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domingo, 19 de junho de 2011

Inverno dos dias iguais

              Não havia um mocinho ou um bandido na história, mas interesses que desencontravam-se inflando pulmões com fantasias e realidade além de uma homérica cumplicidade.
              Aquele inverno estava passando e pairava no ar uma atmosfera inquietante que parecia expremer corações feito laranja. O fogo da lareira, dessa vez,  não os acalentava e mantinha-os quente; ele destuia-os, despedaçando os corpos e as mentes daquele nevoeiro inacabavelmente resistente. Cortante, como ponta de faca: a cada palavra, a cada memória, a cada fotografia e respiração. Um suicidio do interior pedia vinho e mais uma música pesada de melodia romântica. Mais uma lata de cerveja e o fogo ainda ardia, assim como o fato de não ser apagado, pois ele tambem era eterno e a  razão da vida: o tudo e o nada, a guerra dos derrotados e a luta mais recompensante. Assim como lá fora, por dentro a chuva era pesada e devastadora bombardeando o asfalto com pingos de toneladas, que destilava a alma da tristeza daquele inverno inspirador e catastrófico.
           Estava tudo à beira do inconcluível fim, o fim de um começo. E era notório... já haviam passado dias e ainda não haviam sinais de que o tempo fosse acalmar, pois a tempestade não acabara. A selvagem tempestade não acabara  mesmo sem as nuvens cinzas sobre os corações. - o relevo original de todos aqueles sentimentos irrevogavelmente extremos, agressivos, vitais e, é claro , mortais.
          Já estava na hora de olharem para dentro de sí, e deixarem a chuva cair nos carros do estacionamento vazio. Era tempo de não cronometrar o tempo... por mais que ele conversasse com o tempo  dos interiores,  dividindo sua agonia e acompanhando sua trajetória...      trágica e solitária.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A sua própria casa

        A minha pergunta, que do ponto de vista racional é retórica, havia sido "aonde eu pertenço?"  Saquei um cigarro de onde costumava por minha luvas. Acendi-o. Apenas mais um cigarro e as preocupações desapareceriam de meu rosto, pois seria tempo suficiente para tirá-lo da minha cabeça e materializá-lo diante dos meus olhos. Eu dirigia meu carro tentando palavras que não gostariam de ser expulsas de meu peito, pois se ele fosse, eu iria. Iria para Londres, Dublin, Paris, e em meu maior desvairo, para Amsterdan. Já não tinha medo de minha vida, ninguem deveria quando se é confrontado com o simples sentimento que torna-o subalterno das impossibilidades, que lhe causa angustia e ao mesmo tempo vontade de viver cada vez mais, cada respiração e cada segundo que vale a pena: o amor. E, agora, quando aquele ditado parece imensamente enxarcado de sentido "felicidade só é sentida quando compartilhada" minhas opiniões e atos reinforçam minhas convicções. O cigarro... joguei-o pela janela. Já sintia teu cheiro, já via seu rosto e, finalmente, sintia-me em casa.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Alfabeto A-Z (passado perfeito)

Abraçei teus braços
Acariciei teu âmago
Acalentei tua ideia
Bebi teu liquido
Bati meu coração
Brindei teu sucesso
Caminhei a teus sentimentos
Caçei teus interesses
Comprei teus versos
Dormi teus sonhos
Dilubriei teus pesadelos
Despi teus pensamentos


...
Li teus lábios 

Marquei meus dedos
Mexi com a saudade
Mergulhei em profundidade
...


Percorri teus beijos
Permaneci em teus seios
Protegi tua vida
...

Vivi você.

de A - Z.

A mulher dos olhos da água

Suas mãos escorregavam e a água transbordava. Seu último som foi trêmulo e asfixiante. O barulho de seus pés eram graves contra o azuleijo e a luz alaranjada enfraquecia em frente a suas pupilas tornando-se borrões na imensa escuridão que a tomava.

       - Abri os olhos e te encontrei parada na porta da cafeteria. Tinha dormido vinte e poucos minutos esperando tu chegares. A vidraça já estava embaçada e fazia menos de 10º lá fora. Tu te aproximaste e me disseste que já não saberia se continuaria me vendo naquele horário e que o melhor era pararmos com tudo. Te perguntei por que estavas dizendo aquilo enquanto arredavas a cadeira - quando teu cheiro, então, afogava minhas narinas, ele alucinava minha imaginação com as velhas transas e filmes que assistiamos; as músicas de canais a cabo dos hoteis de beira de estrada que ficavamos em noites tediosas; sem falar no banco passageiro do meu caminhão que sempre ficava impregnado com a ideia de te ver mais uma vez. - Tu tentaste te explicar e disseste de novo que era tudo muito rápido e que precisavas de um tempo. Ainda não tinha entendido, sempre contive em mim um pensamento racional ao ponto de esquecer que as pessoas poderiam mentir. De repente, teu celular tocou e tu pediste um tempo. Te levantaste e foste ao balcão retirando um cigarro do bolso da calça jeans. Ouvi uma conversa, meus ouvidos estavam curiosos para alcançar teu tom e minha consciencia queria a razão de teus atos incompreensíveis. Olhaste para mim e disseste que tinhas uma carta pra mim, deixaste-a  sobre a mesa e partiste. Percebi o olhar periférico e indubitavelmente estressante dos olhos claros de teu rosto. Logo que saiste, minha mulher havia ligado, desliguei o telefone pois precisava decifrar a carta. Já em meu quarto, sentei-me sobre a cama imunda daquele hotel fuinha e, finalmente, a li. Tu estavas com outro homem e nada mudava as coisas para mim. Não até o momento de tu descreveres o amor que já sentias pelo outro. E digamos que como leitor sou um lobo... senti de longe a intensidade de teu sentimento e, além disso, li a profundide dele, pois percebi que tua alma pertencia ao infeliz e azarado cafajeste que achava que iria roubar-te de mim. Pois, então, ele se enganou, pois parece que seus olhos fecharão para sempre agora.


Medo do que causa medo

Assombram as palavras definitivas:

 Assombram e colonizam um *asterisco, chamam-lhe por um nome, chamam-lhe por codinome.
- e, por fim, jogam-no em rodapés ou sobras textuais desmedidas: o significado do significado insignificante;

Assombram as concepções imbatíveis, que não quebram, que são livres e felizes, que não choram - como se fosse uma relação de religião sem espírito;

Assombram as pedras, o asfalto, os edifícios e o concreto - toda não-vida imóvel e imutável: do acelerador ao carro- as convenções e o trânsito da vida;

Assombram as convicções, os príncipios, as tradições e as exurbitáveis ideias: do fanático ao insustentável - o beijo e o isolamento;

Assombram o tudo e o nada, o ser e o universo, a harmonia e o caos, e, a vida e a pós-vida;

Sobretudo, assombra:
o homem, o humano;
a humanidade.

*É empregado para remissão a uma nota no pé da página, ou no fim do capítulo ou do volume (podendo, nestes casos, vir entre parênteses, ou seguido de um arco de parênteses, ou isolado). Também é usado para substituir um nome que não se quer mencionar (caso em que se usa em grupo de três, dispostos horizontalmente.



domingo, 12 de junho de 2011

Expressão

"A expressão de que não há nada a expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma possibilidade de expressar, nenhum desejo de expressar, aliado à obrigação de expressar."



Trecho recortado da obra "Três diálogos com Duthuit" (1949), de Samuel Beckett.

Fim de partida

"Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Mas você não levantará e nem conseguirá o que comer. Ficará umtempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que rescucitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido no estepe"

Samuel Beckett

Cansaço

Cansei. Cansei de conferir sentido a um mundo desnutrido de significado.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Alienação do Sujeito

Estou coberto pelo nada.
Destituido de roupa, pele ou idéias.
Sou o eterno turista do mundo em que vivo.
Sem nome, raça, território ou língua...
Miserável pela ótica da escassez,
desnutrido de pensamentos e ideias.

Sou vivo! Sem fundamento.
ou a ausência da razão para a emoção de viver.
A única coisa que tive foi a possibilidade.
A possibilidade de ter alguem ou algo,
que no final, escapou em mim pela porta dos fundos:
escorregou por entre meus dedos deslizou pelo meu corpo e atravessou o ralo:
tornando-se parte:
do que me questiona;
aliena;
do que torna-me desumano em meu próprio mundo
- de mentiras e regras abstratas.

Não sinto-me alguem ocupante ou desocupante,
pertencente ou desapegado
- da terra, da água, do ar, ou fogo. - do espaço.
Sinto-me pertencente a minha insignificação,
e agarro-me a ela com unhas e dentes
pois é ela que agora me motiva.

Bipolaridade

Dualmente, ás vezes, da admiração transitava-se ao vômito;
do paladar suave transmutava-se a bile;
do contemporâneo limitava-se ao primitivo;

E minha expectativa - e repulsa de um pessoa que sente e pensa de forma incoerente, confusa, polissemica, e, infelizmente, arbitrária. - era, apenas, um abraço.

Nuvens e pensamentos

Um dia tudo que foi dito não existirá.
Não haverá pessoas. Não haverá tudo.
Os pensamentos vão passar como nuvens;
E, quando souber que não existirão mais,
desaparecerão assim como a luta
pela razão de existir do Teu  - "eu".
Um dia tudo que foi dito não valerá.
Não haverá sentimentos ou pensamentos:
Nem sofrimento; nem solitude; nem desejo.
Esperarás pela vinha secar
e o sorriso jamais voltar; nem o choro retornará...
Na quinta-feira-vazia, inesperadamente,
como o vento transcorrerás minha alma
soprarás meu coração, desencherás meu ego
e cortarás meu hibernado coração.
E assim reviverás.

sábado, 4 de junho de 2011

Penso todo dia

Todo dia penso em ti.
Quando entardeço penso em ti.
Quando anoiteço penso em ti.
Quando amanheço penso em ti.
E, quando não houver mais dia, ainda pensarei.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Terça

       Marte acordou em mim a Babilônia de minha pior terça-feira. Abro meus olhos em uma cama vazia, os dias passam e as estações mudam. E, em meu calendário, a terça-feira torna-se eternidade. Já não sou capaz de sonhar acordado.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

0%

     Estou em contato com minha natureza mais do que nunca. Afogado em um momento em que emoções atravessam o sangue pulsante e interagem com o batimento do meu coração. Persuadem meu cérebro a enxergar coisas que não existem através das janelas da alma. E até a dor se esvair, um quarto de mim, fisicamente, permanece saudável. A razão fora assassinada, deturpada e corrompida pelos filmes americanos e a literatura canonica: a típica cena de um filme sem direção; a típica narrativa de um homem em crise. Ao som de Nocturne Op.12, de Chopin, relaxo acompanhado de uma taça de vinho divagando em minha liberdade introspectiva. A cada gole, distancio-me mais do exterior, e a cada batida aproximo minha imagem às ideias insensatas do improvável. E agora, já dizia Renato tomado pela mesquinha comoção cultural, "quem disse não há Razão nas coisas feitas pelo coração.", contrariando a lei da impossibilidade. Não me  orgulhp por mim, nem vejo beleza nas coisas ditas, apenas admiração sobre o não-dito. Todos nós temos em cada um, apenas parte de sí. Lá fora, procuramos culpar o outro na tentativa de nos reencontrar. Nunca poderiamos ser nós mesmos, não é natural. Nem eu, nem mim mesmo.

Palavra-chave: palavras

      Sou palavras de um livro nunca lido. Sou palavras de uma página que foi deixada para tras. Sou palavras que nunca foram ouvidas. Sou palavras que doem pela presença da ausência de diálogos. Sou palavras de uma narrativa sem graça, sem nome ou telefone.
      Sou palavras de rancor, de medo e de angustia. Sou palavras de um conto infantil com um significado maduro por tras dos sorrisos. Sou as silabas da música, letras sem tom, palavras sem melodia.
      Sou palavras não-entendidas, cheias de letras vazias. Sou palavras de orações inexpressivas, mas densas. Sou palavras que tentam e choram sem chorar. Sou palavras que me definem e distinguem-me.
      Sou palavras sem filtros e acelerador, sem memória e marcha. Sou palavras de sílabas, sem sibilantes ou bilabias, afônicas. Sou palavras escorregadias e despercebidas: aéreas, chuvosas, cinzentas, intermináveis.