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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

História inacabada (PART 1)

       Sempre contei os passos na praia:  a cada vívida marca na areia. Sentei-me sob as nuvens de algodão observando o balanço do mar, enquanto a calma trafegava junto a maresia para minha alma. Havia um desequilibrio em mim, que estremecia meus braços e perturbava minha mente, gritante. Então, o fiz. Duas horas antes em meu escritório pensava o porquê, por que? Minha gravata sufocava, minha coluna era referência social. Tanta gente, tantos amigos, tantas e tantos pretendentes, mas nenhuma razão. Amigos mesmo? Talvez um ou dois dos cento e poucos. Desde quando isso era vida? Desde que eu respirava ? Seria esta a vida? Joguei meus objetos pessoais para o chão em um fluxo de raiva e tombei. Minha vida passou em um minuto e três segundo desde  que mergulhei em direção ao fundo aonde não haveria como alcançar a superfície. Lutava contra meu peso até ver todos os que passaram por mim. Não sabia quando ou onde, parecia que não havia mais tempo ou lugar apenas sentia energias atravessando meu cérebro, enquanto a única coisa que naturalmente sentia era o demasiado excesso de sal que ardia minhas narinas e faringe, parecia rasgá-las. Eu disse tchau para ela no dia 13 de dexembro de 1968, quando as ruas de Copacabana eram tomadas por militares e cavalarias em peso. Seu pai era o poderoso chefão do Jornal do Brasil, e eu um redator indisciplinado que tentava vida na cidade grande. Ela me disse que não iria voltar, não hasvia entendido muito bem a razão, mas esclareceu-se antes de minha chegada na praia. Seu pai era a personificação do Lucifer em pessoa, e de certo os deuses fossem julgá-lo transformando-o em jornal velho, ou melhor, papiro. O abastado jogou contra as vontades da própia felicidade de Anna Bela. Ela, que era Bela, por causa de sua indiferença com a estética, irônica e bela; seu padrão despadronizado e os vestidos despreocupados; era Bela porque era lida, entendida e despida de mentiras. Ana leu, leu.. leu tanto que se embebedou de Shakespeare quando ao menos podia com o  Gregório. E antes de vê-la pela ultima vez me escreveu em linhas tortas que precisava de mim para sua cena final, porque não podia ir em vão. Ana tira isso de sua janela - era o que deveria ter falado quando hesitei em visitá-la para salvá-la das garras de Seu Everaldo, bastardo gerimundo. Agora ela precisava de mim, e isso era certo, eu estava a caminho.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

it never goes out

"Take me out tonight
where there's music and there's people
and they're young and alive
Driving in your car, oh,
please don't drop me home."
Morrisey

Circunstâncias de Fuga

Dos teus olhos de pedra
reluzem as portas dos mistérios
mais profundos e litiginosos
seu suspense é seu discurso
seu nome repito incansavelmente

sob os flashes da camera
eu sorrio e meus lábios contraem-se
esperança de que os teus
encontrassem em mim
a saída deste mundo irreal

Foi tua presença
que entorpeceu meus sentidos
e calou minha fala
Foi teu corpo que cedeu
Foi meu coração que
se entregou

Três momentos
Três estrofes
Um pedido

Nós

           Ele moveu dez livros da estante da casa do amigo. Ela beijou a outra na casa do namorado. Ele se entrete  com os sucrilhos no prato fundo. Ela matou a aula com as amigas. Ela atende o telefone para irmã. Ele limpa os pratos e toma banho de sunga. Ela correu para o onibus pra não perder a hora. Ela geme com seu chefe no intervalo dentro do elevador. Ele abraçado a namorada comendo pringles enquanto assistem sessão da tarde. Ela olhando-se no espelho, pesando-se sobre a balança. Ele correndo junto a esposa na praia. Ele comemorando a vitória do jogo do Internacional. Ela vomitou todo almoço na vaso.  Ele escreve desesperadamente para entragar seu texto ao chefe. Ela se masturba em pleno domingo. Ele joga video game freneticamente. Ela chora porque seu pai faleceu e vai ter que morar com a tia.  Ele parece ter acabado de ser prese. Ela estava prestes a dar a luz na sala da parto. Ele fica no semáfaro limpando parabrisas dos  carros. Ele leva a famíli no parque de diversões. Ela estuda filosofia e trabalha como professora de inglês. Ele acaba de perder a virgindade com a vizinha. Ela assiste TV escondida enquanto seus pais nao chegam. Ele gosta de brincar com o cachorro antes do almoço. Ele faz academia. Ela costuma andar de calçinhas pelo apartamento. Ela lê o jornal no café da manhã.  Ele está usando o banheiro. Ela dirige Taxi e faz faxinas. Ele atende um cliente extremamente autoritário. Ela beija o amigo na boca. Ele beija o amigo na boca. Ela cuida da mãe com câncer. Ela rasga as cartas do ex-namorado.  Ele assiste aulas de Ciências da Computação. Ela toma mate no parque a tarde. Ele compra seu primeiro carro. Ela vê o pôr-do-sol com seu amigo. Ele fica acordado até tarde da noite. Ela reprova na faculdade. Ela dança sem parar nas baladas. Ele anda de bicicleta. Ela faz regime. Ela foi no cinema com a família. Ele bateu o carro dos pais. Ela pagou a luz e o telefone...  todos nós.

Olhem o olhar

Olha olhos olhantes
Olha mas não vê
Olha teus pulsos
Olha teus braços
Olha tua volta
Sou eu mas não estou
Olha teus risos no espelho
espelho de reflexos
Olha teus olhos mentirosos
Olha quem olha por dentro deles
Olha quem não quer te ver
do que teme ele?
do que teme ele?
de que incerteza move o
céu? Ou só existe?
céu? Longe.
Ou inexiste lá, nada
Olha...

Restante

Faltam páginas
habitam vazios
faltam cores
minha caixa
vazia de emoções
vazia de sentimento
à espera de algo

Faltam textos
habitam vazios
faltam histórias
minha caixa
cheia de contradições
cheia de incertezas
à espera de alguem

sábado, 11 de dezembro de 2010

Monólogo

Com todo o respeito
Onde você foi?
Com toda liberdade
Você toca aqui?
Com toda intolerância
E teus lábios? Não?
E tuas mãos? Não?
E tua boca? Não?
E tuas palavras? Não?
Com toda força...
Fica?

Sentido

Não posso viver comigo
mais um segundo
já é demais
pensar em tudo;
já é suficiente
tudo ter sentido em si só

tanto para tão pouco
não pensar em tudo
não pensar em nada
ainda que nada seja uma
palavra que não dê explicação

ainda que não existam explicações
existem as coisas que existem
Eu existo,
desconsidero qualquer
definição, qualquer
significação
apenas nas coisas em si
mora a verdade.

Instante

      Creio  que é manhã de verão de janeiro de sol de janelas abertas. Os doze Deuses no Olimpo sorriem enquanto eu olho a vida da vizinha da janela do apartamento de cima da confeitaria da casa da minha irmã. Em Porto Alegre ninguém me conhece mesmo. Um catador de lixo que ia passando gritou "olhando pro apê das vizinhanças...". Poderia simplesmente ignorá-lo, mas dei bom dia e fui tomar um café reforçado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entre_Linhas

   Não.
 
   Não me importa quem tu és. Não é a definição que me vale.
 
   Não quero que descrevas como ages. Porque despenca em mim um abismo de possibilidades e impossibilidades. Verdades e mentiras, ou até mesmo inverdades (aquelas internas que nem mesmo Tu sabes).

   Não me importa que tu impressiones. Não aceito algo superficial. Tambem não preciso de um poço profundo. Respeito a naturalidade e aplaudo fenômenos da natureza.

   Não me ignore e me veja. Não te peço nada. Nem para que tu leias.

   Não desista nunca. Não diga que a estranheza acabou e que a lua já vai dormir. Não quero um outro dia. Não quero um novo sol. Não diga...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Algo

"Alguma coisa escapa aos naufrágios da ilusão."
(Machado de Assis)

Revelação

"Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro
o ser humilde entre os humildes seres
Embriagado, tanto de prazeres
O mundo para ti foi negro e duro

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste a saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto
Magoado, oculto e aterrador, secreto
Que o coração te apunhalou no mundo

Mas eu que sempre  te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo"

Cruz e Souza

Mistério

Não raro envolvido da luz corada dos fins de tarde,
deixou-se por vezes tocar pelo mistério da noite.