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domingo, 26 de julho de 2015

Saudade, vida e morte

            Não sei se é o seu signo que me deixa assim. Talvez seja a fala mansa e o jeito de colocar as ideias de forma planejada. Ou seria apenas minha completa estranheza em você. Um oceano de diferenças talvez. Mas é sutil e não diz o que não mediu. Com certeza é algo que acontece que esta alem do imediato; do mergulho da emoção e do despertar do aconchego. Há um dia marcado por tudo o que o destina a buscar na calma a infortuna complacência que não habita em mim. No seu novo emprego, na mudança de casa, no casamento ou nas contradições dos desejos que não se convergem. Ou talvez no dia em que fossemos saltar de paraquedas. Algo que você sempre quis e desejou. É lógico... você não pularia de paraquedas sem checar se todos equipamentos funcionam bem. Eu? Eu estou flutuando como pena a 10 segundos do planador. Dividido entre a Queda e a Preocupação de não saber porque ainda não pulou. E você disse que pularia... Mesmo com a corrente de vento cortando meus lábios, meus olhos procurando você em minha esquerda e direita  em tempo real: você ainda não pulou. Ergo minhas sobrancelhas em confusão. Giro meu corpo em direção ao planador que sumia no céu como um ponto preto, você não pulou. Não havia mãos ao meu redor. O vazio. Pensei que houvesse um motivo, mas meu sangue  pulsava eu sabia que você não estava ali quando deveria estar. Assustei-me com sua ausência. Pensei que pudesse preocupar-me com os dois. A Queda e sua Ausência. Mas não aguentei, pois o sangue gritava, sufocante, como se me enforcasse com duas mãos. Momento esse que se eu pudessem libertar-me-ia de suas mãos, voaria para longe, acharia uma escada em um de meus bolsos e começaria a subir em direção ao planador. Não havia escadas. Nem mãos. Chorei frio. O vento assoviando em meus ouvidos ao rebater na roupa de salto como una lona em um dia ventoso, um assobio forte e alto, que me lembrava da Queda. Meu coração acelerou e meu estômago torceu, só que você não veio. Tremi uma das mãos enquanto agarrei uma das alavancas integradas ao paraquedas, e sem querer puxei. Meu corpo caia como pandorga enquanto o sol baixava de trás dos prédios ao oeste de São Paulo, por de trás de alguns concretos ele me abanou, mas não correspondi. Puxei a alavanca com força, pois acreditei. Por cima de meus medos.  Passei por alguns mais horríveis do que outros. Mas por fim, não resisti. Foram primeiro meus pulmões aos poucos desritmados e depois de fechar os olhos... morri alguns segundos depois. Não sei se por causa de seu signo, mas algo me dizia que você não iria descer, o vento, os prédios, o sol... em algum momento. Pela queda não morri, mas por não carecer da verdade das cousas. Do planador que saltou sua ausência foi pois a causa de meu fim. A saudade que mata. A vida passa. A morte nos leva.