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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

4. Nomes

      Eu era mais temperamental. Menos sabida. E os metrôs eram longos. Mas chegavam em casa. Na época, eu era Camila. Fui ser modelo em uma agência em Paris, morei seis meses na cidade da luz, pouco tempo para perceber minha alma solitaria no reflexo de uma escultura grega no Louvre e querer voltar. Mas isso foi antes de São Paulo, antes de conhecer Nair, a menina do Acre- que havia acabado nas ruas pedindo esmola- ser traída pelo conhecimento e... deixada pela distância. Quando voltei de Paris já tinha um portfolio e tanto. Tentava achar minhas chaves enquanto Elias, meu bulldog francês e a paixão de minha vida, mordia minha sapatilha contestando sobre minha saída. Elias tinha 3 meses já.. dormia com seu rosto apoiado no meu pescoço e roncava até receber caricia na sua testa marrom. O nome veio de um moço bondoso de rua em São Paulo que divide o papelão-cama com a Nair e faz ela se sentir um pouquinho mais humana e menos sozinha: mesmo depois de tudo. Ele ajudou ela a sobreviver morando na rua. Foi amigo, irmão e dividiu o pão ate onde eu sei. As vezes tinha uma recaida no crack m, mas a maior parte do tempo esta sobrio, enfrentando a homofobia e o medo que rico tem de moradores de rua.  Gosto de brincar com nomes, entao decidi usar o começo do seu nome Enzo e o sobrenome de Nair, Lias. E foi assim que Elias nasceu. Dividido entre sua raça classuda e seus movimentos  selvagens. Tinha atitudes de macho alfa: mijava nas laterais de sofa, rosnava para estranhos e depois vinha dar carinho quando bem quisesse, cheirava minhas sapatilhas recem usadas para me cerificar de que outros fucinhos nao andavam arfando la. Porem tudo mudou quando Nida apareceu na minha vida. O amável Elias ainda mordia minha sapatilha quando a campainha tocou. Um homem elegante havia me encontrado, - Elias rusnou para ele como quem diz " vai cagar fora da minha casa". -dizia ter uma proposta para o teatro. O teatro e o Elias foram a minha valvula de escape, meus amores eternos. Andava com essas crises no trabalho. Achava tudo tão raso e vão. Modelar para revistas, exposicao de grifes. Cansei-me, dei um tempo a minha beleza externa e resolvi embelezar minha alma com Arte. Trabalhei com o diretor de teatro Umberto Fraga - o mesmo homem o qual fui reconhecida em um revista, que costumava chama-lo de Fraguinha., queridinho dos gays locais, das pessoas mais zens e de gente dos cursos de humanas da USP. Trabalhei em oficinas de teatro e logo em seguida fui chamada para um filme independente. L'amour du Bouche fez sucesso no Cinema Itau independente. Passou em muitas sessoes do verão daquele ano ainda fatidico. O mesmo cinema que conheci Lugo. Fatidico foi o desejar proibido, em um ano em que o amor estava morto. Despertou-me de um coma como o beijo do principe da Branca de Neve e nunca mais senti força tão ameacadora sob mim mesma quanto o sentimento inabalavel do seu olhar e ouvidos preciosos. Ah, Lugo, se eu soubesse que te tornarias a safira a qual o destino abruptamente apanharia de mim, como o roubo de um suspiro no declive ingrime da rua Augusta... Rapido e imperceptivel como mágica. Mágica que expirou da validade. E por este ano revivi sob holofotes, sentia-me uma das estrelas de Cabaret, desejadas por gangs rivais e pelas naçoes. Renascida de cinzas como a Fênix. Motivo de chacinas, intrigas e trafico de drogas. Romeu e Julieta pós-moderno, onde nao ha necessidade para um Romeo em cena. Prometi a mim mesma que me tornaria uma das atrizes dos filmes em cartaz. Minha primeira sessao de cinema em Sao Paulo. Queria parecer um pouco só quem sabe com a Renata Sorrah ou a Gloria Pires... pensei que elas nao me ouviriam enquanto pensava alto nas ultimas corredor de assentos do cinema.. mas ouviram... assim como meu querido e sempre amado Lugo, que não ouviria hoje meu lamento nas margens do Guaiba. Tão longe de mim mesma eu vivia. Ou longe, apenas, de uma parte de mim, que fui obrigada a arrancar em uma cirurgia sentimental. Pouco a pouco me importo menos com o que penso, pois ja nao vale a pena ter-me sem parte de mim. Vaga alma flutuante e apaixonada. Cada vez mais desimportando-se mais com o mundo. Num trajeto irrevogavelmente incurável. Doente do ego, da fuga do ego, da fuga do ' eu' sem encontros com um abrigo a que eu pertença de alma. Não ha lar enquanto o coração não está, há? Choro. Continuo temperamental, conscientemente pouco sabida, e sem metrôs em minha rotina de ser. Já é escuro em mim desde que eu vim, contudo já não sou aquela Camila, e  onda dos meus pés não sao as mesmas da praia de São Vicente.


sábado, 24 de dezembro de 2016

3. Reencontro

          Estar contigo era meu sorriso e ser sorridente era poder ser feliz. Não estar não me definia um ser vivo triste ou melancólico. Não estar dizia mais coisas sobre saber quem sou. Decidi retornar a minha essência, viver-me no perdido: o breu do escuro, deitado sobre a cama, imaginando os objetos postos nos respectivos locais, que hoje ja desconheco. São essas as projecoes mentais das quais sao prendidas minhas veias emocionais esticadas ao limite da minha alienação a um universo que já não mais pertenço, tal como as cordas de um violino ou um violao celo, das quais vertem as melodias bucolica e belas. As coordenadas de cada movel como um mapa que transparecem a concretude desse amor. Larguei a chaleira sob o fogão, escravo de quem me tornei, sentei com as pernas cruzadas e acendi um cigarro. Acredito que mais um ciclo de lavagem da maquina de roupas chegava ao fim. Me questionei como a servidão a vida social me libertava do ego, que me engolia junto ao fracasso. Fracasso como modelo e atriz, dizia ao meu espelho o quanto eu era especial mas me via naquele quarto, naquele comodo e a realidade ecoava "Isso é o melhor que já conseguiu?". Empreguei-me no ócio pois não haveria competiçao mas o clamor do espirito do auto-conhecimento. Uma vez uma de minhas amigas da agência de modelo contou que precisavamos dar a impressão de não estarmos competindo, para alcancar a beleza inatingível, que competir era uma perca de tempo para os sonhos mais baixos e rasteiros, esse charme quase cinematografico, formula do sucesso na vida. Porem, hoje, perdida no escuro, o qual amo, pois o escuro que me alimentava, parecia mais um salto de paraquedismo que deu errado no momento proximo a aterrisagem.  Um daqueles sonhos que caimos, mas nao sabendo aonde ou quando vamos parar. Despejei a agua no cafe instantâneo, prendi a caneca em meu indicador e sai da cozinha. Sentei-me no espelho do fracasso e perguntei-me quando seria tirada aquela venda de meus olhos. Quando Os conselhos da minha amiga nao puderam ser seguidos por ela mesma, que comecei a desconfiar da existencia de uma venda. Ela nao faleceu mas vaga por São Paulo hoje, virada em ossos e visões distorcidas da vida. Acabou nao dando muito certo na Agencia e gastou seu ultimo centavo em drogas, confiou nas pessoas erradas, recebeu conselhos errados, de pessoas nao tao iluminadas. A ultima coisa que chegou aos meus ouvidos foi a sua aparicao nas ruas a procura de comida. Enfrentei o espelho e me perguntei se pudedse ter sido o Amor que houvesse a matado de certa forma. De certa forma é por ele que todos nos morremos, todo dia. Quando mesmo depois de nosso esforco, ele nos desaponta, nos deixa sem vestigios, perdemos aos bocados o sorriso e um pouco de tudo que nos somos. Coloquei sua mão que repousava sobre minhas pernas de volta ao volante. Mesmo saberndo da ausencia de seu sorriso, perder-me sempre fez  era partparte de meus reencontros. Adiante eu, sem saber-me de mim mesmo. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

2. Dinheiro, poder e glória

                  Era manhã cedo. Meus olhos esmeralda brilhantes no comeco de uma nova semana. Embora tão cedo fosse, aquela sensação de tão vivida, aquela manhã, já havia sido sentida. Mas o que faria uma mulher de 35 anos na beira do Guaiba pelo amanhecer. Seria uma contradição dizer que a vida de uma artista famosa não é sobre decadência? Aliás, ser adulto não é sobre viver a decadência?  Vai ver por isso os velhos preferem os netos. Crianças tem vida. Mas e o adulto, o que ele tem, senão o oco. Se não houvessem as drogas hoje, não haveria eu. Meu top de flores impecável, azuis da cor da água, - água da viagem a Baixada... praia do mar de Guarujá. - Minhas unhas repousavam sobre as celulites das minha perna, que haviam deixado de serem escondidas já fazia cerca de duas semanas. Só usava shortinhos provocantes para mostra-las nos corredores do meu antigo prédio. Não que auto-estima nunca tivesse sido o motivo de algumas conversas com meu terapeuta. Cristovan sempre é objetivo e crú em suas análises, para não dizer cruel. Me colocava naquele divã maravilhoso dele, que me fazia perder o proposito da consulta, pois eu queria relaxar-me e receber a bela de uma massagem. Cristovan tinha mãos grandes como poderiam ser as de Arnold Schwazneger na vida real. Mãos delineadas, rústicas, unhas cuidadasb porem péssimo hálito. As celulites já haviam me incomodado o suficiente no início do ocaso biológico advindo das três décadas do viver. Minha segurança sempre veio do cabelo e do meu rosto impecável, intocado pelo tempo. Cor do cabelo. Movimento do cabelo. Corte do cabelo. Disposição do cabelo. O poder era o Cabelo. Assim como era o tamanho do pênis pro homem. Tem homem que até compara pra sentir-se orgulhoso. Sei disso porque fui casada com alguns por algum tempo. Já mulher sem o glamour do cuidado com o cabelo era equivalente a um homem de pau pequeno. Comentei nas conversas de camarim o tema: a importância do cabelo. Ao visível, meu cabelo deveria acertar alguns corações pois alguns Serafins perfumavam alguns dos meus fios, e contrabandiavam a um certo Cú-pido que os transformava em flechas para uso pessoal. Me atraía a emocao, dos olhares e da juventude, da ignorância sobre a existência da decadência. Como todo carro, sua gasolina, esse combustivel, que tece com a linha do destino a irônica dualidade adormecida em meu âmago, um dia acaba. Conhecia-me melhor esse ano, pois entendia meus personagens melhor. Ah, meus personagens. Eu vivia muitos. Quase todos iam morrendo e sobrevivendo, digamos que em uma UTI eterna. Abafados pelos pulsos de vida que me restavam. Acreditava que era por causa das odisseias pelas quais atravessavam. Preferia acreditar que meus favoritos vinham a quase falecer em florestas tropicais. Aquelas ribanceiras de rios estapafúrdios e nada especiais; de correntezas violentíssimas; tragicamente esquecidos por quem um dia os amou.  Mesmo quando houvesse alguém a procura, a agua se misturaria com os corpos e nenhum seria encontrado. Nem Estácio, nem Tadeu, ou Camila pois lá habitava minha água doce. Mas a esperança de que os fossem procurar, mesmo que inalcançáveis, servia-me como religião. Essa gasolina, fazia-me viver o constante resistir. Estácio... morto pela indiferença.  Tadeu... traído pela sabedoria.  Camila, deixada pela distância.  No intervalo de criação entre um e outro jaziam o dinheiro, as drogas e o conhecimento. Eu era engolida por esse rio de mistérios, o caminho menos percorrido pela gaivota  bicando a superfície do Guaiba, enquanto os barcos, da outra margem do mesmo rio, flutuavam ancorados na mesma.  Não sei se foi a cocaína ou Estacio... mas algo suspirou-me "És portanto a falta de plenitude, que alimentava meus sonhos e a me dar ânsia de navegar..." a descrever-me incompleta. Sentia as linhas tortas das ondas e a salubridade arder mInhas narinas. Buscava o ânimo. Lógico que eram as drogas o motivo de haver uma mulher maravilhosamente decadente em plena margem do rio de uma capital falida. Algum sexista passando em um dos carros pelo Iberê provavelmente deve acreditar que estou pedindo encarecidamente por um estupro. Eu já fui estuprada algumas vezes e não pedi nenhuma delas. Lembro casualmente mas não falo sobre. Sinto que poderia destruir minha carreira...minha imagem. Não dói lembrar... não dói nada depois de cheira-las. As marolas quebrando, jogando num assopro uma delas contra a outra, em competição de empuxos. Embora não saiba nem o que a Física significa por empuxo, prefiro a Arte. O sol. A água. O sal. Queria cheirar as dunas... a praia.. a maresia da areia... o verão. Eu queria as ondas. Fechei Meus olhos. Precisava delas.