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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vento é tão concreto quanto as certezas

      A insensatez da sanidade é a gravidade que luta para manter os pés no chão. E o tempo que, para todos, assopra mais algumas horas representa o fim de um dia e o começo de um novo. Não que  o tempo delimite  a passagem  do universo das almas; não que a essência constitua-se entranhada nesse terreno mundo. A morte não traça a conclusão nem mesmo o começo, nem mesmo está marcada, somos nós que damos significado a tudo e nós que o restringimos e erramos e vemos a presença de coisas que não existem. Em cada coisa, e a cada contradição e a cada teoria improvável e, no mínimo, naquelas eternamente sem respostas. Não seria mais fácil aceitar apenas as coisas como elas são? Sem certezas.


domingo, 23 de outubro de 2011

Outro alguem

         Assim que desci as escadas, tentei esconder meu coração atrás das almofadas do sofá, pois naquela noite eu esperava alguém. Não estou pronto para alguém, nem mesmo bebi o suficiente para fazer seu rosto desaparecer. Existe um vazio tão espetacular em mim, que posso assistí-lo surpreso, dia-à-dia, tomando formas e cores diferentes, oscilando entre o cinza, o verde, o azul e, às vezes, o vermelho que jaz em meu sangue, correndo em minhas veias, um rio vermelho, amargo. De lembranças, ele transporta não só oxigênio para meu cérebro, ele transporta você, seu sorriso. Meu coração, na verdade, espera por outro alguém.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Só porque às vezes não sou eu quem está em mim

        Era tardinha, eu abri a porta para uma coisa que não conhecia, convidei-a para entrar, perguntei se não queria uma bebida e acabei desse jeito, sem jeito. Eu tenho que falar hoje, mais do que nunca, sobre o absurdo do querer, que de tão absurdo transformou-se no que considero patético e irremediável. Foi só lavar a cara e respirar para perceber  que toda essa instável sinfonia estava alterando meus pensamentos, queimando meus axônios, impedindo sinapses de raciocinio, afetando quem eu realmente sou e como eu penso. A conta 22 x 365 calcula a minha estadia dentro desse corpo. Resultando em um total aproximado de 8.030 dias de vida,  teleguiados por meus sentidos humanos, erradicados, impulsivos, frageis e sentimentais. Embora essa coisa do absurdo não tenha me ferido biologicamente, hipoteticamente  atravessado minha pele, rasgado meus orgãos, destruido meus sistemas,  corroendo meu organismo, como um vírus - pelo menos desde que convidei-a para entrar - ela atingiu em cheio minha fragilidade mais subjetiva, o que eu considero por essência, pureza e sinceridade. Aos poucos, em um jogo de palavras, ela tomou  conta de um jeito que nem consigo descrever, controlou minhas emoções e se voltou impiedosa contra mim. Com base em meu absurdo querer, um duelo de titãs se ergueu dentro de mim, em algum lugar entre minhas convicções e sentimentos  que se define tristemente em: querer estar com voce versus  continuar sendo eu mesmo. Por isso atingiu minha essência, meu Eu. Me sinto perdido, e sei que não é em você que posso achar o caminho de volta para mim, por isso, preciso fazer força, arrastar-me até a porta, abri-la com todo meu querer, e joga-lo pra fora, sem ademais, sem delongas. Desculpa, mas não aqui, não essa madrugada, não em meus 8.030 dias. É inevitavel que doa, porque colacá-la pra fora, é causar uma nova cicatriz, estar sem jeito, é estar sem alguem para conversar hoje à noite.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Infância

Você sente esse cheiro de noite? Não perguntei se você sente esse cheiro à noite. Perguntei se sente o cheirinho de noite no ar? A noite é sorrateira, mas meus sentidos são prestigiosos. Coloco meu  guarda-sol e minha cadeira de praia no jardim e sento lá. Minha vó e eu. Espero pela lua das 10 da manhã, pois sei que ela vem. Sou um cara adiantado, que leva o ponteiro do relógio a risco. No entanto, não uso relógio. Reparo na sombra do asfalto batendo no pedaço de concreto que antes eu chamava de muro, se movendo conforme os carros passam na desvencilhada. Eu e minha vó. A noite se aproximava cada vez mais de mim e dela. O ar úmido e os sons dos cavalos passando, agúdo. Café da tarde no quintal. O balanço do vizinho indo e vindo de acordo com o vento. Os murmúrios e buzinas, tudo parte da noite, sinais de sua aproximação. A vó na porta de casa e de repente no varal da roupa, recolhendo as últimas peças. O cheiro da noite. O jornal das seis. O balanço da cadeira de embalo. Minha vó ria da novela das 9. Tudo eram sinais assim como as palavras cruzadas. Até que a noite apertou a campainha,e todo o pueril virou memória.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Admiração em um homem

         O homem de se admirar não diria que não se arrepende de nada do que fez ou disse. O homem de se admirar diria que sempre se arrepende por não ter feito ou dito melhor. Um homem inteligente se entrega as impossibilidades e aceita as mudanças em si, transpirando a dialética de sua essência e percebendo as ausências presentes em sua vida.

sábado, 8 de outubro de 2011

Viagem

            Velejei em mim outra noite. Meu mar escuro, de marolas impacientes, indisciplinadas. Me agitavam,  quebrando em mim a cada ressaca; quebrando em mim a cada dialogismo introspectivo, uma conversa com alguem dentro de mim que desconheço. Acabando, finalmente, na beira da praia. Foi naquela estrela cadente que começou: no momento mais inesperado que os sentimentos mais inesperados surgiam, algo extradimensional, uma palpitação boa sobre o mistério do destino. No entanto, uma nuvem negra pesou sobre minha órbita, quando lembrei que de qualquer forma, tu irias voltar, arrastando todas sensações e memórias boas para algum canto escuro, sem esperança e sem nome dentro de mim. Meu olho se prendeu no assovio do vento lá fora enquanto uma rajada de vendo ricochitiava os vidros; enquanto tua respiração invadia meus ouvidos como lira; enquanto instantes passavam despercebidos no rádio-relógio. Meu coração estava sendo abatido em um açougue imaginário, revestido de murros e pancadas. Minha mão tremia no teu  pescoço e minha garganta arranhava, grunhindo sons incompreensivos... tentando impedir meu coração implorar "Fica! Larga o volante. Me dá um abraço. Um abraço apertado para que eu me perca em ti outra vez.". Hesitei.  Teu sorriso de tocar as orelhas era tão natural que permanecia em minha mente sem se apagar: a fumaça dos traços do teu rosto, perfeitamente delineadas. Te ver partir, hoje pela manhã, foi como um beijo de despedida sem o toque dos lábios. Do beijo aos meus lábios, dos teus lábios aos restos de ti, de ti a ficção que criei de ti em mim. Se eu não confiar no tempo em quem vou confiar? Em mim? Era o que eu mais tentava evitar. Não era uma boa ideia velejar, pois as ondas estão fortes e meu barco está fraco. Embora eu resista, sempre acabo em litorais. Pois minha esperança de achar no fundo da alma meu próprio tesouro perdido é meu maior dilema.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quem sabe?

           Talvez o amor tenha meu CEP errado. E a vida seja como um jogo feito de bugs e imperfeições. O ar seja apenas uma informação rasa enquanto minha agonia e tristeza me consomem em um pedaço de pizza frio e um copo de cerveja amarga em um domingo à noite. Uma noite em que a única coisa que me resta é uma geladeira vazia e alguns amigos felizes que já não estão mais aqui. Respiro esperançoso enquanto adormeço nos braços de meu sofá novo e solitário, pois amanhã  poderia ser diferente, quem sabe o Amor acerte  CEP e conserte os bugs outrora. Quem sabe? Estou certo de que talvez.

Importante

          O importante é seguir sem precisar saber o que está guardado para nós. O importante é surpreender-se consigo e todas coisas que ainda não foram experimentadas. O importante é poder oportunizar o .desconhecido e acabar por acordar sem saber se você é você mesmo. O importante é fazer que seu destino seja esmagado diante do inesperado. O importante, acima de tudo, é perceber uma impossibilidade como um ponto de vista, e assim, viver o que há para ser vivido.

sábado, 1 de outubro de 2011

Perda literária

       Perdi. É  a unica coisa que posso escrever agora. Perdi a vontade, embora tente encontrá-la. A vontade de me fazer entender. E mesmo se eu quisesse tentar expressar sob outra produção - fosse lírica ou prosaica - seria inútil  As palavras, nesse momento, parecem ter perdido o efeito. Eu pareço ter parado de achar gosto nas coisas. Como se elas não fossem feitas para serem gostadas. O pragmatismo subjetivo caiu pelo buraco do coelho, e nem mesmo minha curiosidade é capaz de encontrá-lo. E devo admitir que isso é um tanto entristecedor. Isso esmaga o peito da gente, como quando alguém que amamos nos ofende de forma injusta. Seguir de volta o caminho de minha casa parece tão complicado quanto o caminho de volta de João e Maria. Não há migalhas de pão e eu continuo amaldiçoado. Como se eu não conseguisse contemplar mais a lógica em nenhum de meus devaneios. Tento falar de medo, de falta de esperança, de solidão, mas já escrevi mais de duzentos textos a respeito disso. Minha alma está leprosa e insatisfeita. O existencialismo analítico e a carga emocional que era suficiente em meus textos, já não parece ser mais. Meu espirito está faminto por algo que ainda não encontrei e por isso, chora pensando confusamente em toda inapropriação que está sofrendo; por todo silencio que está passando. Quando meu exílio irá acabar? Quando as palavras voltarão  a falar? Não há respostas. Então, até lá, só posso com minha própria tortura dialogar - se ela  resolver ficar. Pelo agora, sei que ainda não a perdi.



Enfim chão

Eu vi o sol começar a morrer e desaparecer
Vi a lua se partindo em pedaços - pela TV
Vi o mundo através de olhos embaçados
Vi o apocalipse anunciado
Vi a guerra dos pássaros alados - na frente de casa
Vi a mudança da vida pela morte
Vi as pernas correndo desesperadas
Vi o medo marchando - nas ruas movimentadas
Vi o beco sem saída
Eu vi teu rosto no meu
Vi as sombras se aproximando - embaixo de minha sacada
Vi os lábios tremerem
Vi os olhos gritarem
Vi a chuva lavar os rostos - no telhado da nossa casa
Vi o rosto empalidecer
Vi a luz do suicídio
Vi a espera do fim


as mãos dadas
as ultimas palavras


vi o vento em minhas pálpebras


a ultima catarse de dor;  - ao fim da queda
abri os olhos da mente.