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domingo, 26 de junho de 2016

Fio

      Dentro de cada uma de nossas cabecas, embora nao seja visivel, existe um emaranhado de ideias, acervos de historias e despertares de emocoes. Ideias essas que em uma reacao quimica em cadeia reagem sobre nossos sentimentos tornando-os mais ou menos intensos. 
      As ideias mais felizes trazem-nos a mesma sensacao de que o tempo escorrega por nossos dedos, como a areia fina da praia de Sao Vicente, nos lembrando que tudo é passageiro, mesmo que permanecam ate o fim das vidas, sejam elas ideias, sentimentos ou pessoas. Ja as ideias mais tristes, as desimportantes, quando nao sao traumas e nem fraturas irremediaveis em nossos coracoes e corpos, possuem um prazo de validade. Elas se  esmaecem como as cores de uma roupa que se desbota em um ano de uso ou dois. 
     Dentro de nossas cabecas, estao dois fios condutores invisiveis que nos levam de encontro ao outro - inevitavelmente como o ima magnetico e seu painel de fotografias quando estao proximos, juntam-se em um abraco apertado, uma atracao intrinseca da natureza de ambos - como se ja tivessemos nascidos ligados por esse fio, e ele nos levasse ao ponto em que tivesse havido nosso encontro. 
     Naquela noite, naquele ceu, ao redor daqueles predios, sentavamos, eu: imã, e voce: painel de fotografia. Te pendurava frases, te comentava em notas de papel os meus sentimentos, e te fiz sorrir, te enchi de fotos, te misturei aos meus amores, meus amigos e minha familia. Estava gelado aquele fim de tarde mas era o terraco e comiamos  um picole de chocolate. Era domingo e eu ja te amava. Nao havia mais outdoors pela cidade que nao houvesse imaginado seu apelido escrito no lugar das marcas de roupa. E veio a rotina, o riso e a descoberta de uma outra forma de viver, mais limpa e aberta. Ate o dia em que percorri a rua  em que andavamos subindo o morro, a mochila pesada e voce me empurrando porque tinha dores nas costas. Mas nao a vi escurecer... Te contei meus anseios e voce como em um sopro deixou-se ser soprado, a cada poste que era soprado para longe, mais escura a rua ingrime ficava... distante... Eventualmente todos eles, sem excessao, apagaram-se,  e ja nao era mais dia, e nem dia era mais dia sem voce.
      Meus olhos marejaram, mas nao voltou. O fio sobre nossas cabecss ja nao estava la tambem. Ainda que eu escutasse a colher de metal e o cheiro do seu cafe, voce nao voltou. Nao era sua sala, nem cozinha, nao era o jogo de cama,  e voce nao voltou.  Nao era mais a rua, nem era mais o cheiro dos paes de queijo e nem seu abraço, nao voltou.
       Quando a noite do parque caiu sobre mim eu entendi que havia me Perdido. Talvez o sopro fosse apenas uma invencao de justificativas para registrar o seu desaparecimento.  Era fria e verde escura.. Algumas estradas, arvores e um lago de aguas dancantes que ja nao dancavam mais. No parque sem placas, sem o fio, eu me perdi. Nao havia a espera, nem a conversa, as bicicletas ou os triciclos, talvez rostos borrados, assim que ficam as pessoas desimportante depois de terem suas fotos editadas - talvez rostos tenham sempre sido borrões.
    Apenas esse medo do Escorpiao que eu tanto temia reencontrar pelo caminho. Racional, pragmatico, estavel, atemperado e imprevisivel. Que se a vida Apertar-lhe os nos do sapato, seu ferrao inevitavelmente lhe ocorrera, e afogarao-se os dois num rio de uma margem que nunca sera alcancada.  A vida é... Mas lembrei de sua fala, da promessa e do carinho, e continuei a caminhar. Foi quando inesperadamente a estatua do menino e o porco  encontrei, aquela que voce tanto falava sobre, e eu nunca havia percebido.  A afaguei como quem acaricia seu animal de estimacao. Sentei na frente da estatua e a admirei - pois me trouxe voce em um feixe de lembranca. 
      Das ideias surgiriam emocoes e das emocoes  ressurgiria o fio que acendeu-se novamente, com muitas falhas e pouca luz. Mas ele surgiu... E isso bastava. Estava no ponto de me levantar e sorrir. E eu sabia que na outra extremidade  do fio estaria voce... E apenas  isso me fez sentir melhor. O fio... (E o reencontro.)

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