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domingo, 31 de julho de 2011

O mistério sobre o mistério


        O mistério estava lá em algum lugar sob a sombra das árvores. Provavelmente, encolhido e com frio, enroscado às raízes daquele lugar úmido. Era uma marca que estava suspensa no ar, podia ser rastreado a milhas de distância apenas pelo cheiro. Mesmo não sendo visivel aos olhos, não havia escapatória, ele se alastrava pela terra como uma praga: uma ameaça invisível. Sem uma causa, explicação ou motivo, o cheiro apenas estava ali. Por trás de cada tronco, de cada porta, de cada esquina, em todo lugar, ele mantinha-se oculto e inexplicável. Como nos momentos de nudez, quando o maior teor de realidade pode ser tragado a base de maconha e nicotina e todas as cicatrizes estão expostas, a realidade torna-se subjetiva, impecavelmente, desolada, nem abstrata nem concreta, torna-se sedutora e um objeto de desejo. E jaziam palavras de cada buraco negro, até formarem o cosmos, os homens, os códigos, as sociedades, as culturas e as crenças. Mas o que aconteceu antes? E o que não foi dito? E jazeram elas por qual motivo? E não basta a loucura de viver o cotidiano? As cicatrizes são resultados, e por isso, provem de um ato anterior, que nessa floresta não foram explicados - não nessa noite. As respostas precisam de pergunta para serem respostas. E o que é o mistério? A abstinência da informação não-compartilhada? Descobrir o desconhecido no que já é  conhecido? Perguntas. A dor, saber da dor, ou se ela mesmo existiu, pois ela é um processo, no qual deriva a mares repugnantes. E a dúvida? O que resta é duvidar... Talvez só o tempo fosse apaga-lo. Pois é ele que absorve a vitalidade dos segundos. Talvez só a morte fizesse esquecê-lo. Precisam-se de ações urgentes a seu respeito. O mistério... precisa ser ignorado.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cairam as respostas assim como eu

         Foi por mim que atravessei a noite passada, por mais ninguem. Sem segredos, parti em queda livre, caindo no escuro cada vez mais. Aonde está o problema na dor? Onde estava a dor? Me perguntei. Mas a resposta foi o eco da batida despreocupada de meu coração. Minha agonia pairava no quando, no suspense de não saber, no divertimento do adivinhar, na tensão da ausência, na interrogação que é o amanhã, na expectativa de cair para ser segurado nos braços e levado para casa. No entanto, havia um estranho ao meu lado, e por um segundo, me senti perdido, dentro do quarto, em meus pensamentos. Culpa da minha fraqueza, carência, falta de valores, e talvez, hiperatividade. As palavras se perderam em um mar de delírios e caíram sobre mim, carregando-me a favor da gravidade.  Meu corpo já estava cansado e minha mente ricocheteando os mesmos pensamentos. Então, conclui subitamente que não havia nada que eu pensasse que fosse mudar qualquer coisa, pois não havia nada para ser mudado. Meus olhos já encontravam minha alma, desligando-se de mim, envergonhada, encolhida no encosto da cama naquela noite. Enquanto, hoje, naquela noite, agora, eu caio sem atingir lugar nenhum aderindo a uma constante de eventos desagradáveis e tristes, feito uma reta sem curvas, um rosto sem riso ou um mar sem ondas. Sigo o que quer que esteja pela frente. Caindo, atravessando as noites, os dias e a vida a cada instante.

domingo, 24 de julho de 2011

Último esquecimento

         Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

         As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

        É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

       Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

        Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

       O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.                                                     
                                                                          

sábado, 23 de julho de 2011

Forma ao passado

          À espera... à inércia... à distância... à incerteza. 
      Todas contra mim, corroendo-me aos poucos, - como a ferrugem ou o cupim - tornando minha aparência apática, letárgica e sem um brilho de vida (para os menos poéticos, leia-se, sem expectativa.) Um momento desesperado de fragilidade, no qual tudo parecia estar estático, longíquo e impessoal. Foi a um arco-e-flecha que me entreguei, baixei minhas defesas e tornei-me vulnerável. E, adivinhem, pronto, fui atingido em cheio. Nesse momento, arranjei um lápis, e me segurei na única coisa que sei fazer ( penso eu ): torcer as palavras, lapidar ideias confusas, torná-las legíveis e estridentes. Meu objetivo, foi, como sempre, tentar entender, ou fazer-me acreditar, no que é o certo ou o errado; no que aconteceria ou o que permaneceria no 'pause' na minha vida. Senti um vento peculiar cruzar da janela à porta do banheiro naquela noite, arrepiando os pêlos de minha nuca. Logo, lembrei-me, como uma profusão de pensamentos altamente sinestésicos, dos teus súbitos suspiros... ufff... tuas carícias inacabáveis em meu cabelo macio... teu perfume me afogando em prazer... o sorriso ensolarado... ahh... tua calvíce estranha e íntima... a pele do teu rosto ali, no espelho da minha frente, torrada da viagem ao Nordeste... nossa... e o cheiro insuperável do bloqueador solar... e como eu te amava... os lençois divididos durante todo aquele largo tempo... tu, nú, jogado sobre mim, meu fim. Mas o sorriso sempre veio das realizações malignas, não? Não eram as hienas os cães do demônio? Ironia e perseguição. Por quê? Aquela dor que senti, o sentimento de roubo, a falta de promessas, a discrença (que ocorre quando não se tem no que acreditar); essa dor, não era tua. A presença da tua dor transportou-me para as minhas mais profundas e intensas memórias. Tu nem sonhas com isso, contudo, acordaste o abismo em  mim, e eu o temo.Por quê? Pois nenhuma corda é longa o suficiente... nenhuma.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sentido da perda

          Acostumei minha mente e treinei meu coração, mas não foram tão bons quanto eu esperava, pois eles, hoje, me falharam. Era como se o seu sangue vertesse de meus olhos castanhos e distorcessem as coisas que vejo, toco e sinto. Era um sentido de perda irremediável, pois junto ao veneno, a pureza escorregava por meu rosto, percorria meus braços, sem parar, atingindo, por fim, a ponta de meus dedos. Não havia outra maneira de descrever a dor de deixá-la ao chão, de perdê-lo de vista. Não havia outra maneira de descrever o quanto senti-me roubado.
         Era como se, no inicio, ele houvesse construído casas em meu deserto; criado cacimbas para matar a sede da minha esperança orfã; organizado uma comunidade; plantado e cultivado hortas; produzido um universo de folhas e plantas, um lugar em que se respiram elas e se absorvem a pureza delas - dada de bom grado; ganhado a confiança de seus moradores... quando, então, senti em suas palavras a força bruta. Feroz e impreciso como um furacão invisível, você despedaçou meu mundo, devastou minhas hordas, secou minhas cacimbas e queimou minhas casas.        
        Me dizes agora que isso tudo foi pra se proteger? De mim. De nós. Da distância.(Talvez você não possa ser) Existem caras e caras, mulheres e mulheres. E a mais simples resposta seria: você não era nenhum dos dois (talvez como eu não fui). Por isso, acostumo minha mente cansada, todavia atenta aos mais mínimos detalhes. Por isso treino meu coração, para qualquer queda brusca. E o sentido da pureza, não vem das plantas, nem das flores, vem da minha própria existencia, e essa, nunca será corrompida.

domingo, 10 de julho de 2011

Sinal Verde

         Da aula de volta pra casa estava com uma tremenda dor de cabeça. Parei no sinal e a reconheci na faixa de pedestres. Seus passos curtos, as mãos enterradas no bolso e a manta da sua mãe. Foi inconsequente, imaturo e egocêntrico. Ao passo que nos aproximamos nos distanciamos mais e mais de nós mesmos. Mas, houve um afastamento – grita o meu subconsciente – Ou não! – grita o meu Id, controlador de araque. Só que após 5 anos, meu coração ainda respondia ao estimulo de sua presença; a pele suave, a expressão de um sorriso, de fato um sorriso um pouco amarelado, ensolarado; a linguagem poética, as mãos simetricamente largas de dedos fininhos; a sua voz aguda, afiada, tipo alfinete, embora levemente melódica, aspecto comum a uma porto alegrense, que toda vez que fala, parece piar como um  pardal ao acordar, e por último, mas não menos importante, a memória dos muitos orgasmos. Quem era ela afinal? Eu sempre batia na mesma tecla. A mentira nos contaminou como um vírus e nos entorpeceu como droga. Lembro quando fazíamos chá de ervas e tendíamos as ideias floridas do movimento hippie na época. Escutámos Elis,  Cazuza, Beatles, Pink Floyd, Rita Lee, e sim, fazíamos parte de uma resistência ideológica, e por isso, vestíamos as jeans. Foi triste a morte de John, Cazuza, Renato e, é obvio, de Caio F. Nos tornamos o que não somos e dissemos o que não diríamos. Mas, absorvemos muito por isso. Falamos uma língua que não era a nossa e nos entregamos sem realmente tirarmos as máscaras e conhecermos de verdade a nós mesmos, despido de culpas, de promessas, não estivemos crus em frente um ao outro, e não nos amamos. Progressivamente, em frente ao espelho, nos tornamos vampiros: irreconhecíveis, invisíveis e desinteressantes. Afastamo-nos dia a dia do nosso verdadeiro Eu, vivendo personagens de uma novela mexicana, encenando a vida real, nos apaixonando e odiando pelos nossos próprios personagens e toda atuação e literatura nas entrelinhas de nosso conto. E se hoje me apaixonei por ficção, tenho que agradecê-la, pois a culpa é dela. Quando subitamente percebi o vazio em minha volta e, também, a sua ausência, o sinal estava verde. Desde então me pergunto se também sou a leitura de um livro inacabado para ela, e se um dia anda teria a chance de conhecê-la fora dessa tragédia clássica. Guardei meu carro na garagem do condomínio, no estacionamento 9, e foi ali que cheguei  a conclusão: - só o destino, ironicamente, falará... –  não há conclusão.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Infelicidade condicionada

       E se isso te fizer chorar? E se eu apenas te fizesse sofrer? E se isso tirar sua respiração? E se você estivesse melhor sem ler isso? E se isso te fizesse pior? E se eu não pertencesse ao seus olhos? E se você não fosse a chave das minhas respostas? E se você estivesse melhor sem saber? E se voce sempre tivesse minha ausência? E se voce não tivesse sabido? E se isso for a ultima conversa? E se você nunca perdesse a esperança? E se isso te fizesse pior? E se você soubesse que já não existe  pra mim? E se eu te dissesse que você nunca existiu? E se você, então, nunca mais olhasse para tras? E se eu não tivesse dito que por falar sobre você isso significaria que nunca tirei você de minha cabeça? E se fosse alguem que não sou eu? E se tivesse medo de ser eu mesmo? E se tentei te impressionar? E se você nunca me conheceu? - O que eu fiz?

Setas e sinais

       Sem direção. Sintia minha alma vagar estranha em um caminho sombrio e voluptuoso. Onde as paredes eram da textura de troncos de rosas inacabáveis, contendo de quando em quando um espinho lá que outro - espinhos que cortavam toda vez que segurava-me evitando uma queda drástica. Dançando sobre pontos de interrogações e deixando pra tras cada pedaço de mim, lá dentro. Sintia o prazer indesejável da curiosidade do que  poderia vir depois. No entanto, a dor da presença da ausência do sentimento sincero, no tempo presente, tinha um paladar amargo e angustiante. Era como se estivesse despido de esperanças e a única coisa a fazer fosse continuar vagando, sem destino, sem enredo, cego numa trajetória secreta, irreversível e intrinseca, em busca do elixir da vida, a  razão da existência de qualquer ser humano. Ou seria tudo isso apenas destino?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Fim de noite

        Fim do dia.
        Ele caminhou no escuro até o feixe de luz que invadia o quarto. Se aproximou do espaço entre a cortina e o restante da janela destapada. Cansado, jogou o casaco sobre a cama e parou para observar as estrelas minutos antes de dormir. 
        Tinha sido uma semana longa de trabalho e não havia se dado ao luxo de encara o céu com seus olhos esbugalhados fazia algum tempo. Nem ao menos lembrava o nome dos asteriscos flutuantes no manto negro que cobria o lado de fora de seu apartamento.
        Não via nada além de problemas: suas contas, suas tarefas, sua vida, a garçonete de 30 anos, sua ex-mulher, a pensão, seu entiado, seu carro quebrado, seu cigarro (que estava no fim), sua carta de demissão, o beijo repentino do seu colega de trabalho, a chegada de sua irmã que vinha do interior, a morte de Osama, a criança atropelada no jornal, o chuveiro elétrico que estragara de vez, a comida do cachorro do vizinho que viajara em férias... e muitos outros asteriscos. 
        A sua concepção de "fora" já se distorcera do nível denotativo, transformando-se em uma extensão de sua própria imagem, ou, diga-se de passagem, outro problema. Em outras palavras, olhar para fora estava sendo uma árdua tarefa. Olhar para fora de sí; para fora do apartamento; para fora da biosfera. Era como pensar um corpo estranho e mergulhar em um mar de dúvidas e incertezas; afundar-se em um desespero sem motivos e sem destinação; como embarcar em um onibus sem placa ou destino; como defrontar-se com outro infinito, vasto e, ligeiramente, sombrio - do jeito que é seu quarto. Escuro, espaçoso e vazio. Seria a presença de mais um quarto desses, e a sinalização de algo muito além do que apenas um fim de dia; poderia ser o seu ultimo cerrar dos olhos. Suava frio. Sentiu seu sua testa enrugar e a água das curvas do cabelo escorragarem por entre as cavidades da velhice de sua pele. Ele tinha medo de se perder ainda mais... e... foi.
         Tinha medo de se perder para sempre num lugar sem sentido, sem esperança, sem o que conhecia. Como se em algum lugar pudesse haver isso - ele pensou em pensar nisso. Quando seus olhos piscaram, sua visão amanhecia, assim como uma criança vê, conscientemente, pela primeira vez a luz do sol. Suas mãos agarraram o endredom. Estava muito frio, silencioso, vazio. Mas ele viu, suas mãos escoregarem e, num risco, a luz esvair-se. Suspirou. Sentiu um alivio cercando-o pelos lados e a sua mãe buscou-o na escola. Seus dedos enroscaram-se. Não podia parar de abraçar sua irmã. Seu corpo inteiro, então, estremecia. Seu pai riu na mesa, e disse "vai pra lá, tu vais ser muito feliz, é pra onde todo mundo vai, tu vais ser o que tu quiseres meu filho." Ele chorou e chamou-o.
       "Onde eu estou?" ele perguntou.
        "No infinito." seu pai respondeu.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Repetição e Desordem

      Existe uma satisfação em identificar o identificável, mas já está tudo muito repetitivo, redundante, reiterado, renovado, reprisado, reprogramado, restaurado e tantos outros rês.  Nesse momento, isso soa mais como a praga do século 21, a globalização do ontem, a descrição da inenarravel parada cardiáca e acima de tudo a infelilicdade potencializada na ideia já pensada. 
     As vezes o maior sentido é não ter sentindo nenhum, combinar com o incombinável, desfazer o fazido (não o feito), que conjuguem  inconjugado, dessistematizem o sistematizado, que batuquem outros ritmos e cantem outras musicas, que leiam textos na diagonal, que inventem uma nova forma de agir.
     Virem o jogo.
     Embaralhem a mesa.
     Joguem as cartas.

Quando nada acontece

      A tarde passava como um vulto por mim, assim como tudo o que não passava. Eu continuava parado observando pelo angulo mais obtuso a silhueta das pessoas na fila, imaginando coisas que poderiam acontecer ou talvez as quais realmente aconteciam nada vida de cada um ser cromossomico ali, a espera de um papel monetário.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mudança de Vozes

Não mais. Ele era um rei. 
O rei inabalável de uma távula redonda. 
As Terras Planas necessitavam da gestão de um rei com tal força e habilidade como a dele. O nome desse rei, no entanto, era Felicidade.  Seu império era composto por milhões de suditos que ainda acreditavam na prosperidade e na saúde de seu povo, os Amantes.
Mas, algum tempo atrás, em um dia chuvoso no qual o mundo desabava com raios que atravessavam o horizonte por cima das alamedas ao redor de seu castelo, viu seu Amor por trás da vidraça da cafeteria da esquina com um outro homem. Naquele dia chuvoso, vestiu a armadura, empunhou a sua espada, segurou seu escudo, e entrou na cafeteria. Hesitou no vão da porta dupla, a única entrada e saida do bar. Então, observou o campo de batalha... ao preparar-se para atacar ficou perplexo, imóvel, logo quando ja tinha o ar em seus pulmões e as palavras em sua lingua, aquelas distantes e frias...  mas, eles estavam discutindo - quem era aquele homem... aquele homem que a xingava e espalhava a hostilidade naquele lugar? quem era aquela pessoa que dizia a ele "tu não mereces meu amor; nao merece minha mão,  quiça o meu 'oi'; não mereces minha jaqueta à noite, nem o café da manhã; nada de sinceridade, nada de gentilezas... e no inicio era diferente... tudo pra dizer depois que não gosta de mim....não merece estar comigo..." - Contigo? Eu pensei. Haviam outros castelos, era isso! - E o homem continuou "Não fazes parte de mim mais, nem que eu queira... porque tu não tens nada a ver comigo." Ele se virou cabisbaixo e correu choramingando em direção a porta, ele me atravessou, como séculos não havia atravessado minha alma, - como ele não tinha me visto? - suas lágrimas escorreram em meu peito e deslizaram em meu coração, a dor, por isso, foi se instalando aos poucos, e meu nome Felicidade, borrou, como numa folha de caderno, ocasionando apenas em um reino caindo aos pedaços, cheio de incertezas, e por fim, até perceber que ele, fui eu.