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quarta-feira, 28 de março de 2012

Texto investigativo sobre a moda dos excluídos


       Era através das roupas que percebi: 

tudo mudava para que continuassem

 todos os mesmos

     

       A primeira impressão é a que fica, já diz o ditado. Quando você vê alguém vestido de acordo com o ator do filme de sucesso, você não associa a  pessoa com as características que aquele ator representa? Vejamos outro exemplo, a jaqueta preta lembra-me constantemente os motoqueiros fora da lei, a ideia de algo poderoso e imbatível.  Nos últimos tempos, surgiu essa onda do xadrez como uma linha admirada de se mostrar-se entre jovens e adultos-jovens. O algodão, o xadrez, as jeans.. é preciso se render a aparência das mudanças. O mundo transmite  ideias a todo segundo através de mídias: explicitas, implícitas ou subliminares. Ideias que são associadas com comportamentos e atitudes positivas e o oposto; as ideias que são deixadas de lado, por não serem atraentes o suficiente para serem "compradas", afinal, vivemos em um mundo de ideias capitalista. Uma pandemia ideológica sobre o "ser diferente" surgiu de alguns anos para cá.: um efeito colateral dos avanços da psicologia sobre o Outro assim como a conscientização sobre o individuo social.       
         Tudo bem até aí? Não. Mas e quem não tem dinheiro, torna-se o que? E aquele que não percebeu que deve vestir-se nos conformes para se encaixar num padrão ideológico estético aceitável? Seria um ato intelectual interpretar a aparência como ser diferente? Afinal, seria importante se importar com isso para ser diferente ou não seria uma forma de mostrar uma capa ideológica falsa ou no minimo imatura de um grupo social? Você já se  perguntou se realmente consegue lidar com o ser diferente? O que é isso então?

sexta-feira, 23 de março de 2012

A Câmara Escura

           Era manhã, mas deixei o papel em branco. As horas arrastavam-se enquanto o nada me assombrava incessante. Algo curioso aconteceu pela noite quando lembrei de uma música. Breve e leve como uma ideia que vai embora deixando apenas teses e algumas conjunções desconexas para trás. Apenas ficava o cheiro do escuro pairando sobre o quarto. Aproximei-me da janela enquanto o tempo varria folhas e lembranças daquele lugar intimo e úmido. Os olhos da memória fitavam constantemente a paisagem. Foi, então, que me perdi no caminho do pensamento e afoguei-me durante uma incontrolável perda. Percorri a superfície, embora continuasse envolto ao seu breu supremo. Era a Câmara Escura dos sentimentos.
       Levantei-me apoiando as mãos na parede; e encharcado de pensamentos, resolvi andar. Ao passo que caminhava, escutei muitos lumúrios. A caneta encostava o papel e minha mão tremia. Havia placas sobre as portas ao longo da Câmara - assim como um hospital. Caminhei por minutos intermináveis e de repente ouvi uma voz inconfundível no meio da noite. Não poderia estar enganado, eu tinha que abrir essa porta; eu procurava por alguém e finalmente havia encontrado.
        Descobri algo pior do que o escuro; mais úmido e mais mortal atrás daquela porta. A caneta tocara o papel e meu pulso tremia. A Câmara guardava os olhos do inofensivo Medo. Senti pena e resolvi libertá-lo impulsivamente. Ao suar frio vi em seus olhos um rancor de sí. Então, notei que havia outro lugar ao meu redor. Estava em área rural, cortada por uma estrada de barro. Através da palavra o Medo vinha transformando-se naquele mesmo tornado: arrancando as casas, os postos e todos que tivessem pela frente. Meu dia, logo, ficara cinza pois foi sob uma tempestade que você se foi; uma tempestade eventual. Sem raios e trovões, empuxos ou meras contradições, voando para longe, muito alem de meus olhos e minhas mãos. Nada sei sobre o que veio depois... Tentei escrever, e você voou.
         Após isso, nunca mais entrei lá. Ouvi dizer que tenha tornado-se mais forte; quem sabe tenha decidido morar nas nuvens como algo que mereça morar mais próximo as estrelas? Minha única certeza é de que apenas guardei suas asas. Pois com elas, eu posso voar para longe de mim aonde não sinto dor, rancor ou remorso; e não há rastros de sua luz na minha estrada.


De-composição

       Eu fazia pontas, nada mais obvio que isso. Foi hoje ao me de-compor que percebi o fato. Desde que era esse meu papel ( pequeno e mesquinho) me contagiei com uma doença estranha. Meus sintomas eram palpitações irreversíveis e sentimentos gritantes começando com fúria e saudade. As vezes, sentia uma pressão contra o peito. Certa vez ainda pensei que iria infartar. Estava sozinho quando aconteceu. Primeiro, uma vertigem e senti meus olhos pararem nos pés; minha boca acabou nos joelhos; o ar faltou e as cores formavam borrões mesclando umas com as outras. Então, pressionei o travesseiro no local, horrorizado sem ter nenhuma reação alem dessa. Levei os braços na cabeça e fiquei por horas do lado do comodo no chão esperando a hora chegar, mas nenhum telefone tocou. Talvez a morte tivesse atrasada, andasse muito ocupada. Talvez o silêncio não tivesse sido a coisa certa; meu ar de desentendido; tuas decisões mais do que espontâneas e nossa fala sincera. 
       Teria ido se hoje não doesse. Com você, de repente, tudo valia a pena. Era como viver um livro fora da literatura: você interpretava brilhantemente o personagem da vida. E nisso que eu mais te admirava. Me dói saber que não estarei na sua próxima cena, na mesma peça. Talvez fossemos Romeu e Julieta, e quizessemos simplesmente ter sido Eduardo e Mônica. 
      Havia um fio desconectado da internet na casa e um bilhete de amizade. Você não era sentimental, e a mobília havia sido removida, e o banheiro que fazíamos amor sumira, e consigo foram os rastros. E percebi daí que sua inexistência me era mortal. E é você essa doença crônica, aumentando a toda vez que seguro o molho das chaves; ou me recosto no sofá do quarto. E é sim você quando perco o ar. E sem piegas, pois você não era de sentimentalismos, me deixou disponível somente algumas outras pontas na vida a cada vez que te encontro. E vou-me de-compondo a cada dia que segue, até a ultima fala: a seca, sem nada, só sentimentos de um olhar nostálgico, porem misterioso.


Divagação sobre a origem do universo

            Não entendo quem não vê beleza no que é triste. Dizem que os suicidas possuem essa diferença anatômica no cérebro e pela morte são atraídos. O motivo básico para isso é a falta de uma limitação básica que o ser humano possui que é acreditar. Desde o inicio da vida, desde ao colocar o nome em tudo que vê e sente até  os contos de fada, a páscoa ou a busca do amor verdadeiro. Talvez partilhe metade dessa insuficiência do suicida ou não tenha o suficiente do seu diagnostico para classificar-me como tal. No entanto, eu não seria tão juvenil ou irracional ao ponto de ignorar que a essência de toda ação humana prevalece ciclicamente desprovida de sentido. Um acumulo de comportamentos repetidos  descentralizam a busca pelo motivo de estarmos acordados, ou não. A busca de uma civilidade é um jogo de poker: nunca saberemos se o universo está blefando e se isso tudo é em vão; mas seguimos em frente: acreditamos. Somos organismos, dust in the wind, o nada ao meio do nada. E mesmo assim, nossa mente edifica pilares de faz de conta. Mesmo com tantas pistas. Então, as vezes  penso... mais uma fabula, um papai noel, apenas leva-me a acreditar que não existe razão por trás das cortinas do universo. Assim, sigo ecoando em meus dias de lua "Por quê?". Contudo nem as estrelas respondem ao silêncio.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Homem é morto após ser vestido de mulher em Porto Alegre

                  Me senti culpado por não fazer nada naquela sexta-feira noturna do verão de 97. 
             Pela janela do meu apartamento eu via Jandira andando de lá para cá todas as noites pela Bonifácio. Era um passa carro pra lá passa carro pra cá e não demorava muito até ela entrar no banco do carona de algum cliente cafetão. De manhã, ela acordava nova em folha como página de livro recém aberto, deixava comida para o papagaio, dava três tapinhas nas costas do Nelsinho, o filho de 6 anos, e saia para trabalhar numa loja de costura ali perto.
           Meu cigarro não parava de queimar e mesmo após o sexto, não consegui sentir-me convicto de que aquele não era o primeiro cigarro, por isso continuei o suicídio cancerígeno. O jornal daquela semana queria uma matéria sobre as prostitutas e eu já não sabia a que fontes recorrer, pois o prazo estava curto e faltavam apenas dois dias para o grande Miguelito ter a matéria ou me demitir de vez do Escarnio, o jornal do circulo operário daquela zona. O ânus estava para se tornar instrumento de trabalho para as redes midiáticas, tentando de alguma forma parecerem, sei lá, descoladas - mesmo que todos no escritório falassem das prostitutas como "mulheres da vida" ou então "pactuantes baconianas". Bom, não estava ali para tender a posição alguma naquele jornal, mas o círculo fedia a pura hipocrisia. Minha vida de escritor era um carma, um fardo mensurado apenas a temáticas marginais. Por algum motivo - talvez o fato de ser preto -  eles levassem os restos pra mim, e nas intermitências do discurso de cada um ali, havia sempre um "amigão", "companheiro" e "dos meu", como se de certa forma amenizasse a ignorância deles em relação a humanidade. E, incluo um colega de trabalho também preto, tão preconceituoso quanto o Albertinho, outro ignorante que posa ser diferente e alternativo e que de fato não vale pão que come. Alguns dos próprios redatores eram aidéticos; enquanto as mulheres cuidavam de sua independência - a nova tendencia ideológica do momento - os maridos ocupavam-se com as mulheres da boca mais próxima, achando aquilo um máximo. Um dia desses no escritório, ao sacar minhas coisas daquela gaveta com cheiro a mofo, Albertinho, o maconheiro homossexual enrustido,  trouxe-me uma sacola duvidosa, olhando para todos os lados e perguntando se não conhecia algum "conhecido maneiro". Provavelmente, o que ele queria na verdade era um ponto aonde arranjasse cocaína.. desviei os olhos e disse "não", voltando a atenção as  tralhas da minha gaveta, quando finalmente encontrei câmera fotográfica importada. Um jovem formado de 23 anos metido nessa sacanagem, meus pêsames aos pais da criatura.                                            
            Foquei-me na matéria das prostitutas, pois faltava apenas um dia para o prazo terminar. Após encher a cara no boteco da esquina de meu apartamento e observar de ângulos diversos a câmera, respirei a coragem de algum canto negro daquele bar estapafúrdio e caminhei pelo meio-fio a fim de fazer da reportagem as palavras de Jandira, a vizinha com quem nunca conversei. Surpreendentemente, ela estava encostada na parede esticando a meia-calça contra grade de um Petshop ao lado de nosso apartamento. 
          "E aí vizinho, chegando firme e forte?" ela disse com uma voz grossa.    
          "Oi?" Eu repliquei sem entender bebado - talvez eu tivesse sem reflexos, pois a água ardente dialogava com minhas cordas vocais, queimando-as pouco a pouco. 
         "Indo para cama né? E eu, indo para cama de alguém, porque a vida tá cruel, filho..." ela respondeu. 
       "De fato, estava querendo falar com você, mas não é pra programa, não. Não sei se sabe... mas trabalho p'rum jornal e gostaria muitissimo poder realizar uma entrevista anônima com uma prostitua, e se não fazê-la serei demitido..." 
     "Você é bem prolixo, gente, que garganta!" Falou enquanto observava o movimento dos carros, acostumada com a prática do trabalho. 
         "Você tem a voz bem grossa..." Constatei enquanto pegava minha câmera pra gravar o momento. 
       "Meu nome de nascença é Jandir... mas a vida dá uns revira-voltas..." Observou feito coruja um dos carros que parou no semáforo. 
         "Quer dizer que o Nelsinho não é teu filho?" Tentei não parecer intrometido, mas fui patético ao fazer a pergunta enquanto acionava o gravador. 
       "Nelsinho? Você sempre repara nos outros, né? O Nelsinho... eu catei ele na rua mesmo, coitado. Tava passando fome.. Dai, dou uns trocos para lanche pro menino e um teto para ele ficar.. adotei aquele pivete."      
      Naquele instante um braço malandro encostou-se sobre a lataria da porta do carro. Existia algo puro naquela mulher. A atitude mais nobre que vira em 45 anos de vida encontrei em uma prostituta, travesti. Como poderia acontecer algo tão inimaginável? Pensei em um mundo sem dor por um momento; sem sujeira; aonde Nelsinho poderia ir à escola e Jandira poderia ser quem ela quisesse sem ser discriminada por meus colegas de trabalho. Um mundo em que não houvesse hipocrisia e que enquanto as pessoas se ajudassem não houvesse a sujeira; esse mofo; essa bile que a sociedade insiste em fazer-nos engolir garganta abaixo. Pensei em me demitir em começar uma vida com uma banca de jornal ou fazer lanches para vender. Pensei em de repente trabalhar em algum sebo, onde palavras existissem mais do que pessoas; e tive medo de repente por pensar que um dia elas pudessem voltar a reinar e criar suas regras e sentimentos de culpa. 
     Num átimo, uma feixe de lucidez ardeu meus olhos, quase vi um opala azul desaparecer pelo vazio da avenida, e Jandira estava no chão sobre às margens da Redenção. Um risco de sangue levava ao corpo dela. Seus olhos estalados, um troco na mão e uma vida a menos em Porto Alegre. Me senti culpado por não ser eu; invejei a prostituta intensamente naquela noite; dormi em minha cama de olhos abertos com medo do mundo das pessoas de verdade.