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segunda-feira, 28 de março de 2016

Hora do conto

        Estava num quarto que era o sótão da casa delas. Coisa que eu vivia querendo esquecer. Ajudava a me acalmar, principalmente nas noites de calor. As de frio eram melhores. Pelo menos eu me encolhia envolvido no cobertor e não saia daquele universo em que eu sentia proteção. Mas era calor e eu esticado na cama, pouco mais de 1'30". O resto da cama era tão grande que parecia desnecessária. Uma cama bem antiga restaurada. Feita de madeira maciça com detalhes arqueados nas laterais. No quarto, alem das duas comodas ao lado da cama, havia uma mesa com espelho. Um quarto amadeirado e no estilo vintage. Havia um baú em um dos cantos do quarto e uma janela bem grande logo em frente a cama com uma cortina sobreposta. Uma rajada de vento soprou as cortinas que flutuaram criando uma sombra enorme e horrenda no chão. Tudo parece grande quando se é pequeno e não se reconhece o mundo em que se vive. Então o clarão não era somente uma visão do momento em que a cortina falhou cobrir o quarto de escuro. Nem a sombra era apenas uma sombra agora.
           Minha mãe costumava a contar algumas historias para que eu dormisse sem pesadelos. De reis, de vampiros, de sapos, de bruxa e de fadas. Ela não os ignoravam, todos eles existiam e eram seres extraordinários e desentendidos. Em meus sonhos eu os via as vezes. Muitas noites da minha infância foram estreladas por eles. Zezinho, andava no sol e dizia que sentia-se irritado pois era alérgico a ele, por isso evitava-o. Sem muitos amigos e por falta de socializar com seus amiguinhos, as outras crianças do bairro zombavam dele. Naninha  trazia os melhores aromas, ela era um feixe de luz que voava sem mãe; o que dava muita forca para ela; pois ela não queria ver outras crianças tristes; e então enchia-se de forca e otimismo, transformava todas as coisas tristes em cores lindas, flores perfumadas, e paisagens ensolaradas eras os sonhos mais visuais que eu tinha. Tinha o Outro Rei, Pablo Rei e o Ricardo Rei sempre investindo na segurança dos sonhos, na riqueza dos sonhos e na felicidade dos sonhos, eles enchiam os sonhos de piadas, ironias e utopias; porem não era muita gente que os acreditava, alguns condenavam-os como loucos e eles sempre sofriam com isso mas nunca se abalavam com a oposição. Néscio era um homem pobre, feio e burro! Coitado...as meninas o desprezavam; os meninos o zombavam, e as mães não achavam que ele era boa companhia pros filhos! E ele sofria.. mas Nescio nunca replicava ofensas, pois ele era sábio! Ele usava algumas frase engraçadas às vezes. Trocava o lugar das palavras com um sorriso confiante. E não menos importante, sempre esquecia os rancores rápido demais! Era um ser BEM humano! E tinha a Valusca, a menina adotiva que vivia arrumando a casa de suas patroas, limpava e criava rimas, cantava e criava encanto em quem sua musica chegasse, quando não estava cuidando da casa cuidava dos jardins e das frutas; explorando receitas para chás maravilhosos que suas patroas nunca elogiavam mesmo que sempre amassem.
       Minha mãe toda noite aumentava minha rede de amigos. Ao contrario das outras crianças eu vivia para dormir! O jantar estava terminado mesmo que logo posto na mesa. Enquanto minha mãe lavaria as louças, eu escovaria os dentes. E ai veio a mudança. Eu e mamãe mudamos pro campo que na verdade é mais uma cidadela de casas simples e "tudo está pertinho uma coisa da outra". Um pequeno condado com tudo do básico que se precisa pra viver bem e os maiores argumentos de mamãe vinham logo após: um lugar que haveria segurança e bons amigos! E ai mamãe me disse que algumas mocas que moravam ao lado me cuidariam quando necessário. E ai vieram as Franzelas. Três eram elas. Meninas gêmeas perfeitas e a moça mais velha de dentes pequenos magrela. Um avental de dona de casa bordado com estampas de girassóis. Foi ai que minha vontade de deitar, como um gato preto do azar, saltou pra fora da janela...