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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Conto sobre o menino de Turningham #3

        Seus olhos esbugalhados, sofredores de dores profundas. Pensei por um segundo que minha carne iria ser desviscerado pela criatura, pois estranhamente ela parecia me ver, troteando insanamente. Finalmente, quando havia pensado que este seria o meu famigerado fim, ele atravessou-me, choramingando, e logo atras dele uma machada o perseguia, acertando-lhe o encéfalo. Ele estava fugindo, mais deles fugiam... a floresta recuava as sombras que oprimiam seus restos. Um sentimento de total falta de esperança bateu-me. Ogros batucavam tambores carregando os esqueletos de minha família, cercando-me pouco a pouco, sem eu poder perceber como tudo acontecia. 
         Nesse momento, ela apareceu. Descendo de uma neblina negra do topo das árvores sobre um cavalo branco com asas... ofereceu sua mão. Era Liah. Movimentou delicadamente seu cetro, enquanto girava em torno de si mesma. Até que fez-se um feixe de luz. Durante 50 e poucos anos vivi ao lado dela como um aliado: caçando, lutando e tomando decisões... Instituiu-me como filho, após ter salvo minha vida, e para assim manter a minha inocência e verdadeira  natureza. Devotei lealdade seguindo suas condutas e valores e por assim dizer, tornou-se minha mãe, até o dia de sua morte. Sua morte causara a sombra das flores e os dia em que os rios não corriam; minutos que não passavam; as folhas dos Sobreiros não mexiam-se mais. Quando o pôr-do-sol chegava, a imagem de minha mãe sob a lápide sorria, mas só até o crepúsculo. Ansiava pela sua volta em Turninghan. Assim como a Fênix ressurge, minha mãe, do lago ao lado dos Sobreiros dourados, renasceria.



Livrando-me de você

          Ps: Aviso que este texto não tem o objetivo de agradar a ninguém, pelo contrario: o mais desagradável for, mais bem sucedido serei. Obrigado.

      Momento perfeito para escrever algo convincente. Afinal, será o único jeito de entreter os olhos e os ouvidos de alguém hoje, já que hoje o que me falta é aquele velho, verdadeiro, indiferente melhor amigo meu. Saudades do cara menos sociável da Terra.  Amizade de conversas filosóficas jogadas fora, noites adentro, cuspir a bile do dia a dia: o podre que habita nas entranhas de nossa mente. O tipo de amigo que não se importa caso você seja alguém na vida ou ninguém, sem  se importar se você é o ser mais imperfeito. Num mundo feito de coisas que se precisa dizer e redizer e se convencionar e utilizar o convencionado... ter um amigo desses é o mesmo que encontrar uma agulha no paleiro. Escrever, logo, torna-se minha nova estratégia de aproximação do amigo que já não converso nas noites vazias  substituídas por jogos de computador e pornografia online ( é basicamente isso que você leu: quem nunca acessou jogue a primeira tecla? Sim, tenho inclusive conta de usuário em 5 canais de pornôs. Adoro assistir, rever e criticar videos pornôs, sempre deixo comentários descritivos, principalmente quando o assunto é sexo oral. Digamos que seja meu hobby. Sou um joão-ninguém quando não estou no trabalho.. Ah.. não venha dizer que achou desnecessário. Pensei que você gostasse de mim. Sim. Esse sou eu também, quando não estou na sua frente explicando os paradigmas  da linguagem. E essas coisas boas que a vida nos proporciona, mas, como dizia algum de meus antepassados - pois deve ter vindo deles... ditados que falamos sem saber como chegaram em nossa sã consciência -"tem momento pra tudo".  Voltando ao meu amigo, saudades de choramingar meu discurso contra-cultural... imitar personagens, voar no pensamento e nas ínfimas probabilidades. Descompactar-me em discursos e detalhar-me para confundir-me, e me confundir para fazer-me entender: opiniões lógicas de cunho esquizofrênico (e skinhead, alguns julgariam, outros simplesmente não se importam, o que já me faz um pouco mais feliz.). Era um personagem, nada mais, nada menos, eu era alguém que não Eu, mas que fala em meu corpo, coisas que não teria culhões em praça pública (exceto se minha intenção fosse ser apedrejado em nome de Deus, do amor e da fada madrinha). Que se foda, que se exploda e que se desbrave o imoral e o que não é correto; Foda-se a diplomacia, a vergonha e o pudor; Que se vomite o primitivismo reprimido dos neandertais contemporâneos;Que matem, letargicamente, o amor, por  pelo menos 1 segundo; que exterminem a fé na prosperidade e na (in)volução coletiva por um segundo. Tanto faz como ela morra, pois paralelo ao conceito de Maquiavel sobre os fins justificarem os meios, seria muito otimismo conceder tamanha importância aos meios se qualquer evento é insignificante, e , ao final de tudo, irracional. Tanto faz como fé acabe morta. Se houver brutalidade ou for um simples estrangulamento; que as culturas adoeçam; e que o universo explique-se para tonar nossas vidas mais insignificantes e degeneradas, vazias; Que queimem em brasa a risada e o bom humor; Que se dane o "obrigado" e o "de nada". Era com esse amigo que eu transitava entre a ficção da insanidade e a estupidez cotidiana. Com ele eu matava pessoas em pensamentos, sem definir-me como um psicopata. Eu menos Outro. Sentindo-me a beira do abismo e sem esperança de melhoras, desprezando os princípios que condenam nossos instintos, quebrando o vitral de comportamento politicamente correto. Poderia ser um homem-bomba; extinguir e devorar animais por esporte; Sentir fora da pele (pois o cheiro pesteou-a com a vida que vivemos ou não) a invalidez de ser um ser social, patético. Parte de uma nação que se diz “democrática” visa visa a igualdade e liberdade de expressão: cambada de Papai Noeis enrustidos, enganando um ao outro a cada ano que passa. Corrompendo sua natureza em prol de um discurso evolutivo: "por um mundo melhor". Foda-se os ateus que dizem ser racionais também; Será mais engraçado e interessante ver a morte lenta desses; que dizem não acreditar, mas nasceram  fadados a crenças e atrofiacoes intelectuais; o mundo é, e sempre foi, uma cadeia alimentar. Ousaria com esse amigo pensar algo que nunca pensei, enquanto fosse possível se pensar. Um amigo para matar a boa conduta, o único que tive que  acobertou-me mesmo nos pensamentos sórdidos. Bastava a promessa de um café, um sofá, um DVD e os dois divagando  sobre Tudo ou basicamente  Nada. Não nasci para ser o rapaz cheio de qualidades, pagar as contas,  fazer parte de romance, deixo-o as vezes nos livros. Além disso, não nasci pra ser vilão... estupidez, sem perspectiva, instantâneo, feito Nissin Miojo, quem iria  escolher ser alguém que está predisposto a ser julgada pela maioria? Quero arrancar o nojo de quem lê, pode ser pela boca ou pelas ideias. Que me odeiem hoje e não voltem a me amar, e a quem permanecer, não serão agradecidos, pois não pedi para lerem até o final. Lembrem-se que avisei nas primeiras linhas. Caso tenha se sentido no lucro por ter ler um bom texto, parabéns, não muda nada pra mim. Achou o texto uma grande bosta que não tem nada a ver com quem escreveu-o pois sou uma pessoa boa? Número 1: dizem que pisar em merda traz sorte. Número 2: pra mim é claro que tanto faz.  Número 3: o presente site não é uma democracia. Enfim,  queria mais um café  e mais uma madrugada com meu amigo, que diversas vezes me auxiliou a enxergar com clareza aquilo que só os loucos sabem e o resto nunca viu e nem verá de vislumbre.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Conto sobre o menino de Turningham #2

             Certa noite, em um derrame de memórias insuportáveis, talvez tivesse sido a falta de oxigênio e a asma que tivessem dado-me a coragem devida, atravessei o castelo com os olhos carregados de angustia e saudade por quem se fora para não mais voltar. Havia passado apenas 3 meses desde o incidente o qual fizera a rainha de Turningham perder-se no eterno apagamento da vida, e meu coração não permitia-se conformar. 
         Embora não fosse minha mãe, minha gratidão pela vida daquela senhora era incredulamente absoluta. De uma forma não-verbal, ela dizia-me coisas sobre a vida, sem ao menos direcionar uma palavra se quer. Encontrou-me em uma das ribanceiras da floresta, por onde a lama persegue os rios e a natureza das coisas estão nelas mesmas, exilado de minha terra banhado em sangue, fugia de onde era dito ser minha terra, onde  eu havia caído a dezenas de anos atrás para que vivesse por no mínimo 500 anos, cuidando da floresta  que era parte de mim por natureza. No entanto,  sob os encantos do mesmo bruxo que matara meu pai chamado Fieran, criaturas sombrias haviam nos encontrado, dizimado quase completamente nossa história. 
            Primeiro, as luzes caíram do céu,  cruzando o coração de quase todos nós, achamos que fossem outro Rangers, estrelas caídas, como nós, mas eram flechas envenenadas do envelhecimento. Então, um encanto selou a clareira da floresta, um dos meus irmãos empurrou-me a tempo de salvar minha vida para fora da rede enfeitiçada. Eu sabia que não poderia atravessar os limites da floresta, mas assim foi. Vi todos dentro daquele feitiço dissecarem, sem eu poder reconhecer de onde o ódio emergia, não em mim. Corri em direção a floresta, mas minha garganta secava a cada minuto passado, e por isso começava a me arrastar, desviando das raízes e galhos ao afastar-me da orla, cheio de tristezas e mágoas. Em um átimo, num momento de descanso, luzes como tochas vertiginosamente aproximavam-se, e com elas grunhidos ignotos. Estava na ribanceira, sem perceber um palmo a minha frente. Todos barulhos da floresta não eram como sempre haviam sido. Estavam vazios e sem esperança. Escutei um gemido, e ao me virar subitamente, defrontei-me com a face de uma criatura voraz. Pelos sebosos e escuros, rangindo seus dentes e arfando ofegante. Era um dos lobisomens de Aquien, correndo em minha direção. A poucos metros de meu corpo franzino, determinando o possível fim de minha estória.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Conto sobre o menino de Turningham


                 Não havia mais ela naquele castelo em Turningham. E isso era triste. Ela havia partido junto com a alma das estatuas na torre em que costumava ficar apreciando a leitura de suas próprias linhas. Sorria sozinha de uma maneira pacifica. Perdida em tempo e pensamentos, enclausurada em um espaço irreal, que muitas vezes, nem eu, seu filho, conseguia alcançar. Pois de minha mãe, não esperava nada, apenas silencio, e isso fora sua lição mais valiosa. Ela, que após a antiga batalha de Condor, nas terras de Aquien, onde hoje ainda vivo, teria herdado através de um contrato feito por seus pais, um esposo, um homem bom, porem desacreditado sobre as coisas do amor, por sorte de minha mãe. Esse marido de minha mãe não a amara, mas sempre a defendera junto ao castelo e a vida suserana que vos fora concedida. Já meu pai havia morrido há muito, defendendo um pequeno alojamento de seu inimigo imortal, um bruxo maligno das fronteiras de Decário.  Liah, era uma menina como qualquer outra, embora fosse diferente de todas almas que já conheci. Em sua adolescência carregava seus cabelos volumosos ruivos, que ao vento pareciam movimentar-se como membros, emitindo voz e vida própria, dialogando com a luz das coisas e com a escuridão dessas mesmas coisas também. Costumava adentrar as florestas de Turningham com um punhado de coragem, desbravando seus mistérios divididos em sete, esclarecidos postumamente em uma carta, triste e esmeralda, de tecido fino, com uma validade curta, que só revelara na déspota de seus centenários anos. Sua benção fora sempre um refúgio do qual me abriguei durante os dias de gratidão que devotei ao ser mais doce que já conheci.  
                   Em uma das noites de divagação, em busca de equilíbrio humano, me encontrava deitado sobre a cama. E lembrei-me sobre o pergaminho. Acendi um candelabro com papel em chamas ao berço da cama. Voltei a compostura, enquanto ajustava meus quadris para sentado ler o antigo papel sedoso que minha querida mãe deixara em baixo de um jarro de tulipas, as suas favoritas... foi quando suspirei, alertando-me que sua ausência ainda ardia presente desolando meu coração quase-humano.
                 
                

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A estranha

A viagem era longa, mas as vezes acontece. Alguns pensamentos me ocorreram enquanto observava Annabel cair de algum penhasco rumo ao abismo. Quem poderia achar que a beleza da desconhecida não era vil e perigosa? Na verdade, sua existência  por si só era um gesto puro da maldade inata. Todas eram iguais, mas não ela,  oh não a bela Annabel, que de tulipas era seu cheiro, me entorpecia, removendo a semente boa de terras quase nunca semeadas, e plantando a maldade em meus pensamentos outra vez tão sensatos. Sua gelidez  fazia de sua pele mais suave que a seda; um devaneio descomedido da beleza epidêmica, era seu olhar, um tanto quanto hipnótico, fazendo-me alcançar ideias vultuosas, tornando-me submisso aos instintos mais agressores dentro de mim, oh seu eu pudesse controlá-los ? Se eu pudesse usar suas pernas? Um frenesi interminável havia sido acordado em meu coração sombrio, o despertar da besta, que saliva em ostentação pelo que deseja, que mataria para ter o que mais venera; e por conseguinte que ainda acharia satisfatório usá-la por inteiro a fim de te-la impregnando minha pele. Talvez manter seu corpo no porão. Era úmido, tomado por sombras, mesmo em seus momentos mais iluminados, uma parede que facilmente cederia, uma abertura com uma simples marreta, e a disposição magnificente de seu corpo fino e frágil, com sua beleza preponderante para sempre em mim e sobre meu próprio teto. Retorno ao olhar, oh olhar epidêmico, contagiante, libidinoso; o que lança palavras como adagas eliminando a aproximação das palavras pensadas ou do ser que uma vez entendeu o que era viver em  sociedade. Contemplei-a entrar, se aprumar  no breu de um dos assentos do fundo do ônibus, entrelaçar suas pernas emblemáticas – as quais meus olhos penetraram sem eu mesmo perceber, oh , eu já não era mais eu mesmo,  e quando penetraram-na, tão prazerosamente, ela invadiu meu sistema límbico... e senti-me meio dama-da-noite, meio rosa, meio jasmim e quase inteiramente  tulipa,  refiro-me ao seu cheiro. Retirou  uma cuia de uma de suas bolsas, preencheu seu mate com água quente, um vapor saía da térmica, seduzindo-me ainda mais. -Tentei controlar minhas mãos pressionando contra o braço da poltrona -  E direcionou seu olhar para mim de imensa espontaneidade e pureza, como um veado indefeso, prestes  a se tornar a presa, embora ela nunca tivesse, de fato, me percebido. Velejei pelo que pareceu horas, queria velejar pelo seu corpo, navegar em seu sangue, entrar pela sua iris, despir o mistério de seu corpo e despir o mistério de seus movimentos. Seus olhos arregalados de coruja através do escuro, me fitavam. Ela poderia trabalhar no banco, correndo pelo prédio, informando o cliente os procedimentos de abertura de contas ou num posto de gasolina contar pelo uniforme embora estivesse muito escuro para um ultimato. Parecia ser independente, ter seu apartamento, mulher solteira que sai às 8 pela manhã e chega às 9 da noite do trabalho. Faz hora extra e procura uma alma gêmea em algum site de relacionamentos online. Talvez tenha tentado tarô para achar alguém ou colecionasse pedras acreditando na energia elas carregavam. Me perguntei o por quê de não cumprimentá-la. Mas quando imaginei a suposta situação ocorrer mais de três vezes em imagens quebradas no cerne de minha mente: ela tinha descido. O ronco do motor havia despertado meus sentidos para o que estava acontecendo ao meu redor e a realidade era amarga. Mantinha-me sentado naquele fundo de ônibus, mas ela havia descido e eu não... seu veneno escorria por minhas ideias, sem mover um músculo, gradualmente paralisando-me por inteiro. Continuei no mesmo assento até a última parada, pensei em minha casa escura, o porão sem o corpo da moça, sobrevivendo sem sua beleza e energia vital, o mistério um tanto que sobrenatural, entrelaçando a percepção confundindo-me com uma besta e um homem. Levantei-me para descer e naquela mesma parada, curiosamente observei Annabel, não era a mesma, mas sim, diferente de todas as outras, ali, indefesa, com cadernos na mão, esperando pelo próximo ônibus.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sonhei hoje com o passado

           Acabara de interromper um sonho qualquer. E de fato não me importei com isso, pois era um sonho como qualquer outro. Haviam personagens, uma casa, um violão, que pelo resquício de lembrança que ainda tenho sobre o sonho,  estivera sendo guardado em sua capa, alguém que narrava ao meu lado a importância de um quarto como um eco na minha cabeça, mas tão real quanto ser um dos personagens. E esse mesmo som, embora não fosse um personagem e   fosse apenas uma voz, ecoava em minha cabeça como  correntes de pensamentos  que dialogavam com as coisas que eu sentia. Atendi o interfone - fato que havia interrompido meu sonho - com os olhos ainda optando por permanecer fechados e disse “Alo”.  Era a primeira vez que morava sozinho em vinte e poucos anos. Afastei-me das coisas que sempre fui próximo, acreditando não possuir tantas coisas que me segurassem a elas, o lugar onde eu fundei  meu ser,  criei amigos,  caminhei para o colégio por 10 anos ou mais, joguei bola em terra úmida, rolei em dunas tentando transformar-me em croquete,  brinquei de esconder invadindo o quintal dos vizinhos veranistas... Pensei que seria como todos outros grandes artistas, filósofos  escritores, jornalistas famosos que se deslocavam do interior para tentar a vida na cidade grande. Olhei o mar, dentro de mim, aquele oceano de lembranças. Era como uma enchente, incontrolável e vorás atropelando as intermitências que houvessem pelo caminho. Segurava o pelo de minha primeira cachorra, tão macio e sedoso, e ao mesmo tempo tão vira-lata, e talvez fedido a valeta – afinal ela parecia uma ratão de banhado, não deixaria a lembrança distorcer a veracidade dos fatos. Cherry, o nome dela, que em noites de trovão se escondia de baixo da cama, de baixo da mesa da cozinha, seguindo o padrão clichê da literatura animal. Sim! Ela fazia exatamente isso. Lembro da terra, das formigas que caçava no sol, colocando-as dentro de um pote de plástico. Elas viviam passeando pra todos os lados no quintal, carregando uma folhinha de grama por vezes em trilha. Minha mãe deve ter dito uma vez, mas não lembro ao certo,  que era assim que elas construíam suas casas e se alimentavam. Por isso, desde então, eu resolvi ajudá-las, achei o tal pote de plástico jogado em algum canto do armário do lado da pia e levei-o, descalço, pra frente de casa. Sentei-me ao lado da trilha, com uma das mão arranquei um punhado de grama  e coloquei no pote. Levei  o pote até a rua e preenchi  ele com um pouco de areia. Retornei a trilha das formigas e comecei a coloca-las dentro do pote uma a uma. Tentei ajudá-las a construir um lar para elas  com pedaços de folha da grama do patio de casa. Era o que elas queriam, se sentir em casa. E assim eu cresci, adicionei alguns anos ao meu histórico de imaturidade, revolta pela vida alheia, procurei um sentido para as coisas por um longo período, organizando as minhas experiências de vida, como quem organiza arquivos em uma pasta no computador, ou simplesmente, dobra as roupas e coloca-as no armário. Uma organização sobre a definição sobre as coisas que se estendeu até o final da minha graduação e talvez um pouco mais. Não sei ao certo o por quê, mas foi como uma alavanca que é acionada. Tive um desses momentos que a literatura chama de epifania. Quando as coisas mudam a sua volta, embora continuem as mesmas. E então, como num passe de mágica, pensei ter visto a verdade por uma fração de segundos.  E estava naquele sonho que eu tivera. “Foi engano” o homem respondeu  do interfone. Não prestei atenção muito nas palavras dele,  não se quer estava ali naquela sala, naquele apartamento, daquele dia, sobre a luz do sol do meio-dia, em São Paulo. Estava estupefato, meus olhos começavam a arder. Uma ponta de angustia surgia... era tão feia, tão pouco infantil, tão imprudente criança, a verdade. A vida parecia um lance de escadas, que eu tivera a impressão de subir em todos esses anos, embora nunca tivesse saído do lugar. Corri atrás dela, a verdade. Mas me deparei com um labirinto de memórias. E olhei-a amedrontado, como um cálice no meio do labirinto, um tesouro  e talvez a caixa de pandora. Tinha sido a cama... é, claro, pensei. A cama foi a chave para esses sentimentos irreversíveis. Era a minha cama da minha antiga casa, dos quartos que eu tivera, um bem pequeno, pois nunca tive quartos grandes, quer dizer, no passado. Meus quartos eram cubículos  onde vivia eu e meu irmão dividindo um espaço que parecia mais um campo de batalha. Ambos, fomos sempre individualistas por natureza. Nunca deixe a memória distorcer as coisas que já aconteceram. Ela tem esse comportamento, martirizante, tentar tornar o passado atraente e belo, talvez melhor e mais adorável, quando nem em todas vezes teria sido assim. Ao lembrar de algo tente não intervir na verdade, pois talvez ela não reflita quem você é no presente. E por mais feio que  você seja, e me refiro aos nossos defeitos,  sempre será mais feia a pobre, misera e descomprometida mentira. Minha cama estava naquele quarto apertado, naquele sonho translucido. Cama beliche de madeira, em que deitara por quase toda minha vida. E com a cama, balancei. Mas firmemente resolvi não chorar e fui para a cozinha. Talvez fosse uma paranoia casual. Maldita hora que o  interfone tivera que tocar, e  ainda era o número errado! Retornei ao meu ser rabugento como geralmente sou pela manhã. Humor de urubu. Você ri, eu fico sério. Você fica sério, eu ignoro. Você me ignora, eu volto a dormir. Esse sou eu agora, ou quem sabe sempre tenha sido. Abri a geladeira e preparei um leite com Nescau...  E foi no último gole que lacrimejei, e finalmente, desabei.  E o percurso foi simples e direto. Primeiro, lembrei da cama, e depois o gosto do leite de Nescau, a TV ligada no canal de desenho animado, minha mãe. Minha mãe trazia o leite na minha cama. E esse era o meu ponto fraco. Eu teria preparado o leite hoje. Afoguei-me no leite junto com as lágrimas, pois minha mãe não estava ali, ainda também não havia morrido. Pessoas escrevem coisas assim quando outras morrem. Ela só estava em minha cidade, onde quer que ela estivesse, seria minha casa, meu lar e não estava comigo fisicamente preparando o leite matinal. Olhei o mar dentro de mim novamente, aquele oceano de lembranças incontrolável e vorás atropelando as  minhas angústias por tão pouco demonstrar e expressar amor a quem me amava, como um dever que não tivesse comprido, um tema que não tivesse sido feito, um capitulo de algum livro que tivesse começado a ler, embora não tivesse o terminado, afogado em frustrações internas. E  embora fosse manhã, presumi que esse era o fim do meu dia.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Uma tarde no parque...

          
           Tentei carregá-lo no colo até o posto de saúde. Estivera contorcendo seus olhos enquanto sufocava.  Não sabia se iria aguentar até lá. Precisava cruzar o parque inteiro, atravessar uma ponte de madeira e contornar  um quiosque. Assim chegaria ao posto, onde iria entregá-la a moça da portaria. Parecia ser um filhote, talvez dois ou três meses. Tinha os olhos castanhos e pernas compridas demais. O que me fazia questionar se era realmente um filhote. As orelhas eram pontudas com curvas estreitas.
             Aconteceu enquanto eu ia para a escola. Em meu caminho diário, escutei um barulho esquisito atrás de um capim alto. Era um parque estranho, cheio de salgueiros, lagos cheios de salmões e raízes de árvores que saiam da terra por lugares também estranhos. Bom, por isso que sempre gostei dele. Havia certa ansiedade em atravessá-lo. Uma vez adentro, o objetivo era chegar ao seu fim. Um momento só meu. Da minha casa ao colégio havia alguns 40 minutos de caminhada. Isso antes de eu conhecer o parque, porque além de estranho, era um bom atalho. Fora uma descoberta que acontecera durante e apenas naquele ano. Era um outro caminho que recém descobrira e estava disposto a alterná-lo conforme minha paciência e interesse por ele. Não me apegava a caminhos. Achava-os entediantes assim que sabia o que aconteceria depois de dobrar uma esquina. Mas hoje seria diferente. Pois estaria na sexta série e havia apenas um ano que passeava por ele. Descobri em seguida que comecei a ir sozinho para escola. Meu amigo disse que era um caminho incerto e por isso resolvera não me acompanhar mais nas caminhadas. De fato, não desistiria de explora-lo porque meu amigo não estava afim de um pouco de aventura. Segurei os cadarços de meu tênis furado que minha mãe me obrigava a vestir para escola e os amarrei.
            Estava com tanta gripe que quase não conseguira respirar na noite anterior. Minha sorte é possuir a saúde de três touros mais um leopardo. Me curava rápido naquela época. Foi quando ouvi o estalar de uma folha por trás de um conjunto de folhas longas e altas. Achei estranhíssimo. Pois nunca vira o parque tão inabitado, aonde estava o velho de bengala que sentava no banco próximo a árvore do lago? E a moça embalando o bebê junto ao lenhador?  O parque era assim, tinha Madelaine, a enfermeira do posto médico que passava as tardes sentada na cadeira da recepção com uma mão que  segurava sua bochecha e a outra que preenchia formulários para ninguém. Pois nunca via uma alma dentro daquele lugar, era branquinho sem mais nenhuma cor. Havia alguns animaisinhos...  talvez uma menina de cabelos encaracolados e um rapaz  de rosto esguio e pele branquissima... algumas sardas no rosto... um homem de meia idade de barba azul atrás do balcão do quiosque. O menino de rosto esguio e a menina de cabelo encaracolado as vezes apareciam correndo pra lá e prá cá, do lago a ponte. Por volta da uma hora da tarde eles estavam ali, zanzando, pescando e atirando migalhas de pães da ponte de madeira.
                  Mas, enfim, o que estava atrás das folhas longas e altas era o que carregava em meus braços. Era algo peludo, branco e afofável. Seu olhos estavam triste na grama quando o encontrei, parecia estar paralisado em agonia. O gozado era que apenas seus olhos moviam-se, como se tivesse visto um boi-zebu e de repente tivesse paralisado.  Sua patinha estava dentro de um arame, parecia uma armadilha reinventada de um formato estranho hexagonal. Libertei a patinha do pobre coitado enquanto ele me encarava inerte. E corri para o posto!
                   Fiquei tão assustado pelo animal que corri o máximo que pude. Embora ele não se movesse, de alguma forma, percebia que ele queria muito, muito fazer qualquer coisa, mas não conseguia! Que agonizante foi vê-lo daquele jeito. Atravessei  a ponte, e lá estava o quiosque. Aproximei-o com cautela. Esperando que alguém  de barba azul surgisse em algum lugar de dentro dele. Mas ninguém ocorreu. Segui em direção ao posto logo no fim da estradinha. Ele estava lá também, como em todos os outros dias. Menos a moça Madelaine, sentada preenchendo formulários. Ela não estava lá! E agora? Eu resolvi entrar no posto de qualquer forma. O balcão era da altura da minha boca. Eu sempre fui pequeno. Pequeno demais. Tão pequeno, que precisava fazer algo grande, como por exemplo, ajudar o coelho.  Pensei, ele não tem com o que se preocupar, pois eu iria achar alguém pra acudir ele.  Não havia ninguém atrás do balcão, mas vi uma placa que sinalizava  que haveria algumas salas de atendimento médico através de um corredor logo a esquerda. Avistei uma porta entre aberta em um fim incognoscível. Corri pelo corredor que não parecia terminar. O quê? Estranhíssimo. Naquela tarde nublada como em todas as outras, tudo estava da mesma forma só que menos habitado. Ao adentrar o escritório, vi a coisa mais horripilante de todos os filmes de terror em toda face da terra. A enfermeira acima do peso Madelaine estava de cabeça para baixo toda enredada em fios brancos naquela sala. Parecia um lustre humano e seu formato dava a entender que parecia ter sido transformada em abajur. Sem saber o que exatamente eu via, pisquei os olhos com força. E pensei, eu não estou vendo isso, ou melhor, eu não posso estar vendo isso, porque isso não faz parte do que é possível de se ver.

             

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Preconceito: solução x problema


Nas margens de mim

Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples
Autor:  Anitelli/Daniel Santiago/Leoni

                   Não sei até onde sou contra ações radicais e ditadorescas. Do fundo do meu peito, sinto, por vezes, imensa vontade que o Brasil deportasse pessoas com comportamentos discriminatórios, para manter-se no papel que é dito ser seu, o democrático, mas na prática, eu me tornaria eles, o vilão, não? Vou tentar divagar, já que a divagação não gerará o sofrimento dessa prática violentíssima.

              Ao tentarmos realizar esse sistema maligno de deportação, acordariamos para o fato de que em nossas próprias famílias, sempre existiram aquelas pessoa retrógradas e resistentes a opiniões distintas, muitas vezes desrespeitosas e preconceituosas, sem consciência alguma. Bom, se eu dissesse que em minha família nunca houve nenhum preconceito racial, sexual ou social estaria mentindo profundamente. E espero que a minha família concorde. Mas, não só na minha família, como na maioria das famílias brasileiras, se esconde aquele comportamento tradicionalista, bairrista e indiferente com o mundo e suas representações culturais; dentro do núcleo familiar se nutre o mau-hábito e o bom-hábito; uma capa, para acobertar a ignorância em relação que ninguém ainda havia sido conflitado, mas que de alguma forma pessoas começassem a gerar opiniões - uma auto-afirmação de que existe esse pseudo-conhecimento sobre as coisas, e dessa forma, que existe interação entre a família e o mundo. Por algum acaso isso já aconteceu com você? Estar com a sua família, ouvir uma afirmação que não reflete exatamente o retrato da realidade? Infelizmente, a sinceridade sobre o conhecimento é um caminho difícil. Afinal, para você ter uma identidade, precisa acreditar em algo.. precisa mostrar sua opinião... no entanto, infelizmente, não é possível saber de tudo! É tão difícil falar "eu não sei " "eu não entendo", "Eu não sei muita coisa" ou acostumar-se com o silêncio. Quando na realidade acontece o contrário.. todos sempre afirmam algo, sempre tem muito a dizer... e, diga-se de passagem, muita merda a dizer... aquela vontade que dá de se retirar da mesa e ir comer no seu quarto. Você já passou por isso? A vida não é um jogo de futebol, que você tem que torcer pra um time, e desejar que o outro tome no seu devido ânus, pois vivemos em sociedade... E, embora tendo esse viés, nós apoiamos o futebol mesmo assim. Mesmo embasado por esse pensamento dicotômico ridículo. Pois do futebol já ouvi "Macaco", "Bixa" e "Maconheiro". Até quando as pessoas saberão sobre tudo? terão opinião sobre tudo? É tanta ignorância que você decide não dar bola mais para essas pessoas que sabem tudo. Você passa a conviver com os livros e com os amigos que julgam a tudo muito menos, pessoas que julgam "saber" muito menos. 
             E ai você cresce e descobre na sua família, todos são como você, e como seus amigos.. que não existem "adultos", são crianças por dentro, nunca foram adultos. Aliás, não existe adultos no mundo todo!! Aprendi isso com o Neil Gailman... e por tanto tempo você ficou confuso.... pois embora fossem elas as pessoas que "vomitavam" pelas bocas, eram as mesmas que possuem valores lindos, pensamento revigorantes, atitudes extremamente prósperas e princípios inteligentes. E ai você volta a abraçar elas em outra fase de sua vida: adulto-adulto. Nesse momento, retorno a me perguntar sobre deportar pessoas que discriminam outras culturas: eu deportaria eles? Exilaria pessoas que eu amo? Então largo esse pensamento insensato e radicalista.

                 Estamos divididos dentro de nossas famílias, dentro de nosso país e de nós mesmos. Vetar os maus-hábitos e apontar as possibilidades poderia ser um começo... e é claro, como uma roda gigante, de novo de frente a educação nos encaramos. Aos poucos, aprimorar o raciocínio crítico. Só assim escavaríamos as dúvidas até o cerne do problema até chegarmos a um ponto aonde houvesse um posicionamento menos resistente a idéias culturais diversas e mais aceitação.

sábado, 12 de outubro de 2013

Leap of Faith

        Tudo aconteceu tão... na verdade, num átimo. Estava em casa...  em seguida fui parar dentro de mim! Através de sons e vento, acabei por conhecer um rumor sobre mim, imensamente desconsertante. Tanto que  quando voltei a minha alteridade em frente ao espelho eu estava. Meus braços carregavam palavras, que carregavam dúvidas, dúvidas indubitáveis e... sobretudo um mistério irreconciliável sobre o amanhã. 
         Empilhei meus livros no armário e fechei as portas. Caminhei para a sala de estar inquieto. Pronto! Havia organizado o interior do armário, atravessado a cozinha com pingos de cloro, logo após o rodo do banheiro, passado lustra-móveis na superfície dos cômodos, tudo estava no seu devido lugar. Quem dera eu pensei. Me joguei exaurido no sofá. Enquanto afundava na almofada, contemplei a janela com meu olhar fixo pra dentro de mim. O som da TV ecoava ao fundo. Mas a inquietação superava o seu eco aumentando meu interesse no Acaso
       Bom, embora houvessem alguns milhões desses - é claro que falo sobre as vicissitudes - dentro do breu, pontinhos líquidos flutuantes acinzentados e pontiagudos, compostos de pensamentos impensáveis, caminhos trafegáveis, prováveis e outros nem tanto, consegui concentrar-me naquele esquisito e aforme, contorcido e empoeirado, contornado por ideias obvias e por outras, de fato, curiosíssimas. Engraçado como as palavras interferem no seu dia-a-dia e como duas ou três tem o poder de formar ideias,  somá-las a sua percepção sobre as pessoas e o meio onde se vive, e como resultado, decompor  aqueles que as leem. A leitura delas, por mais legível que se fizesse, tornava-se talvez complexa e um pouco profunda. Era como velejar em águas helênicas, desvendar uma língua anciã, como perceber as arbitrariedades de um Outro, aprender a natureza da própria razão, que não é a sua, uma busca epistemológica focada nas escolhas do incógnito caminho que fora tomado.
        Havia algo muito pontiagudo entalado na garganta. Senti-o, e toquei-o de leve. Uma verdade afiada como ponta da espada. Quem poderia prever o Acaso e aonde ele poderia levá-lo? Um risco a se tomar... Seria o prelúdio de uma tragédia? Algo não foi dito, mas foi escutado, alguém mais havia ouvido ou era somente eu? Senti o toque em meu pensamento, de uma voz vindo do além, de um outrem, de um dia que passou, mas não percebi.
      Aproximou-se sem deixar-se percebido, assim da mesma forma que chega o Rumor. Sentou-se no mesmo banco. Estávamos em uma estação de trem. Ouvi sopros e eles me diziam coisas, enquanto os vagões passavam ganhando velocidade, só deixavam um assovio que se combinavam aos sopros. Perguntei seriamente o por quê disso neste instante. Estaria tudo tão no lugar, nunca esteve tão no lugar. As palavras vinham densas e discretas, invertidas, desmembradas, como em um exercício chato de morfologia. Vários lexemas atravessavam a estação, cantando canções sobre a mentira sobre a verdade. Sobre as coisas que eu acreditava. Mas, eu relutei, contando-lhe, que eu tinha escolhido o caminho e somente eu, ninguém mais. Um vagão transbordou  sua sombra em uma passagem sorrateira em frente aos meus olhos e de repente se fez luz. O sopro deslizou para meus ombros e me disse que não era amargura que eu sentia, era a minha condição. Eu estava preso nesse mundo, e sabe-se lá como ou quando iria retornar a realidade. No que exatamente estou preso, eu pensei, fadado a mentiras, " profanos contos de fadas", o sopro disse. Você não precisa se esconder de mim. Mas quem falava comigo? Não precisa selecionar as palavras. Do que falas exatamente? Não precisas de barras de ferro. Estava cada vez mais confuso. Parecia algo mais do que eu poderia em sã natureza ser capaz de entender, naquela plataforma, naquele lugar esmaecido da minha memória.
      Todas informações eram apenas ruídos, e o que aquele acaso estaria me dizendo...volúpia, mentiras, amor, o que raios seriam aquelas, palavras soltas, fragmentadas. Sobre eu mesmo. Sobre minhas ações. Mas por quê? Sinto muito por não entender o que isso simplesmente quer dizer. Nem tudo é tão obvio para ser assim, jogado ao vento, falado, expressado e dito. Se toda escolha fora de plena consciência, é mentira? E se não fora somente eu, não fora eu mesmo. A bagunça hedionda, a mesa desorganizada, os armários abertos e a pilha de pratos, em cima do balcão da pia? Aonde você me levou durante a tarde? - A um passeio sobre a feia verdade. - suspirou o rumor.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Por onde andaras?

      Era primavera, mas não a primeira, quem sabe a segunda, ou talvez a terceira. O tempo passara, voava tão rapido, que eu nem notara. Talvez já houvesse perdido as contas de quantas vezes bati minhas asas. E no mesmo vale, no mesmo bosque, como de costume, entrara. Procurando pela flor que um dia amara. Não era aquela flor que me encantara. Desabrochara levemente. Sutilmente inclinara suas petalas em minha direção. Deixara-me cheira-la, tocá-la com meus dedos miudo, frageis e invisiveis. Me acomodara em sua textura suave, como um abraço após uma estação apressada, como o silêncio do céu-estrelado. Aquela flor que com seu néctar me alimentara, me perfumara e me encheira de histórias. Me levara para brincar e me tocara com seu jeito: me fizera rir e tambem chorar. Não era aquela flor, a mesma que sentira dor, quando eu senti dor. Não era mesma flor das primaveiras que eu visitara. Talvez nem mesmo Eu, nem eu era o beija-flor.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

A Shortstory of a Dead Samurai


      I, waiting for some kind of reply that, in the midst of that dark not much special night, would never come, stayed umoved in the wilderness of the night. Aren't there any more words left to say? - thoughts still backlashing right inside my head. Something whispered in my ears and I couldn't get too much, but the pieces of words were 'silence is within thee'. No worst creature, there, could live, I thought. What, tell me, please, for once and all, what the hell, if this hell exists, do you really want from me? - No voice came back on my ears. And I just realized a minute ago, weren't whispers but the sound of the trees. I know, I haven't been good, I thought, but what about what I not have done wrong? How could this be? Rather making greater the small mistakes; thy judgments sirve to one purpose: cursing me! strenghtening my weakness, enlarging my disappointments and turning the last parts of my bones and body into soil, that's all Earth's made of. Meaningless to shout at nothing in that dreary starless night. Although my vision tried to fail me, still Azamoto I was, and resisted against Tanatus. Focused my slightly dead eyes upon the red spots over the hills at the distance. Was it over? Dead all the samurais tonight? The values and devotion for nothing? Why? The face of my kins, friends, family, my son and wife soaked in blood and pain. And King says destiny exist? God exist? Cause and consequence. I'll proove.. but, for, Satan I sell my soul - 'yes'. Hold on, did I hear something? Splitting my head, my vitality was consumed by the open wounds and loss of too much blood. Silence devours moments, and then hours, minutes in sinking thoughts. Fallen thoughts circling the drain... Fading out, falling out of place - as a leaf soflty sliding down from the highest tree among the woods; not meant to reach the ground. Wilting, poor energy of my nature, sucked out. Were sorcerers among the Ninjas? In that night, to journey to hell I call for your fatal punishment, I shall keep thy name. My relentless soul will remain untouched, for killing intentions and ravage fury I carry with me, until the whole village's murders burn in eternal flames and last in damnation forever. The silence at the end of the valley moaned, not as silenced as I thought. It looked like a woman telling by its face, around 30; with neither charm nor scent; it showed nothing but emptiness, - but how could this be? - it was not sensual, on the contrary, it looked like an animal chasing its pray, sniffing compulsively. She came closing in, through the woods, and stared at my body, flat on the ground, like some type of suculent meat, smiled with madness style and pierced my chest with one of its hands, like a toy, while my soul was no longer mine.



quinta-feira, 4 de abril de 2013

Paixão que é Cega arde só que vê

        Iam me devorando aos poucos. A vinda das sombras dos moveis me indicou quanto tempo eu precisaria novamente para me esconder entre aqueles lençóis dobrados de esperança. E regressar os pensamentos ao emaranhado de sentimentos de solidão que minha alma cortava fundo para o consumo da felicidade ininteligível do nada. Eu havia perdido tanto sem perder nada. Um quarto. Um lençol. Um ou dois goles de vinho. Dez diálogos. Embriaguei-me em lembranças e sinestesia enquanto eu te perdia;  Me davam nós  no estômago enquanto eu te perdia; Suas mãos escorregavam das minhas e o vento dizia-me. "Deixe-a passar, do que vale quaisquer palavras quando as próprias já são verdades alheias.", a paixão empírica do homem  por sua própria odisseia de vida é gigante, mas quem é esse homem para mim? Levantei-me de súbito caminhei até a escrivania  apanhei a chave e  deitei novamente. Percorri o mesmo caminho por três ou quatro vezes - as memórias eram um labirinto - mas meu coração batia enfraquecendo-se. Seus últimos toques davam um ar de tristeza. A sala esvaziava, mas porque te tranquei a porta dos meus pensamentos, enchia-me de desamores, a sua presença me ardia. As sombras me faziam companhia até o ultimo feixe de luz esmaecer e eu ser engolido pela infalível ausência da compreensão.

segunda-feira, 4 de março de 2013

À natureza e divagação e ao tempo

        Desculpem meu interesse sobre a Biologia. Mas, realizei a banalidade de ser um Ser e embarquei na maior palhaçada existencial do universo. No útero me alimentei; e alguém me disse que eu poderia ser quem eu quisesse  ou pelo menos ouvi vozes; trouxe esperança para alguns; enquanto alguns desses alguns morreram antes mesmo de eu crescer plenamente; minha cachorra, Sofia; minha casa havia sido boicotada; meus amigos perdidos entre os amigos e os namorados,  viagens, paixões e beijos relâmpagos; o emprego e a barba; seriam as dores?; os remédios?; o surto de desprezo pela vida, e o ponto final estaria por vir. Arrumei a cama pela milionésima vez. Sabia como seria ao saber o que estava por vir. Não precisava ser um zigoto. As mesmas almofadas, dos mesmos apartamentos vazios (que existiam somente em contos noturnos), de homens cansados de pensar;  de textos inexpressivos para público nenhum; choros nunca presenciados, e falas abafadas por gritos que nunca foram ouvidos, e nunca serão, pois, afinal, quem se importa com a razão de viver?  A morte literária seria o penúltimo passo.  - Sabe que hoje me acordei dormindo e feliz por saber o quanto eu precisava para continuar nos cobertores - não muito, é claro! -Essencialmente, uma vida sem essência; desprovida de um sentido maior; de dias esquecidos.  Enquanto isso, de sono me escondi, assim como os milhares outros daqueles continuamente exilados; de almas mofadas: por não entenderem por quê devem apenas morrer; não adianta acorrentar-se a mais mentiras. Seriam as coisas como as coisas são. Uma antropofagia natural na qual o tempo, na verdade, encontra-se no topo da cadeia alimentar, não o homem.  Era como ser um 'vampiro', sem ser vampiro. A maldição diária, o 'countdown' para a eternidade sem dor. O homem não dividirá, ao menos, sua 'contra-letargia' interna. Somente ele saberá como pensa, como sente, como sofre; vivendo na sombra de que suas atitudes o definem. Por que se limitar as explicações e as ações de um outro alguém? Da alma desacorçoada de quem traduz-se por angustias remotas; não existia conflito maior do que saber que o que sempre soube, iria findar-se em realidade.  Nasceu para reproduzir-se e morrer.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Sombra do Candelabro


        Havia um candelabro negro na sala vazia - além de um punhado de memórias mofadas de outro dia. Subi as escadas e fumei todos os maços e segui para cama incrédulo e transbordando em ressaca. Separariam-se as almas sem consenso meu. Sim, havia um candelabro naquela noite; Não na mesma noite, mas em outra qualquer.
        Sentiu-se estômagos serem embrulhados como esplendidos presente de aniversário. Separariam-se mãos dadas. Sentei em silêncio, e pelo resto da vida, parecia justo. A tensão gélida subia enquanto a sala vazia enchia-se de cinzas.  Elas caiam sem parar.  Evacuei meus pensamentos, pois eram o seus que tomavam conta de mim; como uma doença que jazia e rastejava desde o candelabro até o pé da mesa apodrecida.  Havia um candelabro negro conjurando sombras sobre meus sentimentos mais temerosos. 
         Próximo as sombras dos teus pés me contorci. Não foram as placas de carro, nem o tráfico turbulento e muito menos os fogos de natal.  Foram as sombras que me levaram a não crer; não correr em alta velocidade; não prosseguir; não estacionar... nem nada do gênero. Cinzas caíam de todos os lugares enquanto o que eu pensava faiscava contra os fatos - por um segundo achei que era em minha cabeça. Mas estava sozinho naquela casa assombrada. 
        Levantei da cama e desci as escadas, já faziam anos, e a mesa e o candelabro ainda sofriam; sobrevivi em carne todos esses anos, pois não havia mente, sanidade ou a balança da vontade pela vida... Tanatus regiam meus instintos, sozinho. Meus olhos caíram submersos em inaptidão de qualquer outro movimento enquanto fitei a sala vazia. E por mais que tentasse esquecer, o velho candelabro, dia à dia, faria a sombra de minha  mulher pendurada ali permanecer ali em escuridão para todo sempre.