, como se as luzes fossem apagadas para sempre, e eu não fosse achar a saide de algum lugar esquecido dentro de minha memoria fraca e inútil. Parecia que aquela noite de caos interior, havia me mostrado algo que eu não podia ver. Talvez o que eu não podia ver. Talvez o que eu não pudesse ver viesse depois. Ao te tocar nas fotos, deslizei os dedos desejando que me abraçasse, e tu sorriu para mim de novo na estação. Minha alma lavava o chão da sala,  deturpada de historias e impossibilidades. O ar se mostrava rarefeito. Sentia minha cabeça ecoar seu nome. Debati-me contra os sofás segurando suas fotos e documentos que escapavam entre meus dedos. Tua ausência me subia a garganta, meu estomago queimava inconformado. Eu estava apagando, pensando que poderia ser nos teus braços. Deitado na cama, no outro dia, não entendi porque senti teu cheiro, ou porque havia um copo de leite no bidê ao lado da cama. 
             Mas só podia ser você. É por isso que te amo, mãe.





quarta-feira, 20 de junho de 2012

Esboço

             Era carnaval, e você me mostrando o caminho entre os desesperados, apenas isso. Um mentor constante perguntando "é isso?''. Deixei meus amigos no bar das mentiras e caminhei pela noite passando por outros bares de outras musicas, outros grupos, outros gêneros.  No final da rua dobrei ainda tonto e entrei em um banheiro publico. Aqui estávamos nós em um banheiro imundo, enquanto as certezas desmoronavam, e eu me via através de seu olhar incansável, como se me julgasse a toda brida, sem o medo e receio que eu tanto conhecia. As inverdades das ideias imperiais me assombrando, soprando em meu ouvido, uma dor levemente imperceptível aumentando com os tambores perdidos que restavam nas ruas, e você em mim, tentando reparar os estragos da educação tradicional. Fechei-me numa cabine, debrucei em um dos joelhos em  respondi a pergunta que você me dizia: - sou eu. Não sabia se era a resposta certa, e a tontura trazia a bile e as mentiras tocando a garganta, " vomitar as mentiras dói, mas é o primeiro passo para ser você a quem todos amam", eu perguntei se era por não ser eu que doía e você me disse que sim. Perguntei então: - Por quê?. Você me disse sem objeções "porque são todos iguais, e você apenas não está por inteiro." Talvez se vomitasse mais eu estivesse completamente desintoxicado. Lembrei de meus pais nesse processo de purificação, da minha infância e de como minha vó parecia feliz no meu primeiro aniversario. Tudo voltava ao normal em março; voltaria para minha cidade; e já teria atravessado mais essa tormenta.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ideias no cotidiano

           Eu era um organismo, e isso era uma das obviedades da vida. Isso, é claro, após os avanços da ciencia. No entanto, havia uma madrugada perdida em mim enquanto o universo se encontrava nas vias duplas dos meus pensamentos.
           Entre os que iam e os que vinham, um em particular chamou minha atenção. Como uma estrela cadente na imensidão negra da noite. Senti suas palavras derreterem-se sobre minhas ideias, desmistificando e distorcendo-as ao mesmo tempo. As sinapses transportavam códigos outros, de um novo formato, com novas regras e estratégias de organização. Senti alguns problemas desaparecerem em meio ao nada, e alguns restos de informações sendo etiquetadas, embaladas e predefinidas em seus devidos lugares dentro do vendaval de pensamentos.
           Olhei forte de volta para o nada remetendo-me a complexidade do que representaria o vazio. Tombei-me em silencio imprescindível ao esclarecimento das ideias,  - enquanto alguns diziam que era a caixa-do-nada, eu chamava de processo. - então, ouvi um zunido vindo daquela ultima sinapse cansada e sedenta por caos.
           Ultimamente, havia muitos ruídos entre as pessoas que rodeavam, emoções pulando das bocas, informações convulsivas, infarto de orações, hipertensão de monólogos sentimentais. Precisava de um canto vazio, em algum lugar esquecido, aonde as ideias não perturbariam nem mesmo o meu sono com seus sonhos dementes, loucos. Me perguntei já crescido se isso era ser 'ser humano': ser vitima das inúmeras razões irracionais e do mundo caótico dos pensamentos cortantes... E se eu pudesse retornar ao ponto em que os problemas não eram ideias; e ideias não eram problemas.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Nas grades de palavras

       "Me sinto livre com as palavras somente." Poético, sensível e insensato. Livre para dizer-me e contradizer-me. Coloco-as em ordem e penso o impensado ou são elas que  me prendem em seu eixo sintagmatico? Se faço amor, são palavras que recito. Se choro, são as palavras que me calam. Se dói, são as palavras que me curam. Portanto, dependo delas, como um casal tradicional depende um do outro na sociedade tradicional. Mas onde há tradição, há cadeia. Cadeia de ideias, cadeia de sentimentos, cadeia de opiniões, cadeia de todo o resto que não for culturalmente aceito. E o paradoxo me embosca, enquanto dependo das sintaxes, enquanto relevo meus axiomas, me ponho a par das falsidades. E se me rendo, me entrego ao hábito das coisas comuns, da vida dos trouxas, da música sem melodia, do chocolate sem leite, dependo de todas as coisas, me sinto preso nas vidas e historias da cidade, me sinto preso nos verbos, e me aprisiono nos tempos. Ser livre também não é escrever, pois a escrita também é um sistema. Isso me cheira a Graciliano Ramos.

Investigações

            Ser eu mesmo custou-me o vazio que duela constante contra o fio da minha espada.  Afinal, é essa dor que carrego desde que escorregaste entre meus dedos. Subia no último andar e descia centenas de vezes. Talvez tivesse reclamado duas ou três vezes, mas até dos mesmos degraus me nostalgizo. No trabalho, nada me afasta do mundo exterior; nada me faz mergulhar em cataclismos de diferentes ilusões; nada me faz olhar através do que há em mim; tornando-me detetive de mim mesmo, de uma verdade inconstante, uma verdade complexa que traz em seu recheio uma amostra de que existe valor para todas as coisas e sua natureza: as coisas boas e ruins. Talvez reclamasse demais e talvez tivesse agido da mesma forma um minuto atrás. Contudo, era disso que eu me alimentava: das fortes emoções; as discussões épicas; os argumentos fortes; armas invisíveis; da adrenalina dos extremos. Vai ver é assim mesmo, vai ver precisamos essencialmente das coisas ruins. E a espada clamou: pois do sangue ainda há sanidade, mas do vazio não há mente.

Quando ele se foi...

         E se eu sentir aquilo, vou estremecer? Eu pensei comigo. - O navio estava já ali. -Mas qual o motivo disso? Medo, ansiedade, surpresa, admiração. - Um carro encostava aos pés da praia e de dentro dele você surgiu. Você surgiu com a voz de quem não fala, mas grita no vazio do estacionamento de meu coração. Os silhos não se tocavam pois você era forte: olhos vermelhos da noite mal dormida. Um silêncio ensurdecedor, repleto de olhares de reconciliação, talvez por medo, ansiedade, surpresa ou admiração. Mãos tocaram meus ombros, abraçando-me com carinho, e traduzindo-me coisas, que nem sequer haveriam de existir ali: na embriagues dos sentimentos; uma ultima lição antes da partida. Não passara dois dias ou mais, desde que a resposta fora enviada. Tudo estava terminando. Ele deveria partir, afinal, era uma oportunidade unica; ele escolher ir mesmo que houvessem maquinas. Embora mil coisas velejassem contra mim por esse motivo: a distância; a saudade: ele tornou-se inflexível. Nós eramos pai e filho de boas risadas, bons jogos e boas piadas. Dividiamos os defeitos de igual para igual; talvez não tivéssemos aprendido muita coisa um com o outro; o que era ironico, uma vez que talvez a distância viesse a nos ensinar. Meu estômago fechou e eu o abracei como se não houvesse depois. Repeti varias vezes em silencio 'não me tire de onde eu pertenço, por favor'.  Mas seus braços soltavam-se aos poucos, replicando-me para encarar a realidade e ser feliz com ela. Não havia brigas nem gritos, apenas mãos dadas para um recomeço incerto. Subiu a proa quando segurei-o forte, ele me abanou com um rangir de dentes, como se lutasse e, então, sorriu: como se fosse tirar uma foto que nunca registrei. Guardo na memória o seu último olhar de vida e uma ultima lição: sentir me dá certeza de que estamos vivos e, por isso, sorrir.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Realidade versus razão

       O calor estava insuportável. Poderia toca-la e sentir apenas seus restos deslizando sobre minha consciência. Tremi e achei o pano quente demais. Escorreguei com minhas ultimas forças os dedos na testa e cai num tecido de lã. Rolei pelo chão de goiabas e bati com a cabeça no galho de um estreito corredor de oliveiras. Caminhei por dois segundos e passaram-se duzentos quilometros. Me perguntei se cada dois segundos era referente a duzentos quilometros e se em meia hora poderia conheces o Canadá ou a França com minha superagilidade súbita.
       A janela estava aberta e a porta trancada e apenas um caminho desaguava naquele pantano que se materializou em minha frente. Sabia tudo que iria acontecer e alem disso sabia que era inevitavel. Nunca fui um desses que acreditava em destino, buscando a toda brida informações racionais sobre as experiencia menos explicaveis que sentia. Eram tantos lençois e cobertas sobrepostas como os olhos de quem não vê; um cego desprendendo-se do que é  visivel e superficial: sentido em sua pele, tocando sua ideia, e beijando seus resultados como se fossem seus
      Quem sabia da vida não era o mesmo homem que estava sobre aquele palco na noite de hoje a noite. Escureceu-se de ideias e olhor por entre as cortinas. Um segundo que é mais do que 10 minutos. E nada ocorreu. Escutou algo estourar e um flash de tras das cortinas, um flash que nem ao menos viu. O que estava acontecendo? Brincou com a imaginação ironicamente. O mundo acabara e não tinha percebido, mas o tempo se fora, e as encenações tambem se iam. Por isso, resolveu lavar a vida.
     A limpa pia do banheiro estava entupida de pensamentos groxos, irrelevantes e impenetraveis, imperceptiveis e ignorados, textos sem vida. Por que estivera ali e não  no dia da praia? No suor da cama? Não na neblina representativa de julho? Aonde estivera esse tempo todo e quem era aquele rosto na frente do espelho. Tocou mais uma vez seu reflexo e abriu todas as cabines do banheiro e elas estavam sem resposta: sem vaso ou descarga.
      O barulho agudo de outra explosão deveria lhe dizer algo, mas apenas o assustou. O que viria acontecer? A morte? Não. Na verdade, o presságio da morte não se aproximou, pois havia muita tristeza a ser sofrida. Aquilo não parecia estrutura digna de conclusão; encerramento; desfecho do ato. Mas eram seus amigos indo para longe um a um na sombra do corredor? A quem se apontaria culpa do badalar dos sinos? Quem seria o sucessor? Havia dor tão ácida quanto a terrivel perda da felicidade? Não. Prefiria não ser feliz.
      Desceu as escadarias e correu para o ginásio aonde havia uma piscina. Ela estava ali o olhando enquanto batia os pés na água. Perguntou como estava e por que estava ali aquela hora.  Uma figura afigurada, não havia uma forma especifica para ela. Contei a ela que andava estudando os sonhos. Ela me disse para largar de bobagem e parar de teorizar cada ação e reação de tudo que acontecia. Me contou que nada na vida é controlável, pois o limite não existia de acordo com ela. Quem o convencionou foram todos que morreram por seu proprio limite criado. Não alcançaram o outro lado da piscina - É claro, se ele houvesse, me enfatizou. Baixei meus olhos e a contei que sentia saudades. Mas ela disse que na verdade eu não tinha saudades. Perguntei por que? Ela me disse que saudade é sofrimento inventado. Não se tem saudade de coisas boas, se tem lembranças e que as guardava sem comentarios nostalgicos. O que tinha acontecido comigo? - a questionei. Ela me disse que havia percebido o por que das coisas não terem um porquê. Sabe? Quando elas não estão dentro do circulo das coisas identificaveis e objetivas. Mas eu repliquei: voce saberia me dizer o que é identificavel e o que não é?  Ela me disse que novamente estava me preocupando com os comportamentos de novo. Me disse que é como se eu estivesse supondo que tudo estavivesse errado e que deveria ter sido de outro jeito. Que era feia minha insatisfação desnecessária. Perguntei a ela então seriamente. Quem é você? Ela me olhou sem olhares bruscos e me ecoou sou sua a irmã de sua subconsciência.  Eu pensei que estivesse louco e comentei a respeito. E ela me disse que todos nascemos loucos por sabermos que as coisas não possuem apenas formas. Ela me empurrou na agua e eu me acordei para o trabalho.
         Olhei o relogio. Havia perdido a hora novamente. Peguei meu guarda-chuva. Pela janela via os carros enfileirados. A casa estava bagunçada, assim como meus sentimentos e meu guarda-roupa. O mais curioso foi perceber meu corpo, atravessando o tempo e paredes.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Texto investigativo sobre a moda dos excluídos


       Era através das roupas que percebi: 

tudo mudava para que continuassem

 todos os mesmos

     

       A primeira impressão é a que fica, já diz o ditado. Quando você vê alguém vestido de acordo com o ator do filme de sucesso, você não associa a  pessoa com as características que aquele ator representa? Vejamos outro exemplo, a jaqueta preta lembra-me constantemente os motoqueiros fora da lei, a ideia de algo poderoso e imbatível.  Nos últimos tempos, surgiu essa onda do xadrez como uma linha admirada de se mostrar-se entre jovens e adultos-jovens. O algodão, o xadrez, as jeans.. é preciso se render a aparência das mudanças. O mundo transmite  ideias a todo segundo através de mídias: explicitas, implícitas ou subliminares. Ideias que são associadas com comportamentos e atitudes positivas e o oposto; as ideias que são deixadas de lado, por não serem atraentes o suficiente para serem "compradas", afinal, vivemos em um mundo de ideias capitalista. Uma pandemia ideológica sobre o "ser diferente" surgiu de alguns anos para cá.: um efeito colateral dos avanços da psicologia sobre o Outro assim como a conscientização sobre o individuo social.       
         Tudo bem até aí? Não. Mas e quem não tem dinheiro, torna-se o que? E aquele que não percebeu que deve vestir-se nos conformes para se encaixar num padrão ideológico estético aceitável? Seria um ato intelectual interpretar a aparência como ser diferente? Afinal, seria importante se importar com isso para ser diferente ou não seria uma forma de mostrar uma capa ideológica falsa ou no minimo imatura de um grupo social? Você já se  perguntou se realmente consegue lidar com o ser diferente? O que é isso então?

sexta-feira, 23 de março de 2012

A Câmara Escura

           Era manhã, mas deixei o papel em branco. As horas arrastavam-se enquanto o nada me assombrava incessante. Algo curioso aconteceu pela noite quando lembrei de uma música. Breve e leve como uma ideia que vai embora deixando apenas teses e algumas conjunções desconexas para trás. Apenas ficava o cheiro do escuro pairando sobre o quarto. Aproximei-me da janela enquanto o tempo varria folhas e lembranças daquele lugar intimo e úmido. Os olhos da memória fitavam constantemente a paisagem. Foi, então, que me perdi no caminho do pensamento e afoguei-me durante uma incontrolável perda. Percorri a superfície, embora continuasse envolto ao seu breu supremo. Era a Câmara Escura dos sentimentos.
       Levantei-me apoiando as mãos na parede; e encharcado de pensamentos, resolvi andar. Ao passo que caminhava, escutei muitos lumúrios. A caneta encostava o papel e minha mão tremia. Havia placas sobre as portas ao longo da Câmara - assim como um hospital. Caminhei por minutos intermináveis e de repente ouvi uma voz inconfundível no meio da noite. Não poderia estar enganado, eu tinha que abrir essa porta; eu procurava por alguém e finalmente havia encontrado.
        Descobri algo pior do que o escuro; mais úmido e mais mortal atrás daquela porta. A caneta tocara o papel e meu pulso tremia. A Câmara guardava os olhos do inofensivo Medo. Senti pena e resolvi libertá-lo impulsivamente. Ao suar frio vi em seus olhos um rancor de sí. Então, notei que havia outro lugar ao meu redor. Estava em área rural, cortada por uma estrada de barro. Através da palavra o Medo vinha transformando-se naquele mesmo tornado: arrancando as casas, os postos e todos que tivessem pela frente. Meu dia, logo, ficara cinza pois foi sob uma tempestade que você se foi; uma tempestade eventual. Sem raios e trovões, empuxos ou meras contradições, voando para longe, muito alem de meus olhos e minhas mãos. Nada sei sobre o que veio depois... Tentei escrever, e você voou.
         Após isso, nunca mais entrei lá. Ouvi dizer que tenha tornado-se mais forte; quem sabe tenha decidido morar nas nuvens como algo que mereça morar mais próximo as estrelas? Minha única certeza é de que apenas guardei suas asas. Pois com elas, eu posso voar para longe de mim aonde não sinto dor, rancor ou remorso; e não há rastros de sua luz na minha estrada.


De-composição

       Eu fazia pontas, nada mais obvio que isso. Foi hoje ao me de-compor que percebi o fato. Desde que era esse meu papel ( pequeno e mesquinho) me contagiei com uma doença estranha. Meus sintomas eram palpitações irreversíveis e sentimentos gritantes começando com fúria e saudade. As vezes, sentia uma pressão contra o peito. Certa vez ainda pensei que iria infartar. Estava sozinho quando aconteceu. Primeiro, uma vertigem e senti meus olhos pararem nos pés; minha boca acabou nos joelhos; o ar faltou e as cores formavam borrões mesclando umas com as outras. Então, pressionei o travesseiro no local, horrorizado sem ter nenhuma reação alem dessa. Levei os braços na cabeça e fiquei por horas do lado do comodo no chão esperando a hora chegar, mas nenhum telefone tocou. Talvez a morte tivesse atrasada, andasse muito ocupada. Talvez o silêncio não tivesse sido a coisa certa; meu ar de desentendido; tuas decisões mais do que espontâneas e nossa fala sincera. 
       Teria ido se hoje não doesse. Com você, de repente, tudo valia a pena. Era como viver um livro fora da literatura: você interpretava brilhantemente o personagem da vida. E nisso que eu mais te admirava. Me dói saber que não estarei na sua próxima cena, na mesma peça. Talvez fossemos Romeu e Julieta, e quizessemos simplesmente ter sido Eduardo e Mônica. 
      Havia um fio desconectado da internet na casa e um bilhete de amizade. Você não era sentimental, e a mobília havia sido removida, e o banheiro que fazíamos amor sumira, e consigo foram os rastros. E percebi daí que sua inexistência me era mortal. E é você essa doença crônica, aumentando a toda vez que seguro o molho das chaves; ou me recosto no sofá do quarto. E é sim você quando perco o ar. E sem piegas, pois você não era de sentimentalismos, me deixou disponível somente algumas outras pontas na vida a cada vez que te encontro. E vou-me de-compondo a cada dia que segue, até a ultima fala: a seca, sem nada, só sentimentos de um olhar nostálgico, porem misterioso.


Divagação sobre a origem do universo

            Não entendo quem não vê beleza no que é triste. Dizem que os suicidas possuem essa diferença anatômica no cérebro e pela morte são atraídos. O motivo básico para isso é a falta de uma limitação básica que o ser humano possui que é acreditar. Desde o inicio da vida, desde ao colocar o nome em tudo que vê e sente até  os contos de fada, a páscoa ou a busca do amor verdadeiro. Talvez partilhe metade dessa insuficiência do suicida ou não tenha o suficiente do seu diagnostico para classificar-me como tal. No entanto, eu não seria tão juvenil ou irracional ao ponto de ignorar que a essência de toda ação humana prevalece ciclicamente desprovida de sentido. Um acumulo de comportamentos repetidos  descentralizam a busca pelo motivo de estarmos acordados, ou não. A busca de uma civilidade é um jogo de poker: nunca saberemos se o universo está blefando e se isso tudo é em vão; mas seguimos em frente: acreditamos. Somos organismos, dust in the wind, o nada ao meio do nada. E mesmo assim, nossa mente edifica pilares de faz de conta. Mesmo com tantas pistas. Então, as vezes  penso... mais uma fabula, um papai noel, apenas leva-me a acreditar que não existe razão por trás das cortinas do universo. Assim, sigo ecoando em meus dias de lua "Por quê?". Contudo nem as estrelas respondem ao silêncio.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Homem é morto após ser vestido de mulher em Porto Alegre

                  Me senti culpado por não fazer nada naquela sexta-feira noturna do verão de 97. 
             Pela janela do meu apartamento eu via Jandira andando de lá para cá todas as noites pela Bonifácio. Era um passa carro pra lá passa carro pra cá e não demorava muito até ela entrar no banco do carona de algum cliente cafetão. De manhã, ela acordava nova em folha como página de livro recém aberto, deixava comida para o papagaio, dava três tapinhas nas costas do Nelsinho, o filho de 6 anos, e saia para trabalhar numa loja de costura ali perto.
           Meu cigarro não parava de queimar e mesmo após o sexto, não consegui sentir-me convicto de que aquele não era o primeiro cigarro, por isso continuei o suicídio cancerígeno. O jornal daquela semana queria uma matéria sobre as prostitutas e eu já não sabia a que fontes recorrer, pois o prazo estava curto e faltavam apenas dois dias para o grande Miguelito ter a matéria ou me demitir de vez do Escarnio, o jornal do circulo operário daquela zona. O ânus estava para se tornar instrumento de trabalho para as redes midiáticas, tentando de alguma forma parecerem, sei lá, descoladas - mesmo que todos no escritório falassem das prostitutas como "mulheres da vida" ou então "pactuantes baconianas". Bom, não estava ali para tender a posição alguma naquele jornal, mas o círculo fedia a pura hipocrisia. Minha vida de escritor era um carma, um fardo mensurado apenas a temáticas marginais. Por algum motivo - talvez o fato de ser preto -  eles levassem os restos pra mim, e nas intermitências do discurso de cada um ali, havia sempre um "amigão", "companheiro" e "dos meu", como se de certa forma amenizasse a ignorância deles em relação a humanidade. E, incluo um colega de trabalho também preto, tão preconceituoso quanto o Albertinho, outro ignorante que posa ser diferente e alternativo e que de fato não vale pão que come. Alguns dos próprios redatores eram aidéticos; enquanto as mulheres cuidavam de sua independência - a nova tendencia ideológica do momento - os maridos ocupavam-se com as mulheres da boca mais próxima, achando aquilo um máximo. Um dia desses no escritório, ao sacar minhas coisas daquela gaveta com cheiro a mofo, Albertinho, o maconheiro homossexual enrustido,  trouxe-me uma sacola duvidosa, olhando para todos os lados e perguntando se não conhecia algum "conhecido maneiro". Provavelmente, o que ele queria na verdade era um ponto aonde arranjasse cocaína.. desviei os olhos e disse "não", voltando a atenção as  tralhas da minha gaveta, quando finalmente encontrei câmera fotográfica importada. Um jovem formado de 23 anos metido nessa sacanagem, meus pêsames aos pais da criatura.                                            
            Foquei-me na matéria das prostitutas, pois faltava apenas um dia para o prazo terminar. Após encher a cara no boteco da esquina de meu apartamento e observar de ângulos diversos a câmera, respirei a coragem de algum canto negro daquele bar estapafúrdio e caminhei pelo meio-fio a fim de fazer da reportagem as palavras de Jandira, a vizinha com quem nunca conversei. Surpreendentemente, ela estava encostada na parede esticando a meia-calça contra grade de um Petshop ao lado de nosso apartamento. 
          "E aí vizinho, chegando firme e forte?" ela disse com uma voz grossa.    
          "Oi?" Eu repliquei sem entender bebado - talvez eu tivesse sem reflexos, pois a água ardente dialogava com minhas cordas vocais, queimando-as pouco a pouco. 
         "Indo para cama né? E eu, indo para cama de alguém, porque a vida tá cruel, filho..." ela respondeu. 
       "De fato, estava querendo falar com você, mas não é pra programa, não. Não sei se sabe... mas trabalho p'rum jornal e gostaria muitissimo poder realizar uma entrevista anônima com uma prostitua, e se não fazê-la serei demitido..." 
     "Você é bem prolixo, gente, que garganta!" Falou enquanto observava o movimento dos carros, acostumada com a prática do trabalho. 
         "Você tem a voz bem grossa..." Constatei enquanto pegava minha câmera pra gravar o momento. 
       "Meu nome de nascença é Jandir... mas a vida dá uns revira-voltas..." Observou feito coruja um dos carros que parou no semáforo. 
         "Quer dizer que o Nelsinho não é teu filho?" Tentei não parecer intrometido, mas fui patético ao fazer a pergunta enquanto acionava o gravador. 
       "Nelsinho? Você sempre repara nos outros, né? O Nelsinho... eu catei ele na rua mesmo, coitado. Tava passando fome.. Dai, dou uns trocos para lanche pro menino e um teto para ele ficar.. adotei aquele pivete."      
      Naquele instante um braço malandro encostou-se sobre a lataria da porta do carro. Existia algo puro naquela mulher. A atitude mais nobre que vira em 45 anos de vida encontrei em uma prostituta, travesti. Como poderia acontecer algo tão inimaginável? Pensei em um mundo sem dor por um momento; sem sujeira; aonde Nelsinho poderia ir à escola e Jandira poderia ser quem ela quisesse sem ser discriminada por meus colegas de trabalho. Um mundo em que não houvesse hipocrisia e que enquanto as pessoas se ajudassem não houvesse a sujeira; esse mofo; essa bile que a sociedade insiste em fazer-nos engolir garganta abaixo. Pensei em me demitir em começar uma vida com uma banca de jornal ou fazer lanches para vender. Pensei em de repente trabalhar em algum sebo, onde palavras existissem mais do que pessoas; e tive medo de repente por pensar que um dia elas pudessem voltar a reinar e criar suas regras e sentimentos de culpa. 
     Num átimo, uma feixe de lucidez ardeu meus olhos, quase vi um opala azul desaparecer pelo vazio da avenida, e Jandira estava no chão sobre às margens da Redenção. Um risco de sangue levava ao corpo dela. Seus olhos estalados, um troco na mão e uma vida a menos em Porto Alegre. Me senti culpado por não ser eu; invejei a prostituta intensamente naquela noite; dormi em minha cama de olhos abertos com medo do mundo das pessoas de verdade.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sentimento de perda

     Foi num quarto sombrio que aconteceu o irremediável. Quando ela morreu não houve som, ou ruido algum. Ela simplesmente se foi. Me aproximei de seu corpo e não tive surpresas, sua pele estava albina como algodão. Pensei q fosse um clarão, pois foi rápido demais, logo depois de ligar para funerária algo flutuou por tras de mim naquele quarto e era branco. Nesse momento, percebi que não era minha mãe, era um anjo ruflando as asas e saindo por uma das janelas, sem dizer-me adeus; só dizer-me coisas do silêncio.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O nível de logos está baixo por aí

       Nada daqueles momentos obsoletos faziam sentir o sorriso verdadeiro, pois assim não eram. Eram, sim, todas as convenções falsas, de comportamentos repetidos, em que todos riam com um sorriso hipocrita todas as inverdades, deixando todo o resto do sentido para tras, como se ele não fosse importante para a formação de uma ideia e opinião. E era sempre o mesmo sentimento sem emoção e a risada ritualistica pelo motivo menos pensado (em que alguém em algum lugar do universo sairia ofendido). E deveria haver algo certo naquilo tudo, ou desde sempre, (sei que não) se instaurou essa ideia daninha. Uma ideia daninha gera sementes podres e sem produtividade alguma. Eles, apenas, são frutos. Frutos que não servem para nada, muito menos pra alimentar as ideias. Junte cabeças impensantes e é isso que você vai encontrar: pensamentos infecundáveis. A conclusão é de que as pessoas conseguem viver mentiras e irracionalidade. É como se fossem dado a vida humanóide, mas vivessem a vida de uma girafa (coitadas). Temo por nunca terem rido de verdade, amado de verdade e terem amigos de verdade.
Apenas um amontoado de frutos apodrecidos.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Silence like other

            What is there into his eyes? Down into his eyes there is a corridor with no meaning at all. A subtle feeling of correctness and order clinged to his mind whereas his heart knew that there were no objects in that place to be neither ordered nor correct. "What does it mean?"  he asked his own fruitful mind. For that no humanity inhabitted that setting, the absence took one step forward and told him that at least there were doors. "What could be better than doors when there is nothing else?" He thought. It lasted more two hours for his mind to notice he didnt need anyone else owing to the presence of the non-said: the silence which made the corridor looks crowded. However, it lasted more two hours for his mind to notice he was too much for himself and silence. Thus, he needed someone.


Subtítulo do Blog

         Compor é um ato nobre: é descobrir-se; mostrar-se a sí mesmo; é enfrentar seus terremotos e furacões -sua natureza: aquele quem você é; aquele quem você não é; e aquele quem deseja ser. É uma música nunca ouvida; uma pintura nunca presenciada; um texto nunca lido; uma receita nunca experimentada; um olhar nunca observado. Compor é abraçar as semelhanças e diferenças, transcrevendo-as de forma a relacionar o criador com tudo aquilo semelhante a ele(a), dos defeitos às virtudes, sejam transpostos em personagens, rimas, ou pinceladas - e também relacionar o criador com as coisas que se opõem a ele(a), para que assim aprendemos o Outro.



Busca da verdade

      E quando o ano acabar, os olhos de quem o viveu perceberão. Tudo o que aconteceu perseguirá o seu ponto mais sensível, corroerá parte da sua esperança - a chama da inocência - pois é um fragmento de sua consciência que emergirá. Consciência de que ao fechar os olhos, você se esquece de continuar sentido, e o mundo ainda sim anda sem você. E é por esse sentimento de carência individual, exílio de sua existência, o encontro com a dialética da vida se faz verdadeira - positiva e negativamente de um ponto de vista egoísta - mas por conta disso sua humanidade crescerá. Não há sabedoria sem dor, pois a dor está no ato de pensar e por causa dele tentamos o "não-fechar dos olhos" - o que mais dói. Entretanto, a sabedoria é cumulativa, não perdemos quando reabrimos os mesmos olhos curiosos, e esse é o lado bom da vitae, da movimentação e perspectiva dos objetos do mundo exterior. Logo, toda a expectativa da verdade interior, de fato, superará  qualquer que seja a dor final: o último fechar dos olhos.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Não seja preconceituoso consigo

O humorista Danilo Gentili postou a seguinte piada no seu twitter:
"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"
A ONG Afrobras se posicionou contra: "Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda uma representação criminal", diz José Vicente, presidente da ONG. "Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade" , avalia Vicente.
Alguns minutos após escrever seu primeiro "twitter" sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog:
"Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?" (GENIAL) "Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito."
Mas, calma! Essa não foi a tal resposta genial que está no título, e sim ESTA:
"Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?
Quem propagou a ideia que "negro" é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: "Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra".
Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, MAS SIM DE BURRO.
Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de v***** e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados.
Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando:
- O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos.
Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de girafa. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.
Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?
Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo "preto" pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: "Branco, Amarelo, Vermelho, Negro"?. O Darth Vader pra mim é negro. Mas o Bill Cosby, Richard Pryor e Eddie Murphy que inspiram meu trabalho, não. Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.
Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: "E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!". Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer "Desculpe meu querido, mas já que é um afrodescendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!" Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra "preto" ou "macaco", que são palavras tão horríveis.
Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus "defendidos"
Agora peço que não sejam racistas comigo, por favor. Não é só porque eu sou branco que eu escravizei um preto. Eu juro que nunca fiz nada parecido com isso, nem mesmo em pensamento. Não tenham esse preconceito comigo. Na verdade, SOU ÍTALO-DESCENDENTE. ITALIANOS NÃO ESCRAVIZARAM AFRICANOS NO BRASIL. VIERAM PRA CÁ E, ASSIM COMO OS PRETOS, TRABALHARAM NA LAVOURA. A DIFERENÇA É QUE ESCRAVA ISAURA FEZ MAIS SUCESSO QUE TERRA NOSTRA.
Ok. O que acabei de dizer foi uma piada de mau gosto porque eu não disse nela como os pretos sofreram mais que os italianos. Ok. Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano, e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.
Lembra que eu disse que era ítalo-descendente? Então. Os italianos podem nunca ter escravizados os pretos, mas os romanos escravizaram os judeus. E eles já se vingaram de mim com juros e correção monetária, pois já fui escravo durante anos de um carnê das Casas Bahia.
Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café com leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote.
Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo "negro" ou "afrodescendente" , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça - a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita "100% humano", pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão."

domingo, 22 de janeiro de 2012

E assim vens das palavras que respiro

         Encontrei um pouco de você ainda em mim e cheguei a bendita porem paradoxal conclusão: eu preciso saber que ainda está comigo e isso é quando e enquanto sofro; é quando me reconheço. Sabe a parte mais difícil de saber que já faz anos? É saber que ainda nada alcançou meu coração de forma completamente essencial. Pessoas são passageiras: te dão oi, um aperto de mão, um beijo, até sexo... e passam. Entretanto é tu que temi demasiado todo esse tempo; és como minha sombra que me acompanha mesmo no sol mais intenso. Surge latente, marcando o território que foi seu ( e parece que sempre será), vindo em fragmentos da memória que um dia aconteceu; estilhaços de vidros de uma janela quebrada no apartamento que não era seu. É aí que a dor "abre a porta". Quando apago as luzes e me lembro como sou agora. Um olhar-se no espelho no escuro; uma roleta russa de pensamentos; a consciência de que o tempo já passou e você deixou dentro de mim a coisa que mais importa: essas mesmas memórias, ainda que cheias de dor. Como um idiota saltando do fundo do meu pulmão, sua marca é a presença de uma ausência que ressoa em meus sentidos: meus olhos formam  borrões de seu rosto; meu nariz sente o cheiro do seu pescoço, sua pele e até teu rosto; meu tato recorre a lugares mais avessos a sua moralidade, mas quem sabe de nós dois? Apenas nós mesmos; meus ouvidos captam a unica coisa que ficou em mim, e é nesse sentido que observo por horas e horas; degusto a cada  palavra ouvida... e seu eco transpira em mim e me lava de verdades e rejeição. E nada melhor do que lembrar do quanto eu sofri - mesmo que a noite não comece para mim e apenas o dia acabe mais cedo no dia posterior - saber que é por mim mesmo que sofro é o melhor presente que tu me deste: afinal, não poderia ter me apaixonado de tal forma por uma pessoa tão poética quanto eu.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Um ar incondicional

   








 



     Não sou muito bom ao falar. Expressar-se me lembra sempre que preciso de mais tempo para entender. Encontrar um verbo que vença minhas exigências sentimentais: que defina um olhar; um gesto; uma situação ou um impulso é quase algo inalcançável. Além disso, é fácil deixar-se levar pelos discursos convencionais e três por quatro arrepender-me por ter dito ou pensado em dizer algo. Por isso a prudência do olhar: a possibilidade de pensar as palavras, costurar ideias e mesmo assim duvidar delas sem morder ou atacar. Trazer o inevitável e a impossibilidade como caminhos à aquisição do maior tesouro humano: o filtro cujo substrato resultante é o amor e respeito incondicional pelo Outro.


Um ar condicionado

           Era noite. Eu contra o travesseiro. Silenciei o tratado de paz para que explodisse a guerra dentro de mim.  Se isso fosse inútil do que serviriam as revoluções? Abraçai-me ao algodão enquanto despenquei em escuridão nos pensamentos mais íntimos. O ar gelado trafegava pelo meu corpo me incitando ideias fervecentes. "Desespero é não achar as respostas perdidas e continuar procurando-as esbaforido pelo simples fato de que elas estão  ali em algum lugar." Olhei a janela enquanto meus olhos perdoavam sua alma e senti-me um pouco arrependido. No entanto os pensamentos desaguavam em minha cabeça feito água de cachoeira. Então, continuei " Nem mesmo a lanterna mais luminosa no breu de sua fria e úmida caverna ofereceria tanta clareza: nem seguramente uma luz que guiasse-o pela escuridão sobre o desconhecido.". Revirei-me na cama ao sentir tuas mãos queimando em meu corpo e reconhecer teu mais confortável abraço. Depois de alguns minutos olhando para o vácuo dos lençois, destapei uma de minhas pernas enquanto a outra repousava sobre a sua, e,  finalmente, dormi.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Estrella llena de piensamentos

Tuve una estrella sin color en mis manos
que me miraba como se estuviera  pidiéndole algo...
Estaba en la playa y el oceano furioso puso su energia de adentro hacia afuera...
y asi intentava decirme con las explosiones de las olas que tenia un error en mi corazón.

-  Seguro, mira. -  dos minutos después - mirástelo?
    Un agujero más grande que un precipicio, mira?
    Que pasa?

le dije que nada pasaba 

-  Qué haces ahí tipo?

paré un segundo hasta  que la falta de palabras me consume en el silencio 
lleno de pensamiento tontos. Vale!  miré...  entounces pensé:
"Ahora, dimelo que pasa? que tiene mi corazon?"

- Falta de ti. 

No sabia por cierto se fue imaginacion,
pero sucedia una cola de estrellas caendo en un rato

- Vuelva la estrella que hay dentro de ti y dale cabeza vacia
quitalos todos: pensamientos malos y sin sentido.
Ahora es tiempo de sueñar. Que lindo!

Y allá estubiera brillando en el cielo
cambiando el color.
Y la ventana se fue cerrada.
Listo. -  pensé. 
casi que me fue al espacio de nuevo y reí litros.

Caio F.

          "Não quero saber de medo, paciência, tempo que vai chegar. Não negue, apareça. Seja forte. Porque é preciso coragem para se arriscar num futuro incerto. Não posso esperar. Tenho tudo pronto dentro de mim e uma alma que só sabe viver presentes. Sem esperas, sem amarras, sem receios, sem cobertas, sem sentido, sem passados. É preciso que você venha nesse exato momento. Abandone os antes. Chame do que quiser. Mas venha. Quero dividir meus erros, loucuras, beijos, chocolates. Apague minhas interrogações. Por que estamos tão perto e tão longe?" 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Monstros

         Havia uma batalha homérica entre dois monstros pela frente: o fogo e a água.  Mas tinha que começar por onde eu morava, algo concreto. Procurei respirar e fixei os olhos na árvore abaixo do edificio, aonde os barulhos da cidade não me engoliam com todos seus ruidos.
        Naquele momento de exílio sobre as coisas reais, pude observar que descia a alvorada das incertezas. Então, mesmo dentro de mim, tentei esquecer-me de mim mesmo. Não importava o quanto tempo eu conseguisse ficar fora de mim; achar uma bolha perfeita entre o intimo e o mundo exterior. Fechei os olhos enquanto o vento continuava ricochetendo meu rosto e mergulhei em algum lugar dentro de pensamentos incabíveis. Até que vi um risco no escuro, e de repente, as cores da manhã seguravam as nuvens como pilares frágeis de um prédio abandonado. Essas nuvens  chuviam ha tanto tempo que já não sabiam parar.
         Outra faísca no vácui e a batalha estava para começar. As memórias que me sustentavam, me tocavam curiosamente, e por vezes, perfuravam, sem querer, a razão, como se não fossem parte de mim. Desamarrei-as uma a uma presas a mim. Fizeram-se os segundos, os dias e os anos novamente após o ultimo nó cego.    
       A mudança: eu não via as estações por fora, e sim como elas funcionavam. Me contemplava solido como a neve, soberana e indestrutível. Sobre os gramados as coisas mudavam, assim como as estações mudam e o sol derrete. E, por dentro, transfigurava-me liquido, revivido, a vida e a água. Escorregava pela esperança e aqueçia-me nos braços da imaginação, evaporando devagar. Libertava-me das concretudes e do que existia: transcendendo o inevitavel inventado e impossivel.
        E na batalha do conhecimento entre meu leviatan e minha fênix, ela venceu. Pois ele não renascia, apenas me dava um motivo para continuar acreditando e lutando por um momento melhor.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Inspiração de uma noite de verão

         Helena olhou-me indefesa, sem saber o que fazer. Tomada pela raiva arrancou as palavras de mim em um átimo, jogou-as contra minha alma e triturou minhas emoções. Ela dizia "o amor transcende forma e julgamento". Quero  ver-te em meus olhos queimando e aquecendo o corpo: desde a nuca, aos ombros e , finalmente, aos braços. E que o cupido atravesse suas flechas até não sobrar mais nada do que fora um corpo. E era Helena em meus sonhos novamente, recusando as acusações de Hermia. Afinal, a culpa não era de Helena se havia  uma poção que mudara o destino e a sentença do amor. Seu corpo esvaziou-se das emoções e caiu em silêncio. Era a velha e antiga Helena, apaixonada por Demetrius.  Naquele instante, já não havia mais chama. E no fim da loucura, havia uma sombra estranha, que talvez significasse a presença de um feixe de luz naquela taverna úmida: era sair ou sentar-se - pois estava encolhida no chão. Decidiu sentar-se na mesa dos fundos e beber mais um pouco. A fumaça ainda estava ardente lá fora. Podia sentir seus olhos queimando novamente. E mais uma noite se passara sem você.