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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Meu Diário de Bordo


          Me sinto navegando em águas sombrias. No alto mar, profundo e horizontal, onde a única claridade é a luz densa da Lua sobre as linhas que desenham as ondas.  As ondas são o som e o tom da noite por aqui jogadas ao meio de três continentes, preenchendo o vazio que é o espaço, o espaço que ocupa a vida. Portanto é esse meu diário de bordo.
         As ondas variam em sua intensidade. Despercebidas, por vezes, imprecisas e displicentes. Quando raro, porém, se ponha ao cálculo de um míssil submarino. O oceano, na contradição de sua aparente infinitude, me encontro criança no reflexo dessas águas, criança com os olhos de um velho tripulante. Me carregaste no colo para longe do silencio pois sabias que o barulho me acalmava, então assoviaste até meu sono chegar. Minhas mãos a procura da segurança  não-merecida de um marujo experiente que talvez já havia sido um dia, em outras águas, em outras docas. Seriam tantas as dúvidas e faltas, que não havia certeza caso alguma coisa eu ja houvesse aprendido.
            Segurei firme minhas mãos na haste enquanto vi seu rosto naquela última rebentação. Me levaste correndo em teus braços quando pensaste que eu tinha partido. Senti suas lágrimas correrem por meu rosto. Inspirei com bravura como alguém que fosse pular em queda-livre dos céus e expirei a tensão... Uma coisa eu poderia dizer sobre minha embarcação. Ela era repleta de bons estivadores. Não importando a intensidade do balanço que houvesse em minha nau, meu barco mantinha-se equilibrado, embora com alguns rancores e ressentimentos que viessem a lacrimejar os olhos.
          Lia meu rosto, como as ciganas leem as palmas das mãos. Quem sabe eu pudesse dormir abraçado contigo sem regras ou razão, assim como a gravidade ou o movimento das ondas. Sempre continuei mastigando a mesma pastilha que trazia o amargo em mim, afinal resumia o que melhor poderia me definir. A inquietação da dúvida. A cólera da dúvida entre o mais desgostoso de mim e a honestidade desfibrilada daqueles movimentos enjoativos. A culpa por ter sido eu mesmo e o orgulho de nunca ter me tornado o outro. Como o dilema que me persegue como sombra de uma vida que nunca cessa de marejar. Nunca disse uma palavra ao vento naquela viagem. Talvez fosse a hora. A água já estava turva. Meus pés estavam frios, assim como a extremidade do nariz e dos dedos das mãos.
          Alguns rostos surgiram como reflexo enquanto eu mentalmente me despedia, percebia o féu como um manto coberto de estrelas cair sobre a água viva. E os céus começavam a garoar e as gotas escorregavam sobre meu pescoço. Talvez a corrente marítima ja houvesse desviado minha embarcação sentimental da rota predestinada; e já não houvesse motivo para procurar mais nada no breu da vida. Minha toalha de banho ainda tinha o cheiro de minha antiga casa. Via meus amores passados e meus arrependimentos brotavam conjuntamente. Um pessimista contemplava seu envelhecimento à deriva, pensei sobre mim mesmo.
            Percebi que movia-me na altitude da maré. Não havia cais nem outro navio. Portanto, haveria tempo livre sem qualquer desatraque. A hora aproximava-se. Subi em um dos mastros e amarrei uma parte da toalha. Ainda sim, eu tinha esperanças.  Coloquei um pedaço da toalha envolvido em meu pescoço e fechei meus olhos para meu peito enquanto meu coração batia como um relógio de parede no silêncio extremo. Tinha esperanças de avistar um estaleiro, quem sabe um Estaleiro ao por-do-sol, e consertar,  desintoxicar,  reformar, todo e qualquer estrago que fiz ao meu coração.  Talvez seja apenas um Diário de Bordo qualquer.