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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Macaco e os cachorros

   
      Apontar quando ele entrou em nossas vidas é difícil. Mas foi um desses que marcou completamente parte de nossa existência no tempo. E é incrível como esse tempo passou rápido olhando hoje para trás. Macaco era um cachorro esbelto, aventureiro, com ar de liberdade pulsando da  ponta de sua cola fina à ponta das duas orelhas pontudas, de pêlos pretos e aparentemente penteados, focinho de pastor belga e olhos castanhos escuro-tristes. Era um super-herói vestido de cachorro. Transpirava uma mistura de valores. A obediência refinada com os instintos mais primitivos de caça. Se alguém que o conhecera ler esse texto, entenderá a profundidade da verossimilhança que estou tentando passar ao descrevê-lo. Minha intenção é ser fiel aos detalhes. Uma vez que nosso querido amigo, Macaco, optou,  pela sua vida canina, ser fiel com nossa família; nossa casa e principalmente meu pai. Ninguém merece mais a palavra fieldade do que ele.
       Havíamos  na época acabado de perder um cachorro. A Leka ou talvez Leca. Acredito que era início de minha adolescência. A Leka era uma Fila misturada com alguma coisa e muita felicidade. Uma cachorra boba, que por conta de uma doença visceral acabou falecendo nos fundos de casa. A vida de todo mundo entristeceu-se desde sua morte. Era a segunda cachorra que até então havíamos tido. Uma tentativa de recomeçarmos a criação de um novo animal, que no momento de sua inabalável morte, parecia termos fracassados. Macaco foi o começo de um novo ciclo, embora, de fato, cada cachorro tenha sido especial na sua forma. Quando disse que ele optou ser fiel, definitivamente OPTOU é o verbo que mais define sua entrada na família. 
      Macaco morava na outra quadra e já tinha um lar. Um lar que pelo jeito estava desgostoso de fazer parte. Eles mantinham ele como um cachorro de dentro-de-casa. Até o dia que ele quebrou o vidro e veio parar aos cuidados do meu pai na minha casa. Essa perspectiva da história me falta. Não sei se Macaco havia o seguido ou surgido acidentalmente no patio da minha casa. Contudo terminou sendo alimentado e cuidado pelo meu pai, que trabalhava como uma espécie de zelador, entrando nas residencias ao redor de nossa casa e verificando se tudo estava em ordem, acendendo as luzes a noite e pela manhã apagando-as. Além disso, meu pai trabalhava como vigilante noturno em um construção na rua da praia de onde moramos, o Cassino. As noites de acordo com meu pai eram solitárias, frias e inacabáveis. Lembro que uma das vezes visitei ele na construção. Minha mãe havia feito algo para ele comer e resolveu levá-lo. O lugar se resumia a um conteiner, uma TV preto e branco de pouquinhas polegadas e uma cadeira de praia e um cachorro preto ao lado da cadeira. Depois de ter uma conversa com meu pai, o dono de Macaco concluiu depois que o cachorro voltou três vezes para nossa casa, que não entendia de fato o espírito rueiro dele. Era um cachorro livre. Ia pra fora de casa, as vezes desaparecia, ficávamos preocupados, e voltava. Em uma das vezes que ele desapareceu descobrimos que ele estava envolvido em uma arruaça canina por causa de uma cadela de rua. Macaco era territorial. Completamente fiel, obstinado, amigável, mas se tratava do sexo, ele desaparecia. Meu pai ficava divido entre o orgulho machista e a preocupação dos resultados da briga pela fêmea. Macaco intimidava os inimigos, mesmo eles sendo muitas vezes maiores que eles. Brigava com cachorros como se tivesse treinado seus movimentos. Já nos tempos vagos (por favor liguem o som com música clássica) ele caçava passarinhos no quintal. E de vez em quando aparecia abanando o rabo mostrando o que havia feito para meu pai que relhava com ele. Era uma mistura de "veio você não é um gato!" com "coitado do passarinho.". Ele andava por cima dos muros como se fosse um gato,  tinha a habilidades de um gato. Certa vez ouvimos barulho no telhado de casa. Era ele. Como ele havia parado ali? Bom, quem morava ali sabia que a casa da esquina tinha uma escada que dava acesso a um terraço. E provavelmente Macaco teria subido ali, percorrido os telhados vizinhos até alcançar o nosso.
     Era simplesmente um gato, que era um cachorro, e que também tinha seu lado gente, pois, alem disso, ele se comunicava. Ele guinchava  inquieto ao pedir por carinho, insistia nos guinchos caso não fosse atendido com atenção. A cola, o focinho e os guinchos expressavam a faceirice e o desapontamento muito claramente. Não havia duvida nas atitudes de Macaco. Era obstinado e objetivo. Adorava irrita-lo ao rodar a cola dele. Ele pirava, começava a caça-la como se não houvesse amanhã. Abraça-lo e levantá-lo no ar era pedir pra ele guinchar e se refestelar, ficava animado, e devolvia numa mordidinha sem dentes insana. Era basicamente a forma bruta de brincar, e depois ele saia de leve como se não tivesse a certeza de até onde foi na brincadeira. Era um cachorro sensível. Sentia o cheiro de comida de longe. Tinha um faro equivalente ao do Wolverine. Exclusivamente quando havia gambás nas árvores. Nos tempos vagos ficava parado na frente de casa, sentado e apoiado nas patas dianteiras, como aqueles gatos egípcios, olhando o movimento com um olhar calculista. O que lhe aderiu o semblante de gentleman e um ar de xamã da sabedoria quando lembramos dele.  As vezes, parecia ele entender mais sobre a existência do que todas nossas visões de mundo somadas.
       No oposto do seu lado instintivo estavam seus olhos escuros-tristes. Macaco sentia muito. Era perceptível. Talvez esse olhar viesse com revelações que ele não conseguisse decodificar e por isso não se importasse em compartilhar conosco. Mas ele via coisas e entendia elas. Sempre que lembro dele é essa a imagem mais forte. Ele parecia entender mais do que todos nós. O que ou por quê, não sei. Mas o que ele sabia fazia ele agir tão paradoxalmente. Esse alto grau de adaptação, mudança, a opção de vida, do instinto a obstinação. Tudo era resultado do tamanho do tudo que ele sabia. Parecia ser meio triste. Especialmente no final da sua vida, em que fui mais ausente. Ele parecia prever o fim e também ter aceitado o mesmo, e de forma pacífica, um dia, ele optou por nos poupar, e desapareceu. Hoje eu sonhei com gatos, e que morava na mesma casa da infância, e eu tinha medo que o Macaco os atacasse quando as crianças jogassem a bolinha de tênis ao brincar. Tinha medo que ele achasse que fosse pra ele, assim como os gatos e acabasse num conflito. E, de repente, o sonho tornou-se ele. 
         Não sei se vocês conhecem a teoria dos gatos de Erwin Schrodinger, da física quântica, em que o gato no paiol vive e morre no experimento. Isso porque, segundo a física quântica, se houvesse o mínimo de interferência, como uma fonte de luz utilizada para observar o fenômeno, as realidades paralelas do mundo subatômico entrariam em colapso e só veríamos uma delas. Ao meu entendimento, esse é o estado de Macaco, existem duas realidades paralelas, em uma delas ele está bem vivendo em algum lugar fofinho e quentinho. E na outra ele disse bye-bye. Prefiro assim pensar... sem interferir no paiol, deixando as possibilidades abertas para que ele OPTE.  Assim foi, assim continuará sendo... livre. Quem diz que cachorro vive/serve apenas para cuidar do quintal, não vê a alma do animal, Na verdade, condiciona-o a viver o que muitas vezes não é da sua essência. Alimentar não basta. Pro animal levar você (mas levar pra onde? pra onde houver vida), da mesma forma que você leva qualquer coisa que ama, o minimo é amar e viver o animal. É claro que isso não está no manual de 'como cuidar do seu cachorro'. O que eu posso dizer é que valeu muito a pena... meus sonhos estão repletos deles agora, ficam voando sem asas atrás dos medos que percorrem a imaginação do subconsciente; meio anjos, meio guarda-costas, ladrando e afugentando-os; até a hora de minha morte, e isso é reconfortante.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Paredes de dentro

Eram onze e cinquenta. Não havia nada que salvasse o dia. Muito menos algum super herói americano. Havia lá fora a realidade, as cidades e as pessoas. Realidade desanimadora para quem passaria o dia afogado em um mundo interior de sentidos caóticos. Estava coberto de sangue o céu, hoje, avermelhado. Não sei se era ainda o gosto do remédio, mas o gosto do dia - nem sabia se era dia - estava amargo. Escondia-se por trás das nuvens determinada nostalgia. Não dormia por noites e mesmo depois de algum sedativos, resistia ao sono. Quando finalmente transmudava-se com olhos abertos para o universo dos sonhos, ainda assim era vermelho o céu que seus olhos viam. Em sua mente esse relógio que trabalhava de maneira própria e não-linear era igual a um tocador de música no modo aleatório: seu tempo escolhia a próxima hora. Ás vezes sugeria que não houvesse uma. Mesmo que um relógio de parede estivesse dependurado sobre a porta em frente a sua cama, alguma parte de seu ser intervia de maneira extremamente lógica inferindo que aquele objeto fosse apenas um brinquedo. Algumas memórias quebradas da infância justificavam a lógica. Ganhou no seu quinto aniversário, ou no quarto, sem precisão exata, um relógio em formato cúbico que se desdobrava e alterava suas cores como um quebra cabeça. Seus ponteiros afiados apontavam para elementos numéricos. Ali. Aquele homem. Cansado de lutar a procura de onde estava naquele espaço e tempo, guardava suas energias para o momento em que esperaria o tempo que fosse necessário; para quando algo ali dentro daquelas paredes acontecesse. Mesmo que esse tempo não fosse chegar ou que o acontecimento não pudesse ser findado, ele tinha esperança. A esperança era esta forca que tornara-se o último fio de sanidade que ele podia recorrer à. Quando olhava para o passado, já não lembrava-se da dor, apenas da pura felicidade. Quando olhava para o futuro via o reencontro dessas formas - sejam lá quais formas - mergulhando uma na outra, como cavalos marinhos no fundo do oceano: leves e despreocupados. Não haveria medo, nem predileções, nem futuro ou passado. Só haveria  eles. Descobertos de historia. De tradições e princípios. Vivendo a imensidão do que são e sentem. Sentiu alguma coisa perfurar sua pele. Mas era comum sentir de vez em quando esses ferrões em alguma parte de seu corpo. Já havia se acostumado. Era quase parte do mecanismo de seu organismo. Outro dia ouviu alguém balbuciar alguma coisa em seu ouvido. Era um zunido agonizante. No final daquela noite - que talvez não fosse noite - lembrou-se daquele som e sentiu o cheiro dos cabelos da sua mãe, sentiu algo molhado escorrer pela bochecha, chorou algo talvez, e um aperto diferente do ferrão em uma parte do cérebro, e então, num átimo, voltou ao vazio. Sentia muito raramente essas sensações únicas. Como se alguma alma tentasse de milhões de galáxias de distância contato. Contudo, tudo era uma reação de um dos sinais que seu corpo transmitia. Não havia um caminho para percorrer. Sentia-se como um feto em formação envolto a placenta. Encolhido num mar escuro e liquido do espaço. Vagando num tempo escuro e incontável. Feito de paredes viscosas e algumas memórias. Em outro evento seu corpo cogitou a dizer-lhe mais alguma coisa. Foi um momento eletrizante quando em uma de suas tardes de Setembro sonhou. Sonhou que sonhava que dividia o quarto com um bebê que falava.  O bebê estava sobre a cama ao lado dentro de uma pequena redoma de vidro. O bebê contou-lhe a historia de um homem que dormia um sono profundo. Com um dos seus dedinhos apontou o ponteiro imóvel do relógio. Era como se o bebê tivesse toda percepção invejável de se ter. Seus olhos perspicazes viam luz. Seus ouvidos atentos provavelmente ouviam o som do bater asas dos pássaros e o latido dos cães em algum lugar distante do prédio. Suas mãos tocavam a redoma. Alem de tudo isso, ele era capaz de comunicar-se através  dos gestos, do sorriso, do levantar de sobrancelha. Que terrível inveja cresceu da boca do estômago a pressão dos nervos da cabeça neste homem. Uma dor incontrolável o submetia a sufocar a imagem daquela criança saudável com parte de toda sua força restante. Pensou com tanta forca que fez seu sonho tornar-se em escuro. Sua mãe lhe trouxera flores. Uma única rosa branca na verdade.  Ela colocou-a dentro de um jarro azul de plástico sobre uma mesa simples quadrada ao lado a porta. Tirou-a de uma colina ao lado da fazenda de seus pais. Costumavam ir todo verão. Havia um riacho. Um curral. E uma colina. No riacho, as crianças banhavam-se enquanto os adultos falavam sobre o futuro. No curral, as crianças apelidavam os animais e amamentavam os porquinhos. Na colina, as crianças colecionavam rosas brancas para levar pra casa. Embora não viesse aos seus sentidos, algo lhe dizia que ainda restava o que sentir. Seu impulso de vida era maior do que qualquer outra força. Seu pai colocara um quadro na parede ao lado da cabeceira de sua cama. Nesse quadro havia as fotos de alguns amigos. Da cachorrinha que dormia em seu quarto ainda filhote de nome Zora. Bilhetes. Mensagens de esperança. E um recorte de jornal sobre um acidente de carro. Numa fatídica manhã de uma primavera, acordou invernal. Sentiu uma suave sensação humana pela primeira vez depois do acidente. Era como se a palma da mão de alguém escorregasse por sua pele. Uma sensação de afogamento, e um suspiro lhe passava cortando o pescoço. A imagem aterradora do esquecimento lhe foi por um instante um pavor eterno. Até o volúpico abraço de saudade. Alguém que apenas sabia que sentia falta. Lembrou-se do sonho do bebê novamente, e de como havia esquecido da parte em que seus pais o retiravam daquele universo de vidro enquanto ele ria e grunhia sons estranhos de felicidade. Sentiu seu coração pulsar como um lampejo no entardecer: um batimento cardíaco como um flash solitário e intenso na treva. Seu pai nunca apareceria para apanha-lo daquela maca. Exceto se revestido em penas. Ele havia se ido. Se voltasse, talvez viesse como um anjo ferido pelo acidente de carro que o levara cedo demais. Seu padrasto provavelmente estaria viajando a negócios. A sensação das mãos deslizando pelo braço aumentava. Pareceu segundos todos aqueles meses, até sentir a consciência emergir. Pensou ser um anjo torcer-se em desespero no teto do quarto branco, mas as chances e de que eram mosquitos. Não os distinguia bem. Mas existia uma claridade. Houve um barulho da porta encerrando o burburinho. E as maquinas trabalhavam. Não havia algo além da profundidade dos sons dos equipamentos médicos ressoando em seus ouvidos. Estavam na janela. Seus pais, seu tio, sua irmã. Sua cachorra gorda já envelhecida. Estavam do lado de fora do quarto. Observando. Sentou-se na cama. E observou as paredes de dentro. Da janela via as nuvens do que parecia ser o vigésimo andar, e o mundo ali, do lado de fora... ainda existindo acima das cidades e pessoas. Ele notou a presença daquele homem, mas não trocou muitas palavras. Afinal, não era preciso. Tudo já havia sido dito.
- Senti saudades das panquecas. Sentiu muita dor?
- Você sentiu?
- Acho que eles sentirão mais. Foi tudo tão rápido, embora tenha parecido...
- Precisamos descansar.
- Sinto a mesma coisa.
- Sentimos.
Os dois subiram na cama e cobriram-se com um abraço reciproco.
Os médicos saíram da sala com a noticia. "Dormiu." E dentro da sala o relógio tocou o meio-dia.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

***Ocaso em Jacarezinho


       
         Vivia uma vida mais ou menos. Um repúdio leve a todos acontecimentos mornos e acefalados sobretudo com todos e tudo o que lidava. Havia me mudado alguns anos. À trabalho. Num bairro classe média-baixa, de nome Onofre, nas redondezas do centro de Jacaré. Tive um pesadelo com meu chefe,Vilmar. Fogo. Ele descobria que eu era homossexual e me demitia. Mas ele não me demitia porque eu era homossexual, mas porque eu tinha visto ele com outra mulher que não era a esposa dele. Ele estava com medo que eu contasse para os outros. Que estupidez, pensei, assim que acordei. Acontece que nem sei se Vilmar é casado ou tem esposas. Sou legitimamente invisível na vida das pessoas de onde trabalho, o escritório de advocacia da cidade, no prédio mais alto do centro de Jacarezinho, lugar onde não existe prédios altos. 
         Aonde estaria minha mãe agora? Um simples devaneio. Casa. Eu nem estava lá, mas tirei uma de minhas pernas pra fora da cama. Senti um cheiro de fumaça. Ignorei o fato. Eu nunca tive uma, mas encharcado de sonolência, lentamente encaixei meus pés na pantufa. Caminhei para cozinha. Um pé atrás do outro. A visão hospitalar da cozinha, me causava ânsia. Era como se as paredes gritassem reclamando interruptamente "tirem essa camada de nada da minha superfície". Superei a reclamação quando meus ouvidos encontraram um eco irritante. Ah, o eco do movimento do braço dos segundos do relógio na parede de tinta branca que me insinuava coisas queimando minha paciência. Ironicamente já fazia alguns meses que deixei de me importar, embora eu esteja mentindo... Admito. A vontade de quebrá-lo em pedaços é imensa. Em alguns bilhões de pedaços. Isso sim, isso me faria feliz. Quem sabe em seguida pintar um quadro escuro e colar suas partes. Sempre quis uma pintura retratando a noite em minha sala ideal. O único amigo que fiz no trabalho disse que isso é índice de tratamento psiquiátrico. Outra noite convidei ele para jantar comigo. Rubens. Ele veio. Teceu milhões de comentários do tipo "que apartamento lindo você tem", "adorei sua sala", "seu quarto é bem espaçoso", "que cozinha limpa e impecável". Viado. Foi o que pensei. Transamos. Fingimos que nada aconteceu.
          Não abri direito os olhos, o caminho para cozinha aconteceu no tato naquela manhã de Abril. Ainda assim, avistei a marca do suor da minha mão na porta da geladeira. Na pia, os restos de comida e potes não lavados; cheiro a esgoto ( e talvez alguns fungos); panelas engorduradas, copos de vidro e copos de plástico todos uns sobre os outros. Envergonhei-me pela cozinha que não era minha. Aquela garota do escritório, de nome Liana, não estava me vendo. Ela era interessante, mas não mais. Talvez tivesse tudo para ser, mas acabou não sendo. Olhei para ela certa vez e a disse. Não me importo se você precisa procurar o seu Ex, não me interessa que você procura alguém, também não me apetece saber como você foi tratada pela mulher da recepção do seu prédio. Resumindo a disse que não tenho interesse na vida. Me chamou de grosso e disse que eu deveria ser amigo dela. Eram oito horas e meu coração disparou, eu estava atrasado das minhas obrigações, uma delas é confrontar-me com Liana. Um feixe de consciência afundou como um baú pesado num mar dentro de mim. Responsabilidades. Senti uma ardência em meu pescoço. De qualquer forma, era o que eles chamavam. Algumas que não eram minhas. Qual era meu nome mesmo? Atravessei o corredor desviando dos sacos de lixos para serem jogados fora, e pensei, como deixei eles serem formados no corredor da minha casa? Duvidoso, entrei no banho enquanto me despia de todas verdades, todos os gostos e sabores, um pouco dos meus sonhos, a maioria dos princípios... escorriam e deslizavam, drenados pelo ralo. O cactus havia morrido. Enquanto todas coisas outras, aquelas que absorvem o néctar da alma viviam. Eles mataram o cactus. Vilmar, Rubens, Lidia.. Eles me afastaram do cactus. Do verde, ele azulou. Depois tomou uma cor amarelada. Foi como uma faca pelas costas. Não ajudei quem nunca me julgou ou hesitou em silenciar-se. Sempre forte, dividindo o espaço com meu amor fraternal. Deixei-o para morrer, observando meus passos dentro da casa. Ele não era daqui assim como eu, o clima e a cidade também o matou. Assim como estava me matando.
           Apanhei uma toalha e vesti-me. Segurei alguns livros, coloquei-os no banco de trás e verifiquei minha aparência no espelho retrovisor. Mas não lembro direito o que vi. Liguei o carro e estacionei como de costume. Levei algum tempo caminhando para o prédio. O elevador pareceu levar uma hora inteira. Havia um chiclete no bolso da calça. Masquei para passar o tempo, pois o transito parecia mais rápido que o elevador naquele dia. Minha barriga parecia que girava. Me perguntei por quê de tanta ansiedade? Sentia como se algum tipo de reação orgânica acontece dentro de meu estômago. Além de um aperto no peito, como de quem perde um ente querido. Pensei no café que sempre me esperava, toda manhã, quentinho, do lado da porta do elevador.
        Escutei o sinal e o movimento das engrenagens do elevador preparando-se para abrir. Ao sair encontrei todos eles ao lado do café em um círculo estranho. Não consegui atravessa-lo eles estavam muito grudados como se estivessem de mãos dadas. Cena patética. Tive que contornar a cabine do Rubens. De costume sua mesa estava devidamente organizada. Sua xícara de café estava sobre o jornal do dia. Em letras maiúsculas a manchete era TRAGÉDIA EM RUA ONOFRE. Apressei-me para o café em passos rápido. E ao alcançar o balcão, meus olhos presenciaram uma cerimônia de adeus. Uma figura estranha em uma foto 15x16, fotos impressas com a família, o ex-namorado, algumas risadas. O que era aquilo? Havia uma foto de Lidia, Vilmar e Rubens bebendo juntos comigo. Meu pai e meus avôs. As flores decoravam o chão. Ajoelhei-me e segurei uma das cartas escritas por Vilmar, Lidia e Rubens "ao mais competente e intenso funcionário que existe.", "ao meu melhor amigo nas horas vagas, nas boas e ruins", "para o meu irmão, e a unica pessoa que um dia pode me ver como ninguem nunca poderá". Meu peito apertou, assim como a saudade que sentia deles. Aonde estava minha mãe? As fotos eram minhas. Eu havia morrido num incêndio e tudo havia queimado. Um sentimento ardente de vazio invadiu meu peito... nunca mais teria meus amigos de volta. A vida... Meus pais... como eles estavam? Eu fui invadido com um medo de uma dor, a qual não era minha, assim como me senti por toda vida. Levantei-me cambaleando até minha cabine em um desespero silêncioso.
            Meu facebook estava cheio de recados, amigos, ex-colegas, família, conhecidos.. "Meu filho, nós te amaremos pra sempre", "nunca será esquecido", "que a dor nunca volte". Do lado, do organizador de lápis havia uma poema Shakesperiano que encerraria minha dor para sempre:  " Farto de tudo, clamo a paz da morte/ Ao ver quem de valor penar em vida/ E os mais inúteis com riqueza e sorte/ E a fé mais pura triste ao ser traída/ E altas honras a quem vale nada / E a virtude virginal prostituída /E a plena perfeição caluniada/ E a força, vacilante, enfraquecida /  E o déspota calar a voz da arte / E o néscio, feito um sábio, decidindo / E o todo, simples, tido como parte /E o bom a mau patrão servindo/ Farto de tudo, penso, parto sem dor / Mas, ao partir, deixo só o meu amor".

                             ***No sentido figurado, ocaso significa fase de decadência ou fim. Define o período que antecede o fim de um acontecimento, a queda de algo. É também sinônimo de ruína ou morte.


terça-feira, 18 de março de 2014

Significando Nada


            Somos organismos, o resto é história. A história que recheamos de significado. O significado... havia algum espalhado por entre os segundos; os minutos das horas; dos dias que deslizam pela memória; das  semanas que sentimos passar de pressa; dos anos que vivemos em nostalgia; das décadas que descreve a silhueta da vida que tivemos. Por muito tempo havia pensado que houvesse; Signficantes, e não só meros personagens de uma peça; de um Significado significado pelo mundo que já fora oceano e um único continente. 
          Contive-me no momento que antecede meus julgamentos, atribuição de culpas a quem penso que sou. Perdi-me a medida em que adentrei o triângulo das bermudas de meus pensamentos nevoados pela dúvida. Senti-me perdido a metalinguagem da metáfora, que é só outro sentido para o que as palavras querem dizer. Que complexo de inferioridade tremendo usá-la, se é de humanidade que quero falar, com múltipla ambiguidade nos significados despojados de pretensão. 
           Apesar de não parecer ter perdido o compasso alocado no córtex pre-frontal do meu cérebro por tempo indeterminado - aquele capaz de discernir o que seria moralmente possível e socialmente apropriado - esqueci-me de todos os planos a longa data; e a vida que esperaria dali para frente já era uma incógnita. É tão errado viver em um cronograma fixo; preferimos usa-lo, o sentido, significá-lo, concebendo que faremos diferente o processo de significação; concebemos que todas coisas que denominaremos e conduziremos seriam inéditas; enchemos nosso coração de esperança; todas as coisas que poderiam ilimitadamente criar; um oceano infindável de possibilidades. E, por isso, migramos para a ficção de nossas histórias, de nossas literalidades; remamos contra a corrente em uma tormenta intransponível a fim de descobrir-nos em um mundo pouco mais "nosso"; um pouco mais "Eu"; atribuindo aos poucos sentido ao sentido, deslizando e esquivando-se das certezas absolutas, das inverdades sociais, das normas pré-concebidas. No final do caminhos, nos deparamos em uma cabana. É nessa cabana que acabamos por nos reinventar, criando um sistema de significados interno (o que nos torna Homo Fictus, seres ficcionais), e assim perdemo-nos em um universo do Eu; em que as palavras lembram o rosto do Eu; o olhar penetrador revela-se unicamente parte do Eu; o cheiro interpenetra os caminhos percorridos pelo Eu; o tato possui suas próprias terminologias; enquanto, do outro lado da floresta, como orvalho no início do dia, o exterior/externo se desfaz.
             A culpa de ter significado, inventado um sistema interno, e feito dele um modo de ver as coisas, que é compreendido por somente você; nunca será sentido da mesma forma e nem compartilhado. Você se apaixona pela sua obra, pelo todo, construído através dos detalhes. Cria laços, vontades, retoma aos conceitos que são mais proeminentes e indestrutíveis em você, assomado a uma lista de ingredientes,  inventando, dessa forma uma vida fictícia,  frágil e delicada, porem a que você fez parecer seu lar, e a que você se torna dependente.
            O significado das coisas é um passa-tempo para a transformação orgânica da vida externa de quem "Estamos". Entretenimento, distanciamento da verdade; que não estão nelas, nem mesmo no que elas produzem. - Verdade? Mentira! - Apontamento de ideias, razões, intenções - tão vazias todas elas - algumas vazias. - Algumas? - tão vazias quanto um colchão de ar que caso você tira o pino, e em um átimo, todo seu conteúdo é absorvido pelo mundo de fora; o sistema de significados externo, o que faz de nós Homo Sapiens; o lado oposto da ficção que tanto sonhamos e pensamos construir por muitos e muitos anos de nossas vidas; anos que passam enquanto estamos de olhos atados; presos em seu Casino, onde horas, dias e anos passam sem ao menos você perceber; Aos olhos atentos... aos analistas da própria vida: a triste realidade, o esfacelamento e o azulamento das cores quentes; o mundo óbvio, dos encaixes métrico; do tempo cronometrado; da vida literal, a qual é dispensável, sem virgulas, cíclica, destemida, e somente, orgânica.


"Life's but a walking shadow
a poor player, that struts and frets his hout upon the stage,
and then is heard no more: a tale told by an idiot, full of sound and fury
signifying: nothing"







Shakespeare -Macbeth

quinta-feira, 6 de março de 2014

Nothing interesting though

                                                        
                                                  Inquiry 

If the days pass without a warn
Let me notified
How long it will take

If the winter comes
Let me shiver
How long I will bare this cold

If the pain is all I have
Let me feel it
How painful may it go?

If your presence brings absence
Let me see it
How long will it take?

If my reason decides to move
Let me trust none
In love I doubt nothing



             Making Business

--
There's a building over there.
Some say it's fast
There's a building and a sign.
It says it's cheap
There's a particular ordinary manly voice out from the box in the drive-thru.

---
     The voice: What's your order?
     I answered: a portion of laughing and peace of mind
   -We're out of Happiness, sir  Do you want something similar?
   All orders today offer  Question marks as dressing, sir
   We aint got neither happiness, pleasure nor peace of mind.
   -Nothing close to satisfaction?
   -That would come to a million carvins
   -What's carvins?
   -A non-existing currency, sir.
   -Would you like taking today's specialty for broken-hearted's
   -I wanna stay with nuggets of regret
   -Sir, you can't have the Regrets either, for having a regret, you must have been through this bad experience before
    -What exactly do you work with?
    -We work with our amusement, sir. The most fittable choice for you, as I can see on the menu, wait a minute. You can have a 15-minute tragic and innapropriate sex experience.. for only..
    -Bring me some memories...
    -4 pounds and 30 pences each.
    -Get me a dozen...
    -That's a good order sir, thank you for appreciating your self-disgrace
and have a nice and bitter snack..

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

No alto do bojo

      Éramos dois até então, mas somos um. Olhei o espelho que não estava mais no quarto. Ele parecia cheio de sentimentos, afogado em emoções opacas, as quais nunca acreditei, embora quisesse. Livrei-me dos afagos, abri a gaveta, dobrei-os ao meio, como se faz com camisas importadas. Em seguida, repousei-os com cuidado, para que não os acordassem. Eles haviam dormido por muito tempo. Nem lembro quanto tempo. Espanei o armário da sala para ocupar meus neurônios - não funcionará com as janelas fechadas, pensei, então as abri. Ouvi falar sobre as límpidas margens dos oceanos através de um pássaro que repousara no fio. Ele piava a um braço de distância da janela aberta. Piava alto, no alto do poste. Era o quarto andar onde talvez eu estivesse. Imaginei as crianças e o tempo passar rápido, toda vida que pudera transcorrer e a dor de como se elas um dia tivessem de fato ocorrido. Sem ouvir os sinais, a água batia nos rochedos às margens do oceano. Era calmo demais dentro de mim. Havia resto de pelos pelo sofá. Livrei-me batendo neles com o travesseiro. Os pelos, por consequência, flutuavam através dos primeiros raios de sol. Fazia sol, atrás das nuvens, atrás dos prédios. Sentei-me na sacada e apanhei meu instrumento. Algumas notas disparadas, afugentando o pássaro e suas histórias mal contadas sobre um dia num oceano, que parecia mais um rio, com risos e crianças de um dia que nunca havia acontecido. Pensei sobre o seu rosto. Sobre a vida que nos foi oferecida por nós mesmos. Não disse nada, apenas algumas notas disparadas. Senti-o dentro de mim, no quarto, no vazio do livro, no livreiro empoeirado. Li seu amor de desdenho, e minhas cordas a disparar. Deveria ser difícil, afinal, talvez o amor uma vez que entre - convidado ou não convidado -, seja como uma aresta danificada de um navio de turismo, uma viagem que o destino final é o alcance do fundo do oceano. Se você já foi, deve ter fotos para lembrá-lo(a) da amargura do seu vazio. Deixei-me ir pela correnteza... enquanto deitei-me no azulejo da sala, fitei o abajur. Nada parecia tão convincente quanto a ausência do bojo. Vamos nos torturando, nos machucando, aos poucos, pra quê?



 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

The Last Days on Earth

        Code RED

         I thought I'd see them getting out of that room. They were supposed to be the chosen ones. They were 50 or so. Fifty people who sought to understand why they were put to proof once more. Another exam for testing their skills? They had lost their relatives by choosing to try and they could escape from the "Day of Fire". That's what we've all thought so far. 
      The prince, the right hand of the elected president and ruler of the spaceships, entered in the control room. There was a big glass window separating us from them. I crossed my arms waiting for an answer, wondering there was something wrong, in my deepest and most obscure thoughts. He stared at me.
         -  Why in madness you keep stalking me? - he  asked with what sounded like a threatening voice. 
   And I replied, carefully, wondering If I sounded intrusive to his commands. 
         -  I came, Thesus, in order to understand the procedures: uncles's order.
        He didn't question my answer and probably thought the prince had told me his plans before taking any actions. He turned to the guards and command them to activate Code Red. 
        Code Red took me to a place in my memory. I looked back on when people from my dad's company used to train the Fire Drills. If I were not mistaken, they would burn them. They would burn like their relative burned on Earth. Why was that happening? Was that some kind of joke? Many of them were experts in physics, numbers, computer science, chemistry, biology, linguistics. Why would they throw them away? That wasn't in the protocole. Either he was taking over the situation or that was really my uncle's command... I thought that, at least, he would give them some sort of chance, a trick, a different puzzle to solve, but they he didn't. They were stuck, unaware of what was ahead to come. It was frightening and nightmarish. They were going to be set on fire on that very room. As the fire consumed the room, they frenetically shook their bodies, screamed, dropped, rolled, catching fire as their skin turned to flesh and  their blood melted on the floor. My eyes witnessed the struggle for survival. I couldn't do anything except for letting them burn. Many of them familiar faces. Candidates who showed up on TV. Many of them I rooted for a place there.. and now they were dying as the seconds passed, the fire burned their guts from inside out. 
        I left the control room unseen and moved to the strategy room, where several meetings used to happen. I looked for Leah, my best friend... the only one I could talk to about it. The one that at least I knew it wouldn't be necessary sharing words. Just one glance would be good enough. The door opened and she was by the table holding firmly a cup of coffee. Possibly afflicted by my conspiracy  theories.. She noticed I was there as I got to her side. I nodded and it was done, she believed me. They had killed them and she knew it. They had given them hope and took it away as though they were leftovers. I knew it would end up on something like that. They were unjust on the beginning. Bailing on whom would be useless for them wouldn't  take so much effort. I just didn't expect I would care so much. I hadn't thought about my feelings over the facts. Appearantly, things are not about feelings this time. Things had changed before Earth was gone. People had changed. Humanity has changed.

                                                                                                               The Last Days On Earth