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sábado, 27 de junho de 2015

Areia, Garrafa e Vidro

           Temo ser esse mosaico fatal. Desmontado e indolor, mas em pedaços. Assim que sempre estive embora de quando em quando eu tente me enganar. Não entendo como a enganação é uma tentativa sempre presente, como o mar, o sol e as paredes. Sou partes afastadas, multi-partidas e não-recicláveis. Mas não fui sempre assim. Senti-me distinto quando basta o tocar das suas mãos, que sinto-me ascender a um infinito de estrelas; as estrelas que no céu repousam; mas onde também há centenas de lampadas coloridas: na curva do espaço, onde perco-me de mim mesmo e esqueço que a vida passa. Sou bem vidro, penso, depois de refletir por um tempo. Desmontado. Mas em pedaços. E causo dor. Pois corto, sou oco, mas afiado. Embora nunca tivesse pedido pra causa-la. Já estive cheio e satisfeito, novo em folha, assim que terminei minha adolescência; de tão concebível, havia ganhado de meu dono até uma embalagem; pessoas procuravam por mim, sabiam que podiam confiar em meu conteúdo. Fez risos, e embalou noites de amor; de danças; de amizades inseparáveis. Mas um dia as coisas mudam. É assim de repente e devagar, Até que um dia alguém deixou-me cair. Dentro de mim, só de lembrar aqueles poucos milésimos enquanto descia em direção ao piso, minha vida passou por um estado de decantação de esperanças. Entreguei-me as eventualidades e deixei-me estilhaçar em mais de 26 pedaços. Mas alguns dizem que fins são feitos para surgirem novos começos. Ironicamente a minha idade hoje em dia. Mas pra dizer a verdade, época boa que me lembro era a de quando fui areia. Areia de praia: a minha infância. Quando a dor não escorria sobre mim. Muito pelo contrario, pelas mãos, eu tracejava meu caminho para o chão da terra, e me unia ao infinito do solo dos incontaveis graos de areia e da minha imortalidade momentânea. Mas a consciência de minha felicidade nunca foi facilmente mantida. Tenho anos que preciso ver se tenho estado feliz e me pergunto como as pessoas sabem que estão sendo tão felizes que não poderia haver maneira de sentir-se melhor. Agora, não sou tão escorregadio, sou menos aspero, mais duro, e já não escorrego pelos dedos. Vivo quebrado, e alguma alma viva remonta-me de anos em anos. Porem, custa caro segurar-me por muito tempo, desviando dos automóveis; acordando-se cedo para o trabalho; uma hora ou outra por um descuido, se me apertar em suas mãos, você é que sangra; e eu apenas permaneço em choque intacto, como um cactos no deserto. Temo por ser esse mosaico fatal, que nem as luvas grossas de mim iriam escapar. Vivo gelado, em alguma sacola, preso numa enganação. Própria de mim mesmo. Da vida que prega peças. E das pessoas por quem um dia passa. De que nunca foi tão certo na vida que nunca serei uma simples areia, velejando pelo vento, em frente ao mar.