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sábado, 30 de outubro de 2010

Pecado

          Divino? Pensei que fossem minhas preces sendo apuradas por algum anjo preguiçoso e desorganizado devido ao tempo que passou até isso finalmente se realizar. Seria ficção, mentira e traição ou benevolência, pudor e  insegurança? Quaisquer que sejam as intenções, a única certeza é disso ser fruto de um desejo {sendo libidinoso ou não}. De qualquer forma, minha pergunta resume-se neste momento em:  Deus permitiria um de seus anjos intervir em um relacionamento desses? Ou estariam danificados os conceitos humanos de pureza? Enfim, ainda que não seja puro, é envolvente, como todo pecado.

Sem sangue ou marcas

         Aliás, teu corpo é suspeito. Primeiro,  cheio de suspense e mistério, atraindo meus aveludados  olhos silenciosos, que dançam sobre teus lábios estreitos e magnificos. Segundo, teu perfume,  o qual recai sobre o ar autoritariamente fazendo minhas mãos tremerem e suarem a todo instante. Conclui-se,  idílicos arquipelagos do desejo, tudo  aquilo que nos move.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Há a presença de uma ausência aqui

Na estrada, a poeira atravessa-me;
na avenida, a água enxarca-me;
na rua, os arbustos cobrem-me.

Logo, continuo em tempestades, carregado de nuvens carregadas.
Logo, de uma maneira inusitada continuo o mesmo - ainda que diferente.

Ainda faltam tijolos em minhas paredes;
ainda preciso da regagem matinal no meu jardim.

Ao acaso deixo a dor emudecida,
e a  minha euforia em tudo aquilo que houve,
Agora, só restam, vazios insubstituíveis e imperdoáveis.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Escuro

Não tenha medo. - Ela disse enquanto agarrava sua mochila ao se levantar. - Isso passa... -  falou enquanto saia com seu olhar adoçicado pela porta. E eu? Eu estava sem ar ao passo que submergia para o profundo fundo da noite interminável, sem alcançar a superfície... nunca mais.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Todos

           Não me impressionava que o mundo viesse acabar em tempos como este.  São tempos apocalípticos para o homem. Que signficam o encerramento de um ciclo e a abertura de um novo. Não é difícil entender os vestígios e as marcas desse degenerado fim.

Em dias atuais,
Todos andam sem olhar uns para as outros e fecham-se em círculos sociais,    
julgando aqueles que estão fora de alcance.
Todos andam em um mundo tomado de medo, com as defesas erguidas       
objetivando esquivar-se de qualquer projétil, de qualquer ataque.
Munidos de argumentos, armas e escudos.
Todos andam no escuro, segmentados,
sem confrontar-se com os Outros deste mundo em que vivem.                             
Uma vez que deparam-se com semelhantes,
Todos desentem-se pela fragmentação de suas identidades;   -
pela confusão de seus "eu";
pelo desentendimento de sí.

E aí, sabe como é que é:
uma palavra crua leva à outra;
uma ofensa leva à outra;
uma briga leva à outra;
uma guerra leva à outra;
E, prontamente, o chão está lavado de sangue e angústia.

Existiu em tempos antigos uma conduta como essa, mas essa conduta sofreu metamorfose temporal modificando sua forma (não sua essência), ela se tornou a classe, a etnia e o gênero.

Prendeu-se a respiração.
Escutou-se os bombardeios e a dor.
Sentiu-se a raiva e a lamina da espada.
Pensou-se a existência.
E o que ficou, além do pó, foram os restos.

Me aproximei da janela no intento de ver através da persiana se o medo estava lá fora, mas havia apenas o frio. Minha aflição aumentou quando percebi que poderia estar sozinho... abri as janelas e esperei... foram quinze minutos sem resposta.

-
Nem cachorro, nem vizinho, nem carros passando.
Nem índios, nem pardos, nem negros, nem brancos.
Não havia categorias. Não havia pessoas.
-
Ao entardecer, o sol já esfriava.
O sereno baixava e o mar agitava-se  - sob influência da lua.
E agora, podia-se escutar o choro e a lamuria daqueles que restavam sob o campo de oliveiras. 
E o meu medo pendurou-me pelo pescoço na ponta da mesa
enquanto via meu último pôr-do-sol.
Morreram Todos,
por dentro.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Além do que se vê

       Quando te vi, deixei tua voz soar da maneira que quizesse. Soltei o ar, que em meus pulmões transitava,  e  respondi "tudo bem".  Nunca pensei que a mentira ardesse como uma vodca marginal: rasgando da garganta até a boca do estômago. Pedi para que minhas palpebras não se inundassem, que minhas mãos não latejassem, que minha voz não escapasse, mas  pareço não ser bom em nada que faço. E ao sentarmos-nos  cordialmente em sofas opostos - tão perto, e tão longe - só pensava em abraçar-te a fim de arrancar toda dor e angústia de mim. Tuas desculpas e outras  verdades, em mim, abrigaram-se.

domingo, 10 de outubro de 2010

Orações Subord. Cond. Adverbiais

E se eu não estiver vivo.
E se o que eu sinto for algo inventado.
E se o que eu vejo não seja real.
E se o passado for literatura.
E se o que é literatura não for racional;

E se tudo o que eu penso resume-se
                                   a um ponto de reticencias infindável.

E se tudo o que dizem não é fruto de um fato científico.
E se as verdades forem na verdade uma inverdade sociológica.
E se os mitos não forem os monstros.
E se eu acordar amanhã;

E se nem a dor  me torne real.
                                  E se o sangue não me conte a natureza

E se o caminho não esteja  frente aos meus pés.
E se não for preciso.
E se for.

domingo, 3 de outubro de 2010

Santa Ignorância

          Sei porque eles falam. Sei porque eles dizem. Sei porque não escutam. Sei porque fingem escutar. Sei porque eles confabulam. Sei porque eles relatam como se fosse em primeira pessoa.Sei porque eles gostam. Sei porque eles odeiam. Sei porque eles mentem. Sei porque evitam a verdade. Sei porque eles resistem. Sei porque eles tem medo. Sei porque dizem "bom dia". Sei porque eles não choram. Sei porque eles não lutam. Sei porque eles creem. Sei porque eles culpam. Sei porque apenas não entendem. Sei porque assistem TV. Sei porque não apagam as luzes. Sei porque eles gritam para falar. Sei como eles se defendem. E ao passo que Sei disso, eu não sei o quanto precisa ser meu esforço.