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sábado, 24 de dezembro de 2016

3. Reencontro

          Estar contigo era meu sorriso e ser sorridente era poder ser feliz. Não estar não me definia um ser vivo triste ou melancólico. Não estar dizia mais coisas sobre saber quem sou. Decidi retornar a minha essência, viver-me no perdido: o breu do escuro, deitado sobre a cama, imaginando os objetos postos nos respectivos locais, que hoje ja desconheco. São essas as projecoes mentais das quais sao prendidas minhas veias emocionais esticadas ao limite da minha alienação a um universo que já não mais pertenço, tal como as cordas de um violino ou um violao celo, das quais vertem as melodias bucolica e belas. As coordenadas de cada movel como um mapa que transparecem a concretude desse amor. Larguei a chaleira sob o fogão, escravo de quem me tornei, sentei com as pernas cruzadas e acendi um cigarro. Acredito que mais um ciclo de lavagem da maquina de roupas chegava ao fim. Me questionei como a servidão a vida social me libertava do ego, que me engolia junto ao fracasso. Fracasso como modelo e atriz, dizia ao meu espelho o quanto eu era especial mas me via naquele quarto, naquele comodo e a realidade ecoava "Isso é o melhor que já conseguiu?". Empreguei-me no ócio pois não haveria competiçao mas o clamor do espirito do auto-conhecimento. Uma vez uma de minhas amigas da agência de modelo contou que precisavamos dar a impressão de não estarmos competindo, para alcancar a beleza inatingível, que competir era uma perca de tempo para os sonhos mais baixos e rasteiros, esse charme quase cinematografico, formula do sucesso na vida. Porem, hoje, perdida no escuro, o qual amo, pois o escuro que me alimentava, parecia mais um salto de paraquedismo que deu errado no momento proximo a aterrisagem.  Um daqueles sonhos que caimos, mas nao sabendo aonde ou quando vamos parar. Despejei a agua no cafe instantâneo, prendi a caneca em meu indicador e sai da cozinha. Sentei-me no espelho do fracasso e perguntei-me quando seria tirada aquela venda de meus olhos. Quando Os conselhos da minha amiga nao puderam ser seguidos por ela mesma, que comecei a desconfiar da existencia de uma venda. Ela nao faleceu mas vaga por São Paulo hoje, virada em ossos e visões distorcidas da vida. Acabou nao dando muito certo na Agencia e gastou seu ultimo centavo em drogas, confiou nas pessoas erradas, recebeu conselhos errados, de pessoas nao tao iluminadas. A ultima coisa que chegou aos meus ouvidos foi a sua aparicao nas ruas a procura de comida. Enfrentei o espelho e me perguntei se pudedse ter sido o Amor que houvesse a matado de certa forma. De certa forma é por ele que todos nos morremos, todo dia. Quando mesmo depois de nosso esforco, ele nos desaponta, nos deixa sem vestigios, perdemos aos bocados o sorriso e um pouco de tudo que nos somos. Coloquei sua mão que repousava sobre minhas pernas de volta ao volante. Mesmo saberndo da ausencia de seu sorriso, perder-me sempre fez  era partparte de meus reencontros. Adiante eu, sem saber-me de mim mesmo. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

2. Dinheiro, poder e glória

                  Era manhã cedo. Meus olhos esmeralda brilhantes no comeco de uma nova semana. Embora tão cedo fosse, aquela sensação de tão vivida, aquela manhã, já havia sido sentida. Mas o que faria uma mulher de 35 anos na beira do Guaiba pelo amanhecer. Seria uma contradição dizer que a vida de uma artista famosa não é sobre decadência? Aliás, ser adulto não é sobre viver a decadência?  Vai ver por isso os velhos preferem os netos. Crianças tem vida. Mas e o adulto, o que ele tem, senão o oco. Se não houvessem as drogas hoje, não haveria eu. Meu top de flores impecável, azuis da cor da água, - água da viagem a Baixada... praia do mar de Guarujá. - Minhas unhas repousavam sobre as celulites das minha perna, que haviam deixado de serem escondidas já fazia cerca de duas semanas. Só usava shortinhos provocantes para mostra-las nos corredores do meu antigo prédio. Não que auto-estima nunca tivesse sido o motivo de algumas conversas com meu terapeuta. Cristovan sempre é objetivo e crú em suas análises, para não dizer cruel. Me colocava naquele divã maravilhoso dele, que me fazia perder o proposito da consulta, pois eu queria relaxar-me e receber a bela de uma massagem. Cristovan tinha mãos grandes como poderiam ser as de Arnold Schwazneger na vida real. Mãos delineadas, rústicas, unhas cuidadasb porem péssimo hálito. As celulites já haviam me incomodado o suficiente no início do ocaso biológico advindo das três décadas do viver. Minha segurança sempre veio do cabelo e do meu rosto impecável, intocado pelo tempo. Cor do cabelo. Movimento do cabelo. Corte do cabelo. Disposição do cabelo. O poder era o Cabelo. Assim como era o tamanho do pênis pro homem. Tem homem que até compara pra sentir-se orgulhoso. Sei disso porque fui casada com alguns por algum tempo. Já mulher sem o glamour do cuidado com o cabelo era equivalente a um homem de pau pequeno. Comentei nas conversas de camarim o tema: a importância do cabelo. Ao visível, meu cabelo deveria acertar alguns corações pois alguns Serafins perfumavam alguns dos meus fios, e contrabandiavam a um certo Cú-pido que os transformava em flechas para uso pessoal. Me atraía a emocao, dos olhares e da juventude, da ignorância sobre a existência da decadência. Como todo carro, sua gasolina, esse combustivel, que tece com a linha do destino a irônica dualidade adormecida em meu âmago, um dia acaba. Conhecia-me melhor esse ano, pois entendia meus personagens melhor. Ah, meus personagens. Eu vivia muitos. Quase todos iam morrendo e sobrevivendo, digamos que em uma UTI eterna. Abafados pelos pulsos de vida que me restavam. Acreditava que era por causa das odisseias pelas quais atravessavam. Preferia acreditar que meus favoritos vinham a quase falecer em florestas tropicais. Aquelas ribanceiras de rios estapafúrdios e nada especiais; de correntezas violentíssimas; tragicamente esquecidos por quem um dia os amou.  Mesmo quando houvesse alguém a procura, a agua se misturaria com os corpos e nenhum seria encontrado. Nem Estácio, nem Tadeu, ou Camila pois lá habitava minha água doce. Mas a esperança de que os fossem procurar, mesmo que inalcançáveis, servia-me como religião. Essa gasolina, fazia-me viver o constante resistir. Estácio... morto pela indiferença.  Tadeu... traído pela sabedoria.  Camila, deixada pela distância.  No intervalo de criação entre um e outro jaziam o dinheiro, as drogas e o conhecimento. Eu era engolida por esse rio de mistérios, o caminho menos percorrido pela gaivota  bicando a superfície do Guaiba, enquanto os barcos, da outra margem do mesmo rio, flutuavam ancorados na mesma.  Não sei se foi a cocaína ou Estacio... mas algo suspirou-me "És portanto a falta de plenitude, que alimentava meus sonhos e a me dar ânsia de navegar..." a descrever-me incompleta. Sentia as linhas tortas das ondas e a salubridade arder mInhas narinas. Buscava o ânimo. Lógico que eram as drogas o motivo de haver uma mulher maravilhosamente decadente em plena margem do rio de uma capital falida. Algum sexista passando em um dos carros pelo Iberê provavelmente deve acreditar que estou pedindo encarecidamente por um estupro. Eu já fui estuprada algumas vezes e não pedi nenhuma delas. Lembro casualmente mas não falo sobre. Sinto que poderia destruir minha carreira...minha imagem. Não dói lembrar... não dói nada depois de cheira-las. As marolas quebrando, jogando num assopro uma delas contra a outra, em competição de empuxos. Embora não saiba nem o que a Física significa por empuxo, prefiro a Arte. O sol. A água. O sal. Queria cheirar as dunas... a praia.. a maresia da areia... o verão. Eu queria as ondas. Fechei Meus olhos. Precisava delas.

sábado, 15 de outubro de 2016

1. Essência

           Vivia pelo instante. Sonhava grande. Respirava pouco fundo. Assim era o organismo urbano e a vida adulta. Um caminho de colecionares arrependimentos. Do erro entre escolher sendo quem voce é ou escolher sendo quem voce acha que precisa ser. Ali estava eu numa rodovia, recostada no banco,  a exata matéria-prima para tragédia. Meu rosto devia parecer sereno e leve, devotada as aparencias, a estética e a comedia romantica americana. Contudo com a imensa Vontade de estar em um daqueles aviões que a cada dez minutos sobrevoava os predios da Av. Paulista. Mas ninguem perceberia isso. Viam nada alem de meu corpo, meus traços meigos e a pessoa que eu aparentava ser. Nada alem do que os olhos pudessem ver. Seriam as pessoas tão ingenuas a pensar que todos são o que parecem ser? Fosse isso ou não, minha vida nada mais é do que um salto de trampolim na piscina da identidade. O verbo to be nunca deixou de ser materia de capa da revista da minha vida. Existe a cada edição centenas de assuntos, colunas e perspectivas ainda não desvendadas por mim mesma. Que a propaganda é a alma do negócio todos já sabem. Mas propaganda vende uma ideia, lembra? Assim como as modelos do escritório da revista em que trabalhava, majerrimas. Todas lindas. Uma mais linda que a outra. Começavam vendendo o trabalho, terminavam vendendo o corpo. Arduo seria se a sociedade tivesse que escolher vários padrões de beleza. Ficavam um ou dois meses pousando pra revista. E logo em seguida, quando os problemas dessas meninas começavam a serem revelados, iam sendo demitidas. Esse é o grande problema da propaganda, não é mesmo? Propagandas não foram feitas para o ser humano. Ser humano é muito mais do que um periodo simples. Tem virgulas, exclamações, entreaspas e reticências... Eu não queria mergulhar em um mundo de negocios. Negocios dos quais não se tem a escolha de mudar, uma vez que você assina todas suas clausulas. E eu quero mudar a forma, o espirito, a cor do mel de meus lábios... ser santa, ser puta, ser relax, ser intelectual, quero ser o que vier na cabeça. Do que vale uma essência fixa ou a alma vazia e uma vida de regras? Seria o núcleo da terra sua verdadeira alma? Se for, estaria ela condenada por milênios? O ar da rua era pouco úmido. O caminho para casa era sempre repleto de semáfaros. Respirei descansada. Estava segura ali dentro... quente e acariciada. Mas o que isso dizia sobre quem eu era?Enquanto eu alisava o vidro da porta de passageiro, um mendigo dormia de baixo de um alpendre sobre um papelão rasgado. Os mendigos pareciam colagem colocados ali. Não pertenciam aquele mundo. Deveriam ter sido recortados da praça da Sé. Pelo menos eles deveriam saber quem eles são, não? Causava-me angústia tal confusão. Eu não era vista por quem eu era, e quando era descrita como fosse, já não estaria sendo a mesma pessoa. Não que fosse minha maior ambição. Ser desvendada. Talvez embora eu tivesse tudo, queresse apenas um pouco de atenção.


domingo, 26 de junho de 2016

Fio

      Dentro de cada uma de nossas cabecas, embora nao seja visivel, existe um emaranhado de ideias, acervos de historias e despertares de emocoes. Ideias essas que em uma reacao quimica em cadeia reagem sobre nossos sentimentos tornando-os mais ou menos intensos. 
      As ideias mais felizes trazem-nos a mesma sensacao de que o tempo escorrega por nossos dedos, como a areia fina da praia de Sao Vicente, nos lembrando que tudo é passageiro, mesmo que permanecam ate o fim das vidas, sejam elas ideias, sentimentos ou pessoas. Ja as ideias mais tristes, as desimportantes, quando nao sao traumas e nem fraturas irremediaveis em nossos coracoes e corpos, possuem um prazo de validade. Elas se  esmaecem como as cores de uma roupa que se desbota em um ano de uso ou dois. 
     Dentro de nossas cabecas, estao dois fios condutores invisiveis que nos levam de encontro ao outro - inevitavelmente como o ima magnetico e seu painel de fotografias quando estao proximos, juntam-se em um abraco apertado, uma atracao intrinseca da natureza de ambos - como se ja tivessemos nascidos ligados por esse fio, e ele nos levasse ao ponto em que tivesse havido nosso encontro. 
     Naquela noite, naquele ceu, ao redor daqueles predios, sentavamos, eu: imã, e voce: painel de fotografia. Te pendurava frases, te comentava em notas de papel os meus sentimentos, e te fiz sorrir, te enchi de fotos, te misturei aos meus amores, meus amigos e minha familia. Estava gelado aquele fim de tarde mas era o terraco e comiamos  um picole de chocolate. Era domingo e eu ja te amava. Nao havia mais outdoors pela cidade que nao houvesse imaginado seu apelido escrito no lugar das marcas de roupa. E veio a rotina, o riso e a descoberta de uma outra forma de viver, mais limpa e aberta. Ate o dia em que percorri a rua  em que andavamos subindo o morro, a mochila pesada e voce me empurrando porque tinha dores nas costas. Mas nao a vi escurecer... Te contei meus anseios e voce como em um sopro deixou-se ser soprado, a cada poste que era soprado para longe, mais escura a rua ingrime ficava... distante... Eventualmente todos eles, sem excessao, apagaram-se,  e ja nao era mais dia, e nem dia era mais dia sem voce.
      Meus olhos marejaram, mas nao voltou. O fio sobre nossas cabecss ja nao estava la tambem. Ainda que eu escutasse a colher de metal e o cheiro do seu cafe, voce nao voltou. Nao era sua sala, nem cozinha, nao era o jogo de cama,  e voce nao voltou.  Nao era mais a rua, nem era mais o cheiro dos paes de queijo e nem seu abraço, nao voltou.
       Quando a noite do parque caiu sobre mim eu entendi que havia me Perdido. Talvez o sopro fosse apenas uma invencao de justificativas para registrar o seu desaparecimento.  Era fria e verde escura.. Algumas estradas, arvores e um lago de aguas dancantes que ja nao dancavam mais. No parque sem placas, sem o fio, eu me perdi. Nao havia a espera, nem a conversa, as bicicletas ou os triciclos, talvez rostos borrados, assim que ficam as pessoas desimportante depois de terem suas fotos editadas - talvez rostos tenham sempre sido borrões.
    Apenas esse medo do Escorpiao que eu tanto temia reencontrar pelo caminho. Racional, pragmatico, estavel, atemperado e imprevisivel. Que se a vida Apertar-lhe os nos do sapato, seu ferrao inevitavelmente lhe ocorrera, e afogarao-se os dois num rio de uma margem que nunca sera alcancada.  A vida é... Mas lembrei de sua fala, da promessa e do carinho, e continuei a caminhar. Foi quando inesperadamente a estatua do menino e o porco  encontrei, aquela que voce tanto falava sobre, e eu nunca havia percebido.  A afaguei como quem acaricia seu animal de estimacao. Sentei na frente da estatua e a admirei - pois me trouxe voce em um feixe de lembranca. 
      Das ideias surgiriam emocoes e das emocoes  ressurgiria o fio que acendeu-se novamente, com muitas falhas e pouca luz. Mas ele surgiu... E isso bastava. Estava no ponto de me levantar e sorrir. E eu sabia que na outra extremidade  do fio estaria voce... E apenas  isso me fez sentir melhor. O fio... (E o reencontro.)

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Meu Diário de Bordo


          Me sinto navegando em águas sombrias. No alto mar, profundo e horizontal, onde a única claridade é a luz densa da Lua sobre as linhas que desenham as ondas.  As ondas são o som e o tom da noite por aqui jogadas ao meio de três continentes, preenchendo o vazio que é o espaço, o espaço que ocupa a vida. Portanto é esse meu diário de bordo.
         As ondas variam em sua intensidade. Despercebidas, por vezes, imprecisas e displicentes. Quando raro, porém, se ponha ao cálculo de um míssil submarino. O oceano, na contradição de sua aparente infinitude, me encontro criança no reflexo dessas águas, criança com os olhos de um velho tripulante. Me carregaste no colo para longe do silencio pois sabias que o barulho me acalmava, então assoviaste até meu sono chegar. Minhas mãos a procura da segurança  não-merecida de um marujo experiente que talvez já havia sido um dia, em outras águas, em outras docas. Seriam tantas as dúvidas e faltas, que não havia certeza caso alguma coisa eu ja houvesse aprendido.
            Segurei firme minhas mãos na haste enquanto vi seu rosto naquela última rebentação. Me levaste correndo em teus braços quando pensaste que eu tinha partido. Senti suas lágrimas correrem por meu rosto. Inspirei com bravura como alguém que fosse pular em queda-livre dos céus e expirei a tensão... Uma coisa eu poderia dizer sobre minha embarcação. Ela era repleta de bons estivadores. Não importando a intensidade do balanço que houvesse em minha nau, meu barco mantinha-se equilibrado, embora com alguns rancores e ressentimentos que viessem a lacrimejar os olhos.
          Lia meu rosto, como as ciganas leem as palmas das mãos. Quem sabe eu pudesse dormir abraçado contigo sem regras ou razão, assim como a gravidade ou o movimento das ondas. Sempre continuei mastigando a mesma pastilha que trazia o amargo em mim, afinal resumia o que melhor poderia me definir. A inquietação da dúvida. A cólera da dúvida entre o mais desgostoso de mim e a honestidade desfibrilada daqueles movimentos enjoativos. A culpa por ter sido eu mesmo e o orgulho de nunca ter me tornado o outro. Como o dilema que me persegue como sombra de uma vida que nunca cessa de marejar. Nunca disse uma palavra ao vento naquela viagem. Talvez fosse a hora. A água já estava turva. Meus pés estavam frios, assim como a extremidade do nariz e dos dedos das mãos.
          Alguns rostos surgiram como reflexo enquanto eu mentalmente me despedia, percebia o féu como um manto coberto de estrelas cair sobre a água viva. E os céus começavam a garoar e as gotas escorregavam sobre meu pescoço. Talvez a corrente marítima ja houvesse desviado minha embarcação sentimental da rota predestinada; e já não houvesse motivo para procurar mais nada no breu da vida. Minha toalha de banho ainda tinha o cheiro de minha antiga casa. Via meus amores passados e meus arrependimentos brotavam conjuntamente. Um pessimista contemplava seu envelhecimento à deriva, pensei sobre mim mesmo.
            Percebi que movia-me na altitude da maré. Não havia cais nem outro navio. Portanto, haveria tempo livre sem qualquer desatraque. A hora aproximava-se. Subi em um dos mastros e amarrei uma parte da toalha. Ainda sim, eu tinha esperanças.  Coloquei um pedaço da toalha envolvido em meu pescoço e fechei meus olhos para meu peito enquanto meu coração batia como um relógio de parede no silêncio extremo. Tinha esperanças de avistar um estaleiro, quem sabe um Estaleiro ao por-do-sol, e consertar,  desintoxicar,  reformar, todo e qualquer estrago que fiz ao meu coração.  Talvez seja apenas um Diário de Bordo qualquer.




segunda-feira, 28 de março de 2016

Hora do conto

        Estava num quarto que era o sótão da casa delas. Coisa que eu vivia querendo esquecer. Ajudava a me acalmar, principalmente nas noites de calor. As de frio eram melhores. Pelo menos eu me encolhia envolvido no cobertor e não saia daquele universo em que eu sentia proteção. Mas era calor e eu esticado na cama, pouco mais de 1'30". O resto da cama era tão grande que parecia desnecessária. Uma cama bem antiga restaurada. Feita de madeira maciça com detalhes arqueados nas laterais. No quarto, alem das duas comodas ao lado da cama, havia uma mesa com espelho. Um quarto amadeirado e no estilo vintage. Havia um baú em um dos cantos do quarto e uma janela bem grande logo em frente a cama com uma cortina sobreposta. Uma rajada de vento soprou as cortinas que flutuaram criando uma sombra enorme e horrenda no chão. Tudo parece grande quando se é pequeno e não se reconhece o mundo em que se vive. Então o clarão não era somente uma visão do momento em que a cortina falhou cobrir o quarto de escuro. Nem a sombra era apenas uma sombra agora.
           Minha mãe costumava a contar algumas historias para que eu dormisse sem pesadelos. De reis, de vampiros, de sapos, de bruxa e de fadas. Ela não os ignoravam, todos eles existiam e eram seres extraordinários e desentendidos. Em meus sonhos eu os via as vezes. Muitas noites da minha infância foram estreladas por eles. Zezinho, andava no sol e dizia que sentia-se irritado pois era alérgico a ele, por isso evitava-o. Sem muitos amigos e por falta de socializar com seus amiguinhos, as outras crianças do bairro zombavam dele. Naninha  trazia os melhores aromas, ela era um feixe de luz que voava sem mãe; o que dava muita forca para ela; pois ela não queria ver outras crianças tristes; e então enchia-se de forca e otimismo, transformava todas as coisas tristes em cores lindas, flores perfumadas, e paisagens ensolaradas eras os sonhos mais visuais que eu tinha. Tinha o Outro Rei, Pablo Rei e o Ricardo Rei sempre investindo na segurança dos sonhos, na riqueza dos sonhos e na felicidade dos sonhos, eles enchiam os sonhos de piadas, ironias e utopias; porem não era muita gente que os acreditava, alguns condenavam-os como loucos e eles sempre sofriam com isso mas nunca se abalavam com a oposição. Néscio era um homem pobre, feio e burro! Coitado...as meninas o desprezavam; os meninos o zombavam, e as mães não achavam que ele era boa companhia pros filhos! E ele sofria.. mas Nescio nunca replicava ofensas, pois ele era sábio! Ele usava algumas frase engraçadas às vezes. Trocava o lugar das palavras com um sorriso confiante. E não menos importante, sempre esquecia os rancores rápido demais! Era um ser BEM humano! E tinha a Valusca, a menina adotiva que vivia arrumando a casa de suas patroas, limpava e criava rimas, cantava e criava encanto em quem sua musica chegasse, quando não estava cuidando da casa cuidava dos jardins e das frutas; explorando receitas para chás maravilhosos que suas patroas nunca elogiavam mesmo que sempre amassem.
       Minha mãe toda noite aumentava minha rede de amigos. Ao contrario das outras crianças eu vivia para dormir! O jantar estava terminado mesmo que logo posto na mesa. Enquanto minha mãe lavaria as louças, eu escovaria os dentes. E ai veio a mudança. Eu e mamãe mudamos pro campo que na verdade é mais uma cidadela de casas simples e "tudo está pertinho uma coisa da outra". Um pequeno condado com tudo do básico que se precisa pra viver bem e os maiores argumentos de mamãe vinham logo após: um lugar que haveria segurança e bons amigos! E ai mamãe me disse que algumas mocas que moravam ao lado me cuidariam quando necessário. E ai vieram as Franzelas. Três eram elas. Meninas gêmeas perfeitas e a moça mais velha de dentes pequenos magrela. Um avental de dona de casa bordado com estampas de girassóis. Foi ai que minha vontade de deitar, como um gato preto do azar, saltou pra fora da janela...