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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Direção

         Começaria uma viagem ao desconhecido, ou não.
         Senti o vazio tocá-lo com meus olhos, pois deixaria algo, mesmo que não mais o quisesse. Sabia que poderia ser doloroso, torturante ou até mesmo feliz. Minhas mãos tremulas e o pensamento falhando enunciavam talvez que não fosse haver solo sobre meus pés nesse trajeto. Não até que eu me adaptasse as tormentas constantes. Portanto, te adentrei sem hesitar. Não precisei de uma explicação ou desculpa qualquer. Apenas entrei levado pela curiosidade sobre a dor e felicidade, que outrora havia desaprendido. E só de olhar para o relógio pude perceber que meu tempo também já não era o mesmo tempo que vivi numa outra realidade qualquer. Meu pensamento ia se perdendo.. E foi-se por completo quando atingi a água. As coisas balançavam e tu assoviavas. Meu corpo percorria as sensações mais diversas, contidos e conservados, embora não conseguisse esconder minha euforia e entusiasmo. Nem mesmo sentia como costumava sentir, o vazio aos poucos transformando-se em uma estranha tranquilidade. Caminhei até a proa a fim de olhar pela ultima vez  o que havia passado por mim nos últimos momentos, captar o que havia sentido, pois o que foi também são fatores que define quem eu era agora, do teu lado. Embora meu corpo estivesse dentro do navio, vi outros Eus abanando suas mão, cumprimentando um adeus, para sua estrutura material, seu D/RNA ambulante. Vi os fatos desaparecendo na beira da costa, pensei sobre suas ausências e seus inevitáveis efeitos sobre mim.
        Ao me virar, não havia expectativa, nem pudor e muito menos hesitações -mentiras. Afundei como uma ancora em um profundo futuro desconhecido - verdade. Aliás, não definiria isso como um novo começo, pelo fato das coisas terem um  único fim e essa ser minha opinião final. Eu não carregava o conceito humano de curta datas, como se fosse um mecanismo para ocultar as coisas insanas, que muitas vezes fazemos. Na história do homem, os erros são desculpas para o surgimento desse "novo começo". "Uma nova mentira", soasse mais sincero. A vida não era e nunca havia sido uma peça tragicômica. Isso era apenas uma maneira um tanto limitada de percebê-la. As coisas seriam mais especificas. Por exemplo, na vida de qualquer ser humano, o começo, dá-se quando ele ou ela nasce, e o fim, dá-se quando a morte tocar a campainha desse sujeito. Eu pensei em você, e pensei que você também poderia isso ver. Não tentei expressar justificativas, desculpas, limitar e mentir, dizendo  que nada aconteceria. Nada disso aconteceu, pois naquele horizonte, permanecia clara uma linha continua, a mais pura verdade: a continuidade e o sentido amplo das coisas. E ela  e só ela que nos importava. Olhei por traz, em um ato de insegurança, e a vista da costa desaparecera por completo. Ouvi sua voz vinda de todos lugares, e eu ri, rumo a tua direção...