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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nada acontecia (dentro, fora)

      Um dia o sol amanheceu frio, meus pés congelados e o edredom pela cabeça . Destapei-a, mas não movi um dedo da cama. Havia passado pássaros cantando e eles todos caíram gelados assim que se aproximaram da janela. Talvez fosse tudo verde em outro lugar. E só imaginar isso era vive-lo, senti-lo, presencia-lo. Vertendo pelo seu sangue; vivo. Entretanto, só conhecia o cinza e o negro; morto. 
    O quarto era sombrio e irremediavelmente desorganizado. Sua órbita absorvia, por isso, toda vida, transformando-a em pedra e cinzas, que nunca queimaram vermelho. Não tinha sentidos para sentir, pois não usava-os. Conhecia, por um dia ter ouvido um pássaro assoviar algo parecido.
     Um tom melancólico abateu seu futuro encarcerado. Era triste não estar triste nem contente. Mas  isso nada sentia, de fato, não sentia nem a melancolia. E num átimo, a esperança não estava próxima. Nada havia acontecido. E o mundo era grande demais para ser abraçado, então não moveu um dedo. - ele pensou sobre tudo que residia lá fora. Estava imóvel, sem saber que o que sentia era falta de esperança, a qual traduzia o desespero de um dia que havia pouco começado lá fora. Preso como uma tábua oca no tanque de lavar roupa, na masmorra de um ogro. A solidez de um sistema sem luz e estático. Era muito frio, ácido e esquecido, como um poço sem fundo. O relógio quebrado na parede era uma perda de tempo. A luta inevitável contra o dia estava perdida. Já era noite e nem piscara. Desde sempre fora assim, pois nada acontecia.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Relâmpagos e epifania

      A ansiedade cruzou a porta dos teus olhos, que, vivos, exalaram os pilares mal postos de uma casa sem teto. Momentos antes, quando percebi sua descobertura, através de um relâmpago que iluminou todos os móveis da casa, - embevecidos de dúvida e sombras - jazeu de minha mente uma fogueira e a imagem de um metal precioso derretendo-se. Girei dentro de mim até a náusea subir pelo estômago; senti pena e senti um leve calafrio;  já sentia a bile no fim da garganta e decifrei-a. Era outra pessoa em mim, uma outra senão eu. Uma simples epifania havia mudado todo meu cosmos. Senti teu medo em cada suspiro, expresso entre os intervalos dos teus beijos inúteis. A lanterna da curiosidade projeta o tremulo observar e a sombra das dúvidas. Tua boca não cessava com palavras repetidas, mutilando minha vontade, meu desejo por seu amor. Meu tempoque era meu transformou-se em meu novo e maior objetivo de conquista. Não havia mais o combustivel para nossos automoveis, nossa química estava acabada. Não ouvia sinos, não via anjos. Acabara o conto de fadas, o chão estava amargo e rígido. Haviam coisas mais importantes pendentes. As coisas mudam num piscar de olhos, só precisamos de relâmpagos.