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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Macaco e os cachorros

   
      Apontar quando ele entrou em nossas vidas é difícil. Mas foi um desses que marcou completamente parte de nossa existência no tempo. E é incrível como esse tempo passou rápido olhando hoje para trás. Macaco era um cachorro esbelto, aventureiro, com ar de liberdade pulsando da  ponta de sua cola fina à ponta das duas orelhas pontudas, de pêlos pretos e aparentemente penteados, focinho de pastor belga e olhos castanhos escuro-tristes. Era um super-herói vestido de cachorro. Transpirava uma mistura de valores. A obediência refinada com os instintos mais primitivos de caça. Se alguém que o conhecera ler esse texto, entenderá a profundidade da verossimilhança que estou tentando passar ao descrevê-lo. Minha intenção é ser fiel aos detalhes. Uma vez que nosso querido amigo, Macaco, optou,  pela sua vida canina, ser fiel com nossa família; nossa casa e principalmente meu pai. Ninguém merece mais a palavra fieldade do que ele.
       Havíamos  na época acabado de perder um cachorro. A Leka ou talvez Leca. Acredito que era início de minha adolescência. A Leka era uma Fila misturada com alguma coisa e muita felicidade. Uma cachorra boba, que por conta de uma doença visceral acabou falecendo nos fundos de casa. A vida de todo mundo entristeceu-se desde sua morte. Era a segunda cachorra que até então havíamos tido. Uma tentativa de recomeçarmos a criação de um novo animal, que no momento de sua inabalável morte, parecia termos fracassados. Macaco foi o começo de um novo ciclo, embora, de fato, cada cachorro tenha sido especial na sua forma. Quando disse que ele optou ser fiel, definitivamente OPTOU é o verbo que mais define sua entrada na família. 
      Macaco morava na outra quadra e já tinha um lar. Um lar que pelo jeito estava desgostoso de fazer parte. Eles mantinham ele como um cachorro de dentro-de-casa. Até o dia que ele quebrou o vidro e veio parar aos cuidados do meu pai na minha casa. Essa perspectiva da história me falta. Não sei se Macaco havia o seguido ou surgido acidentalmente no patio da minha casa. Contudo terminou sendo alimentado e cuidado pelo meu pai, que trabalhava como uma espécie de zelador, entrando nas residencias ao redor de nossa casa e verificando se tudo estava em ordem, acendendo as luzes a noite e pela manhã apagando-as. Além disso, meu pai trabalhava como vigilante noturno em um construção na rua da praia de onde moramos, o Cassino. As noites de acordo com meu pai eram solitárias, frias e inacabáveis. Lembro que uma das vezes visitei ele na construção. Minha mãe havia feito algo para ele comer e resolveu levá-lo. O lugar se resumia a um conteiner, uma TV preto e branco de pouquinhas polegadas e uma cadeira de praia e um cachorro preto ao lado da cadeira. Depois de ter uma conversa com meu pai, o dono de Macaco concluiu depois que o cachorro voltou três vezes para nossa casa, que não entendia de fato o espírito rueiro dele. Era um cachorro livre. Ia pra fora de casa, as vezes desaparecia, ficávamos preocupados, e voltava. Em uma das vezes que ele desapareceu descobrimos que ele estava envolvido em uma arruaça canina por causa de uma cadela de rua. Macaco era territorial. Completamente fiel, obstinado, amigável, mas se tratava do sexo, ele desaparecia. Meu pai ficava divido entre o orgulho machista e a preocupação dos resultados da briga pela fêmea. Macaco intimidava os inimigos, mesmo eles sendo muitas vezes maiores que eles. Brigava com cachorros como se tivesse treinado seus movimentos. Já nos tempos vagos (por favor liguem o som com música clássica) ele caçava passarinhos no quintal. E de vez em quando aparecia abanando o rabo mostrando o que havia feito para meu pai que relhava com ele. Era uma mistura de "veio você não é um gato!" com "coitado do passarinho.". Ele andava por cima dos muros como se fosse um gato,  tinha a habilidades de um gato. Certa vez ouvimos barulho no telhado de casa. Era ele. Como ele havia parado ali? Bom, quem morava ali sabia que a casa da esquina tinha uma escada que dava acesso a um terraço. E provavelmente Macaco teria subido ali, percorrido os telhados vizinhos até alcançar o nosso.
     Era simplesmente um gato, que era um cachorro, e que também tinha seu lado gente, pois, alem disso, ele se comunicava. Ele guinchava  inquieto ao pedir por carinho, insistia nos guinchos caso não fosse atendido com atenção. A cola, o focinho e os guinchos expressavam a faceirice e o desapontamento muito claramente. Não havia duvida nas atitudes de Macaco. Era obstinado e objetivo. Adorava irrita-lo ao rodar a cola dele. Ele pirava, começava a caça-la como se não houvesse amanhã. Abraça-lo e levantá-lo no ar era pedir pra ele guinchar e se refestelar, ficava animado, e devolvia numa mordidinha sem dentes insana. Era basicamente a forma bruta de brincar, e depois ele saia de leve como se não tivesse a certeza de até onde foi na brincadeira. Era um cachorro sensível. Sentia o cheiro de comida de longe. Tinha um faro equivalente ao do Wolverine. Exclusivamente quando havia gambás nas árvores. Nos tempos vagos ficava parado na frente de casa, sentado e apoiado nas patas dianteiras, como aqueles gatos egípcios, olhando o movimento com um olhar calculista. O que lhe aderiu o semblante de gentleman e um ar de xamã da sabedoria quando lembramos dele.  As vezes, parecia ele entender mais sobre a existência do que todas nossas visões de mundo somadas.
       No oposto do seu lado instintivo estavam seus olhos escuros-tristes. Macaco sentia muito. Era perceptível. Talvez esse olhar viesse com revelações que ele não conseguisse decodificar e por isso não se importasse em compartilhar conosco. Mas ele via coisas e entendia elas. Sempre que lembro dele é essa a imagem mais forte. Ele parecia entender mais do que todos nós. O que ou por quê, não sei. Mas o que ele sabia fazia ele agir tão paradoxalmente. Esse alto grau de adaptação, mudança, a opção de vida, do instinto a obstinação. Tudo era resultado do tamanho do tudo que ele sabia. Parecia ser meio triste. Especialmente no final da sua vida, em que fui mais ausente. Ele parecia prever o fim e também ter aceitado o mesmo, e de forma pacífica, um dia, ele optou por nos poupar, e desapareceu. Hoje eu sonhei com gatos, e que morava na mesma casa da infância, e eu tinha medo que o Macaco os atacasse quando as crianças jogassem a bolinha de tênis ao brincar. Tinha medo que ele achasse que fosse pra ele, assim como os gatos e acabasse num conflito. E, de repente, o sonho tornou-se ele. 
         Não sei se vocês conhecem a teoria dos gatos de Erwin Schrodinger, da física quântica, em que o gato no paiol vive e morre no experimento. Isso porque, segundo a física quântica, se houvesse o mínimo de interferência, como uma fonte de luz utilizada para observar o fenômeno, as realidades paralelas do mundo subatômico entrariam em colapso e só veríamos uma delas. Ao meu entendimento, esse é o estado de Macaco, existem duas realidades paralelas, em uma delas ele está bem vivendo em algum lugar fofinho e quentinho. E na outra ele disse bye-bye. Prefiro assim pensar... sem interferir no paiol, deixando as possibilidades abertas para que ele OPTE.  Assim foi, assim continuará sendo... livre. Quem diz que cachorro vive/serve apenas para cuidar do quintal, não vê a alma do animal, Na verdade, condiciona-o a viver o que muitas vezes não é da sua essência. Alimentar não basta. Pro animal levar você (mas levar pra onde? pra onde houver vida), da mesma forma que você leva qualquer coisa que ama, o minimo é amar e viver o animal. É claro que isso não está no manual de 'como cuidar do seu cachorro'. O que eu posso dizer é que valeu muito a pena... meus sonhos estão repletos deles agora, ficam voando sem asas atrás dos medos que percorrem a imaginação do subconsciente; meio anjos, meio guarda-costas, ladrando e afugentando-os; até a hora de minha morte, e isso é reconfortante.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Paredes de dentro

Eram onze e cinquenta. Não havia nada que salvasse o dia. Muito menos algum super herói americano. Havia lá fora a realidade, as cidades e as pessoas. Realidade desanimadora para quem passaria o dia afogado em um mundo interior de sentidos caóticos. Estava coberto de sangue o céu, hoje, avermelhado. Não sei se era ainda o gosto do remédio, mas o gosto do dia - nem sabia se era dia - estava amargo. Escondia-se por trás das nuvens determinada nostalgia. Não dormia por noites e mesmo depois de algum sedativos, resistia ao sono. Quando finalmente transmudava-se com olhos abertos para o universo dos sonhos, ainda assim era vermelho o céu que seus olhos viam. Em sua mente esse relógio que trabalhava de maneira própria e não-linear era igual a um tocador de música no modo aleatório: seu tempo escolhia a próxima hora. Ás vezes sugeria que não houvesse uma. Mesmo que um relógio de parede estivesse dependurado sobre a porta em frente a sua cama, alguma parte de seu ser intervia de maneira extremamente lógica inferindo que aquele objeto fosse apenas um brinquedo. Algumas memórias quebradas da infância justificavam a lógica. Ganhou no seu quinto aniversário, ou no quarto, sem precisão exata, um relógio em formato cúbico que se desdobrava e alterava suas cores como um quebra cabeça. Seus ponteiros afiados apontavam para elementos numéricos. Ali. Aquele homem. Cansado de lutar a procura de onde estava naquele espaço e tempo, guardava suas energias para o momento em que esperaria o tempo que fosse necessário; para quando algo ali dentro daquelas paredes acontecesse. Mesmo que esse tempo não fosse chegar ou que o acontecimento não pudesse ser findado, ele tinha esperança. A esperança era esta forca que tornara-se o último fio de sanidade que ele podia recorrer à. Quando olhava para o passado, já não lembrava-se da dor, apenas da pura felicidade. Quando olhava para o futuro via o reencontro dessas formas - sejam lá quais formas - mergulhando uma na outra, como cavalos marinhos no fundo do oceano: leves e despreocupados. Não haveria medo, nem predileções, nem futuro ou passado. Só haveria  eles. Descobertos de historia. De tradições e princípios. Vivendo a imensidão do que são e sentem. Sentiu alguma coisa perfurar sua pele. Mas era comum sentir de vez em quando esses ferrões em alguma parte de seu corpo. Já havia se acostumado. Era quase parte do mecanismo de seu organismo. Outro dia ouviu alguém balbuciar alguma coisa em seu ouvido. Era um zunido agonizante. No final daquela noite - que talvez não fosse noite - lembrou-se daquele som e sentiu o cheiro dos cabelos da sua mãe, sentiu algo molhado escorrer pela bochecha, chorou algo talvez, e um aperto diferente do ferrão em uma parte do cérebro, e então, num átimo, voltou ao vazio. Sentia muito raramente essas sensações únicas. Como se alguma alma tentasse de milhões de galáxias de distância contato. Contudo, tudo era uma reação de um dos sinais que seu corpo transmitia. Não havia um caminho para percorrer. Sentia-se como um feto em formação envolto a placenta. Encolhido num mar escuro e liquido do espaço. Vagando num tempo escuro e incontável. Feito de paredes viscosas e algumas memórias. Em outro evento seu corpo cogitou a dizer-lhe mais alguma coisa. Foi um momento eletrizante quando em uma de suas tardes de Setembro sonhou. Sonhou que sonhava que dividia o quarto com um bebê que falava.  O bebê estava sobre a cama ao lado dentro de uma pequena redoma de vidro. O bebê contou-lhe a historia de um homem que dormia um sono profundo. Com um dos seus dedinhos apontou o ponteiro imóvel do relógio. Era como se o bebê tivesse toda percepção invejável de se ter. Seus olhos perspicazes viam luz. Seus ouvidos atentos provavelmente ouviam o som do bater asas dos pássaros e o latido dos cães em algum lugar distante do prédio. Suas mãos tocavam a redoma. Alem de tudo isso, ele era capaz de comunicar-se através  dos gestos, do sorriso, do levantar de sobrancelha. Que terrível inveja cresceu da boca do estômago a pressão dos nervos da cabeça neste homem. Uma dor incontrolável o submetia a sufocar a imagem daquela criança saudável com parte de toda sua força restante. Pensou com tanta forca que fez seu sonho tornar-se em escuro. Sua mãe lhe trouxera flores. Uma única rosa branca na verdade.  Ela colocou-a dentro de um jarro azul de plástico sobre uma mesa simples quadrada ao lado a porta. Tirou-a de uma colina ao lado da fazenda de seus pais. Costumavam ir todo verão. Havia um riacho. Um curral. E uma colina. No riacho, as crianças banhavam-se enquanto os adultos falavam sobre o futuro. No curral, as crianças apelidavam os animais e amamentavam os porquinhos. Na colina, as crianças colecionavam rosas brancas para levar pra casa. Embora não viesse aos seus sentidos, algo lhe dizia que ainda restava o que sentir. Seu impulso de vida era maior do que qualquer outra força. Seu pai colocara um quadro na parede ao lado da cabeceira de sua cama. Nesse quadro havia as fotos de alguns amigos. Da cachorrinha que dormia em seu quarto ainda filhote de nome Zora. Bilhetes. Mensagens de esperança. E um recorte de jornal sobre um acidente de carro. Numa fatídica manhã de uma primavera, acordou invernal. Sentiu uma suave sensação humana pela primeira vez depois do acidente. Era como se a palma da mão de alguém escorregasse por sua pele. Uma sensação de afogamento, e um suspiro lhe passava cortando o pescoço. A imagem aterradora do esquecimento lhe foi por um instante um pavor eterno. Até o volúpico abraço de saudade. Alguém que apenas sabia que sentia falta. Lembrou-se do sonho do bebê novamente, e de como havia esquecido da parte em que seus pais o retiravam daquele universo de vidro enquanto ele ria e grunhia sons estranhos de felicidade. Sentiu seu coração pulsar como um lampejo no entardecer: um batimento cardíaco como um flash solitário e intenso na treva. Seu pai nunca apareceria para apanha-lo daquela maca. Exceto se revestido em penas. Ele havia se ido. Se voltasse, talvez viesse como um anjo ferido pelo acidente de carro que o levara cedo demais. Seu padrasto provavelmente estaria viajando a negócios. A sensação das mãos deslizando pelo braço aumentava. Pareceu segundos todos aqueles meses, até sentir a consciência emergir. Pensou ser um anjo torcer-se em desespero no teto do quarto branco, mas as chances e de que eram mosquitos. Não os distinguia bem. Mas existia uma claridade. Houve um barulho da porta encerrando o burburinho. E as maquinas trabalhavam. Não havia algo além da profundidade dos sons dos equipamentos médicos ressoando em seus ouvidos. Estavam na janela. Seus pais, seu tio, sua irmã. Sua cachorra gorda já envelhecida. Estavam do lado de fora do quarto. Observando. Sentou-se na cama. E observou as paredes de dentro. Da janela via as nuvens do que parecia ser o vigésimo andar, e o mundo ali, do lado de fora... ainda existindo acima das cidades e pessoas. Ele notou a presença daquele homem, mas não trocou muitas palavras. Afinal, não era preciso. Tudo já havia sido dito.
- Senti saudades das panquecas. Sentiu muita dor?
- Você sentiu?
- Acho que eles sentirão mais. Foi tudo tão rápido, embora tenha parecido...
- Precisamos descansar.
- Sinto a mesma coisa.
- Sentimos.
Os dois subiram na cama e cobriram-se com um abraço reciproco.
Os médicos saíram da sala com a noticia. "Dormiu." E dentro da sala o relógio tocou o meio-dia.