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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pai

           Existia um caminho. Meu pai disse que eu deveria tomá-lo com coragem. Não olhar para trás, nem ao menos duvidá-lo por um instante. Que deveriam, as escolhas, serem confiadas com o poder da alma; assim não haveria tempestades devastadoras; nem terremotos mortais; a vida no deserto iria ser parte da imaginação. Continuei caminhando,mas minha garganta estava seca. Tentei não reparar e lembrei que meu pai disse que talvez estivesse errado: porque todos erram, mas as vezes errar é uma escolha e, portanto,  faria parte de quem eu seria. Não haveria problema nenhum se, por exemplo, eu parasse pelo canavial e, esperançoso, como ninguém mais, esperasse um eucalipto arrastar-se sob minha sombra,  se partisse ao meio e vertesse um pouco de sua água em minha boca. Eu não gostava da ideia de um eucalipto locomovendo-se como um ser humano, pois me parecia um tanto alienígena, - ou pensar nisso seria algo alienígena ? -; eu estava bem concentrado na minha anomalia, mas acreditava cegamente no diferencial. Aprendi a  rastejar como eucalipto que nunca existiu, enquanto meus olhos marejavam um rio que se afastava. Eram alguns esqueletos no reflexo do solo enfraquecido, alguns esqueletos que ia driblando. - Uma vez perto da fazenda, no curral do vô, um boi-zebu comeu a Novinha e outros gados. A Novinha mamava na teta da mãe ainda. Ela brincava de lamber  meu braços secos de areia e me deixava doido para brincar com ela. Mas o pai disse que tínhamos que dar modos para ela, e trata-la como se fosse um filhote de vaca qualquer. Afinal, se fosse preciso a Novinha iria virar comida, porque a seca ameaçava a fazenda do Vô. O medo era grande, porque a senhora minha mãe estava de cama, meu Vô ja não falava coisa com coisa e chamava pela falecida. Mas meu pai disse que a gente tinha faculdade ainda pela frente; a gente: eu e meus dois irmãos: Izaquiel e o Iodo. Nós nunca acreditávamos  porque ele era fracassado em sua vida rural e vivia chorando o sertão. Tinha perdido tudo e acabou por ficar com a propriedade do Vô; Mas meu pai num desistia facil. Ele seguia e me dizia para seguir, e filho de peixe- peixinho é. - Eu já me debatia sem os pés, gangrenados quando continuava me arrastando pela Estradinha da Tristeza. Só podia ser ele: mirei com os olhos marejados, baixo 30 graus... um menino me abraçou e carregou meus restos na parte de trás da carroça.. mas não era. Acreditei em meu pai, e deixei parte de mim para trás para viver a vida ardida do "seguir em frente". Não foi como meus irmãos que apodreceram nas barragens do São José, pouco antes do canavial. Eu chorei ontem por não ter ficado, porque hoje não sei se fiz meu pai feliz; só sei que sofri durante o caminho, o caminho que já percorri.