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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Cassino

    No céu de São Bernardo do Campo o dia era ensolarado e com algumas nuvens. Um sol batia nas lonas das tendas dos ambulantes. Entre um vendedor de milho em prato descartável e outro, atravessei as lojas da Marechal. Tentei desviar com meus pés dos filmes espalhados por cima de cangas de praia ou tecidos de rendas surrados do uso diário. Precisaria apenas de um brinco. Uma argola em formato de anel. Percorri o lobo de minha orelha esquerda com a ponta de meus dedos. Não seria necessário pedir ou exigir permissão a ninguém. Apenas caminharia ao estúdio naquele meio da tarde de Agosto para a transferência de espírito. Era limpo e com um grande número de adereços e procedimentos profiláticos. Naquele lugar não havia qualquer índice de descuido. A organização do estúdio era impecável. Se eu tivesse qualquer intenção de abandonar a causa, não a teria feito. Fui recomendada que sentasse assim que tentei agrupar justificativas para não tomar a cabo a perfuração da minha orelha. Outra época eu teria me sentido culpada pela iniciativa de ter insurgido contra as ideias da mãe. Não sentia-me assim e isso devia a mudança tanto geográfica quanto íntima que eu teria me predisposto na transição do inverno para primavera que me precedia. Os tempos eram outros e a vida apontava para um paraíso: o roseiral descoberto em um espelho de elevador que ascendia até meu novo apartamento. Não era um par de brincos, era apenas um brinco novo e nada decorativo. O brinco era simples mas era tudo o que se propôs ao sair de um dos lados de sua circunferência até afivelar-se a sua outra extremidade. Assim a vida relava-se nesta nova cidade dentro de uma proposta mais sincera e estruturada. Sem a guerra dos desejos de sua mãe ou as imposições da revista que servia como modelo. Os frutos de sua estrada aos poucos pareciam mostrar suas cores, assim como as flores desabrochavam nos vasos dos canteiros de seu condomínio. Pensei no que a arte poderia me trazer no tempo que agora julgava ao meu favor. Um novo dia se desdobrava sob a grama cheirosa das várias pracinhas espalhadas por Jordanópolis onde destinos eram assobiados no canto dos sons da natureza. Iam se sobrepondo as casas que lembravam para ela a água, o equilibrio e talvez alguma parte do interior do Cassino.

Retratos




Meus cabelos dançavam ao som da velocidade e o ronco do motor. Nada mais leve que a estrada e o amanhecer nelas. O sol irradiante atravessando como flechas por entre as construções e ele me tirava daquele convívio desarmônico. Pela primeira vez em muito tempo sentia-me livre e onde eu realmente pertencia. Fundíamos a existência em um ato de independência. Dominávamos a cidade ou assim era o que meus sentidos comunicavam meu corpo. Pulsões elétricas navegando pelo meu corpo como uma onda de calor que começava  em minha nuca e deslizava pelo meu antebraço que descansava na porta do carro. Isto era o gozo que me habitava, como uma criança que nunca o teve desvinculado de qualquer violência. E isto era o que causava nele: tremores de adrenalina. Era como se os olhos dele esperassem isso de mim repetidamente. Vibrassem como se minha sensação de liberdade alimentasse a própria esperança de seus desencontros na metrópole. Aquilo era uma evidencia pra ele, ou talvez uma grande expectativa: dias efusivos marcavam o horizonte daquelas vistas que tiravam nosso ar enquanto descíamos para praia. E da apreciação lúdica daquela troca de energias, eu enchia-me de esperanças novas. Eu tinha o desejo e a esperança de um antecipado e praticável futuro em que o presente fosse habitável e pleno de ser.

Minha mãe dizia que quando eu nasci  minha primeira expressão não havia sido o choro. Ela dizia porem que de alguma forma meus olhos eram tristes. As semanas passavam e meus olhos permaneciam assim, divididos entre pena e dor. O efeito do meu espirito a preocupou por um tempo pois minha alma não parecia estar  em meu interior mas mergulhando em meu sangue, brotando em minha respiração; uma alma de dar medo, pois essa conhecia as dores do mundo, de suas incapacidades e portanto das correntes que o prendiam, teias de algo que ainda nao entendiamos. Eu mamava e meus olhos continuavam tristes. Mesmo apos as urgências fisiologicas  meu rosto dedicava-se a tristeza. Todos os exames ja haviam sido feitos. Mesmo assim os pediatras não puderam dizer o que era mesmo depois de três diagnosticos sem identificar atraves dos sintomas uma resposta para o que eu sofria. A conclusão de minha condição foi: a menina é triste. Anos mais tarde, era natal, na tentativa de salvar seu relacionamento com minha mãe, meu pai trouxe uma TV a cores pra casa, porem o presente não teve o efeito de duração que ele esperava -  o relacionamento dos dois não se arrastaria por mais um ano. Minha mãe percebeu, contudo, que no ano que sucedeu a saída de papai de casa, aos poucos meu rosto foi ganhando alguma expressão diferente. Os lábios de minha boca se estendiam para as laterais quando coiote caía em suas próprias armadilhas... lembro como se fosse ontem. Nunca houvera meus lábios repousado, pois minha mãe pela primeira vez recuperava as forças da ida de papai. E eu me sentia responsável e decida de manter-me aparentemente feliz, pois entendia que minha mãe andara desnutrida da felicidade. Algo que só eu poderia então lhe entregar.  


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

4. Nomes

      Eu era mais temperamental. Menos sabida. E os metrôs eram longos. Mas chegavam em casa. Na época, eu era Camila. Fui ser modelo em uma agência em Paris, morei seis meses na cidade da luz, pouco tempo para perceber minha alma solitaria no reflexo de uma escultura grega no Louvre e querer voltar. Mas isso foi antes de São Paulo, antes de conhecer Nair, a menina do Acre- que havia acabado nas ruas pedindo esmola- ser traída pelo conhecimento e... deixada pela distância. Quando voltei de Paris já tinha um portfolio e tanto. Tentava achar minhas chaves enquanto Elias, meu bulldog francês e a paixão de minha vida, mordia minha sapatilha contestando sobre minha saída. Elias tinha 3 meses já.. dormia com seu rosto apoiado no meu pescoço e roncava até receber caricia na sua testa marrom. O nome veio de um moço bondoso de rua em São Paulo que divide o papelão-cama com a Nair e faz ela se sentir um pouquinho mais humana e menos sozinha: mesmo depois de tudo. Ele ajudou ela a sobreviver morando na rua. Foi amigo, irmão e dividiu o pão ate onde eu sei. As vezes tinha uma recaida no crack m, mas a maior parte do tempo esta sobrio, enfrentando a homofobia e o medo que rico tem de moradores de rua.  Gosto de brincar com nomes, entao decidi usar o começo do seu nome Enzo e o sobrenome de Nair, Lias. E foi assim que Elias nasceu. Dividido entre sua raça classuda e seus movimentos  selvagens. Tinha atitudes de macho alfa: mijava nas laterais de sofa, rosnava para estranhos e depois vinha dar carinho quando bem quisesse, cheirava minhas sapatilhas recem usadas para me cerificar de que outros fucinhos nao andavam arfando la. Porem tudo mudou quando Nida apareceu na minha vida. O amável Elias ainda mordia minha sapatilha quando a campainha tocou. Um homem elegante havia me encontrado, - Elias rusnou para ele como quem diz " vai cagar fora da minha casa". -dizia ter uma proposta para o teatro. O teatro e o Elias foram a minha valvula de escape, meus amores eternos. Andava com essas crises no trabalho. Achava tudo tão raso e vão. Modelar para revistas, exposicao de grifes. Cansei-me, dei um tempo a minha beleza externa e resolvi embelezar minha alma com Arte. Trabalhei com o diretor de teatro Umberto Fraga - o mesmo homem o qual fui reconhecida em um revista, que costumava chama-lo de Fraguinha., queridinho dos gays locais, das pessoas mais zens e de gente dos cursos de humanas da USP. Trabalhei em oficinas de teatro e logo em seguida fui chamada para um filme independente. L'amour du Bouche fez sucesso no Cinema Itau independente. Passou em muitas sessoes do verão daquele ano ainda fatidico. O mesmo cinema que conheci Lugo. Fatidico foi o desejar proibido, em um ano em que o amor estava morto. Despertou-me de um coma como o beijo do principe da Branca de Neve e nunca mais senti força tão ameacadora sob mim mesma quanto o sentimento inabalavel do seu olhar e ouvidos preciosos. Ah, Lugo, se eu soubesse que te tornarias a safira a qual o destino abruptamente apanharia de mim, como o roubo de um suspiro no declive ingrime da rua Augusta... Rapido e imperceptivel como mágica. Mágica que expirou da validade. E por este ano revivi sob holofotes, sentia-me uma das estrelas de Cabaret, desejadas por gangs rivais e pelas naçoes. Renascida de cinzas como a Fênix. Motivo de chacinas, intrigas e trafico de drogas. Romeu e Julieta pós-moderno, onde nao ha necessidade para um Romeo em cena. Prometi a mim mesma que me tornaria uma das atrizes dos filmes em cartaz. Minha primeira sessao de cinema em Sao Paulo. Queria parecer um pouco só quem sabe com a Renata Sorrah ou a Gloria Pires... pensei que elas nao me ouviriam enquanto pensava alto nas ultimas corredor de assentos do cinema.. mas ouviram... assim como meu querido e sempre amado Lugo, que não ouviria hoje meu lamento nas margens do Guaiba. Tão longe de mim mesma eu vivia. Ou longe, apenas, de uma parte de mim, que fui obrigada a arrancar em uma cirurgia sentimental. Pouco a pouco me importo menos com o que penso, pois ja nao vale a pena ter-me sem parte de mim. Vaga alma flutuante e apaixonada. Cada vez mais desimportando-se mais com o mundo. Num trajeto irrevogavelmente incurável. Doente do ego, da fuga do ego, da fuga do ' eu' sem encontros com um abrigo a que eu pertença de alma. Não ha lar enquanto o coração não está, há? Choro. Continuo temperamental, conscientemente pouco sabida, e sem metrôs em minha rotina de ser. Já é escuro em mim desde que eu vim, contudo já não sou aquela Camila, e  onda dos meus pés não sao as mesmas da praia de São Vicente.