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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sonhei hoje com o passado

           Acabara de interromper um sonho qualquer. E de fato não me importei com isso, pois era um sonho como qualquer outro. Haviam personagens, uma casa, um violão, que pelo resquício de lembrança que ainda tenho sobre o sonho,  estivera sendo guardado em sua capa, alguém que narrava ao meu lado a importância de um quarto como um eco na minha cabeça, mas tão real quanto ser um dos personagens. E esse mesmo som, embora não fosse um personagem e   fosse apenas uma voz, ecoava em minha cabeça como  correntes de pensamentos  que dialogavam com as coisas que eu sentia. Atendi o interfone - fato que havia interrompido meu sonho - com os olhos ainda optando por permanecer fechados e disse “Alo”.  Era a primeira vez que morava sozinho em vinte e poucos anos. Afastei-me das coisas que sempre fui próximo, acreditando não possuir tantas coisas que me segurassem a elas, o lugar onde eu fundei  meu ser,  criei amigos,  caminhei para o colégio por 10 anos ou mais, joguei bola em terra úmida, rolei em dunas tentando transformar-me em croquete,  brinquei de esconder invadindo o quintal dos vizinhos veranistas... Pensei que seria como todos outros grandes artistas, filósofos  escritores, jornalistas famosos que se deslocavam do interior para tentar a vida na cidade grande. Olhei o mar, dentro de mim, aquele oceano de lembranças. Era como uma enchente, incontrolável e vorás atropelando as intermitências que houvessem pelo caminho. Segurava o pelo de minha primeira cachorra, tão macio e sedoso, e ao mesmo tempo tão vira-lata, e talvez fedido a valeta – afinal ela parecia uma ratão de banhado, não deixaria a lembrança distorcer a veracidade dos fatos. Cherry, o nome dela, que em noites de trovão se escondia de baixo da cama, de baixo da mesa da cozinha, seguindo o padrão clichê da literatura animal. Sim! Ela fazia exatamente isso. Lembro da terra, das formigas que caçava no sol, colocando-as dentro de um pote de plástico. Elas viviam passeando pra todos os lados no quintal, carregando uma folhinha de grama por vezes em trilha. Minha mãe deve ter dito uma vez, mas não lembro ao certo,  que era assim que elas construíam suas casas e se alimentavam. Por isso, desde então, eu resolvi ajudá-las, achei o tal pote de plástico jogado em algum canto do armário do lado da pia e levei-o, descalço, pra frente de casa. Sentei-me ao lado da trilha, com uma das mão arranquei um punhado de grama  e coloquei no pote. Levei  o pote até a rua e preenchi  ele com um pouco de areia. Retornei a trilha das formigas e comecei a coloca-las dentro do pote uma a uma. Tentei ajudá-las a construir um lar para elas  com pedaços de folha da grama do patio de casa. Era o que elas queriam, se sentir em casa. E assim eu cresci, adicionei alguns anos ao meu histórico de imaturidade, revolta pela vida alheia, procurei um sentido para as coisas por um longo período, organizando as minhas experiências de vida, como quem organiza arquivos em uma pasta no computador, ou simplesmente, dobra as roupas e coloca-as no armário. Uma organização sobre a definição sobre as coisas que se estendeu até o final da minha graduação e talvez um pouco mais. Não sei ao certo o por quê, mas foi como uma alavanca que é acionada. Tive um desses momentos que a literatura chama de epifania. Quando as coisas mudam a sua volta, embora continuem as mesmas. E então, como num passe de mágica, pensei ter visto a verdade por uma fração de segundos.  E estava naquele sonho que eu tivera. “Foi engano” o homem respondeu  do interfone. Não prestei atenção muito nas palavras dele,  não se quer estava ali naquela sala, naquele apartamento, daquele dia, sobre a luz do sol do meio-dia, em São Paulo. Estava estupefato, meus olhos começavam a arder. Uma ponta de angustia surgia... era tão feia, tão pouco infantil, tão imprudente criança, a verdade. A vida parecia um lance de escadas, que eu tivera a impressão de subir em todos esses anos, embora nunca tivesse saído do lugar. Corri atrás dela, a verdade. Mas me deparei com um labirinto de memórias. E olhei-a amedrontado, como um cálice no meio do labirinto, um tesouro  e talvez a caixa de pandora. Tinha sido a cama... é, claro, pensei. A cama foi a chave para esses sentimentos irreversíveis. Era a minha cama da minha antiga casa, dos quartos que eu tivera, um bem pequeno, pois nunca tive quartos grandes, quer dizer, no passado. Meus quartos eram cubículos  onde vivia eu e meu irmão dividindo um espaço que parecia mais um campo de batalha. Ambos, fomos sempre individualistas por natureza. Nunca deixe a memória distorcer as coisas que já aconteceram. Ela tem esse comportamento, martirizante, tentar tornar o passado atraente e belo, talvez melhor e mais adorável, quando nem em todas vezes teria sido assim. Ao lembrar de algo tente não intervir na verdade, pois talvez ela não reflita quem você é no presente. E por mais feio que  você seja, e me refiro aos nossos defeitos,  sempre será mais feia a pobre, misera e descomprometida mentira. Minha cama estava naquele quarto apertado, naquele sonho translucido. Cama beliche de madeira, em que deitara por quase toda minha vida. E com a cama, balancei. Mas firmemente resolvi não chorar e fui para a cozinha. Talvez fosse uma paranoia casual. Maldita hora que o  interfone tivera que tocar, e  ainda era o número errado! Retornei ao meu ser rabugento como geralmente sou pela manhã. Humor de urubu. Você ri, eu fico sério. Você fica sério, eu ignoro. Você me ignora, eu volto a dormir. Esse sou eu agora, ou quem sabe sempre tenha sido. Abri a geladeira e preparei um leite com Nescau...  E foi no último gole que lacrimejei, e finalmente, desabei.  E o percurso foi simples e direto. Primeiro, lembrei da cama, e depois o gosto do leite de Nescau, a TV ligada no canal de desenho animado, minha mãe. Minha mãe trazia o leite na minha cama. E esse era o meu ponto fraco. Eu teria preparado o leite hoje. Afoguei-me no leite junto com as lágrimas, pois minha mãe não estava ali, ainda também não havia morrido. Pessoas escrevem coisas assim quando outras morrem. Ela só estava em minha cidade, onde quer que ela estivesse, seria minha casa, meu lar e não estava comigo fisicamente preparando o leite matinal. Olhei o mar dentro de mim novamente, aquele oceano de lembranças incontrolável e vorás atropelando as  minhas angústias por tão pouco demonstrar e expressar amor a quem me amava, como um dever que não tivesse comprido, um tema que não tivesse sido feito, um capitulo de algum livro que tivesse começado a ler, embora não tivesse o terminado, afogado em frustrações internas. E  embora fosse manhã, presumi que esse era o fim do meu dia.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Uma tarde no parque...

          
           Tentei carregá-lo no colo até o posto de saúde. Estivera contorcendo seus olhos enquanto sufocava.  Não sabia se iria aguentar até lá. Precisava cruzar o parque inteiro, atravessar uma ponte de madeira e contornar  um quiosque. Assim chegaria ao posto, onde iria entregá-la a moça da portaria. Parecia ser um filhote, talvez dois ou três meses. Tinha os olhos castanhos e pernas compridas demais. O que me fazia questionar se era realmente um filhote. As orelhas eram pontudas com curvas estreitas.
             Aconteceu enquanto eu ia para a escola. Em meu caminho diário, escutei um barulho esquisito atrás de um capim alto. Era um parque estranho, cheio de salgueiros, lagos cheios de salmões e raízes de árvores que saiam da terra por lugares também estranhos. Bom, por isso que sempre gostei dele. Havia certa ansiedade em atravessá-lo. Uma vez adentro, o objetivo era chegar ao seu fim. Um momento só meu. Da minha casa ao colégio havia alguns 40 minutos de caminhada. Isso antes de eu conhecer o parque, porque além de estranho, era um bom atalho. Fora uma descoberta que acontecera durante e apenas naquele ano. Era um outro caminho que recém descobrira e estava disposto a alterná-lo conforme minha paciência e interesse por ele. Não me apegava a caminhos. Achava-os entediantes assim que sabia o que aconteceria depois de dobrar uma esquina. Mas hoje seria diferente. Pois estaria na sexta série e havia apenas um ano que passeava por ele. Descobri em seguida que comecei a ir sozinho para escola. Meu amigo disse que era um caminho incerto e por isso resolvera não me acompanhar mais nas caminhadas. De fato, não desistiria de explora-lo porque meu amigo não estava afim de um pouco de aventura. Segurei os cadarços de meu tênis furado que minha mãe me obrigava a vestir para escola e os amarrei.
            Estava com tanta gripe que quase não conseguira respirar na noite anterior. Minha sorte é possuir a saúde de três touros mais um leopardo. Me curava rápido naquela época. Foi quando ouvi o estalar de uma folha por trás de um conjunto de folhas longas e altas. Achei estranhíssimo. Pois nunca vira o parque tão inabitado, aonde estava o velho de bengala que sentava no banco próximo a árvore do lago? E a moça embalando o bebê junto ao lenhador?  O parque era assim, tinha Madelaine, a enfermeira do posto médico que passava as tardes sentada na cadeira da recepção com uma mão que  segurava sua bochecha e a outra que preenchia formulários para ninguém. Pois nunca via uma alma dentro daquele lugar, era branquinho sem mais nenhuma cor. Havia alguns animaisinhos...  talvez uma menina de cabelos encaracolados e um rapaz  de rosto esguio e pele branquissima... algumas sardas no rosto... um homem de meia idade de barba azul atrás do balcão do quiosque. O menino de rosto esguio e a menina de cabelo encaracolado as vezes apareciam correndo pra lá e prá cá, do lago a ponte. Por volta da uma hora da tarde eles estavam ali, zanzando, pescando e atirando migalhas de pães da ponte de madeira.
                  Mas, enfim, o que estava atrás das folhas longas e altas era o que carregava em meus braços. Era algo peludo, branco e afofável. Seu olhos estavam triste na grama quando o encontrei, parecia estar paralisado em agonia. O gozado era que apenas seus olhos moviam-se, como se tivesse visto um boi-zebu e de repente tivesse paralisado.  Sua patinha estava dentro de um arame, parecia uma armadilha reinventada de um formato estranho hexagonal. Libertei a patinha do pobre coitado enquanto ele me encarava inerte. E corri para o posto!
                   Fiquei tão assustado pelo animal que corri o máximo que pude. Embora ele não se movesse, de alguma forma, percebia que ele queria muito, muito fazer qualquer coisa, mas não conseguia! Que agonizante foi vê-lo daquele jeito. Atravessei  a ponte, e lá estava o quiosque. Aproximei-o com cautela. Esperando que alguém  de barba azul surgisse em algum lugar de dentro dele. Mas ninguém ocorreu. Segui em direção ao posto logo no fim da estradinha. Ele estava lá também, como em todos os outros dias. Menos a moça Madelaine, sentada preenchendo formulários. Ela não estava lá! E agora? Eu resolvi entrar no posto de qualquer forma. O balcão era da altura da minha boca. Eu sempre fui pequeno. Pequeno demais. Tão pequeno, que precisava fazer algo grande, como por exemplo, ajudar o coelho.  Pensei, ele não tem com o que se preocupar, pois eu iria achar alguém pra acudir ele.  Não havia ninguém atrás do balcão, mas vi uma placa que sinalizava  que haveria algumas salas de atendimento médico através de um corredor logo a esquerda. Avistei uma porta entre aberta em um fim incognoscível. Corri pelo corredor que não parecia terminar. O quê? Estranhíssimo. Naquela tarde nublada como em todas as outras, tudo estava da mesma forma só que menos habitado. Ao adentrar o escritório, vi a coisa mais horripilante de todos os filmes de terror em toda face da terra. A enfermeira acima do peso Madelaine estava de cabeça para baixo toda enredada em fios brancos naquela sala. Parecia um lustre humano e seu formato dava a entender que parecia ter sido transformada em abajur. Sem saber o que exatamente eu via, pisquei os olhos com força. E pensei, eu não estou vendo isso, ou melhor, eu não posso estar vendo isso, porque isso não faz parte do que é possível de se ver.

             

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Preconceito: solução x problema


Nas margens de mim

Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples
Autor:  Anitelli/Daniel Santiago/Leoni

                   Não sei até onde sou contra ações radicais e ditadorescas. Do fundo do meu peito, sinto, por vezes, imensa vontade que o Brasil deportasse pessoas com comportamentos discriminatórios, para manter-se no papel que é dito ser seu, o democrático, mas na prática, eu me tornaria eles, o vilão, não? Vou tentar divagar, já que a divagação não gerará o sofrimento dessa prática violentíssima.

              Ao tentarmos realizar esse sistema maligno de deportação, acordariamos para o fato de que em nossas próprias famílias, sempre existiram aquelas pessoa retrógradas e resistentes a opiniões distintas, muitas vezes desrespeitosas e preconceituosas, sem consciência alguma. Bom, se eu dissesse que em minha família nunca houve nenhum preconceito racial, sexual ou social estaria mentindo profundamente. E espero que a minha família concorde. Mas, não só na minha família, como na maioria das famílias brasileiras, se esconde aquele comportamento tradicionalista, bairrista e indiferente com o mundo e suas representações culturais; dentro do núcleo familiar se nutre o mau-hábito e o bom-hábito; uma capa, para acobertar a ignorância em relação que ninguém ainda havia sido conflitado, mas que de alguma forma pessoas começassem a gerar opiniões - uma auto-afirmação de que existe esse pseudo-conhecimento sobre as coisas, e dessa forma, que existe interação entre a família e o mundo. Por algum acaso isso já aconteceu com você? Estar com a sua família, ouvir uma afirmação que não reflete exatamente o retrato da realidade? Infelizmente, a sinceridade sobre o conhecimento é um caminho difícil. Afinal, para você ter uma identidade, precisa acreditar em algo.. precisa mostrar sua opinião... no entanto, infelizmente, não é possível saber de tudo! É tão difícil falar "eu não sei " "eu não entendo", "Eu não sei muita coisa" ou acostumar-se com o silêncio. Quando na realidade acontece o contrário.. todos sempre afirmam algo, sempre tem muito a dizer... e, diga-se de passagem, muita merda a dizer... aquela vontade que dá de se retirar da mesa e ir comer no seu quarto. Você já passou por isso? A vida não é um jogo de futebol, que você tem que torcer pra um time, e desejar que o outro tome no seu devido ânus, pois vivemos em sociedade... E, embora tendo esse viés, nós apoiamos o futebol mesmo assim. Mesmo embasado por esse pensamento dicotômico ridículo. Pois do futebol já ouvi "Macaco", "Bixa" e "Maconheiro". Até quando as pessoas saberão sobre tudo? terão opinião sobre tudo? É tanta ignorância que você decide não dar bola mais para essas pessoas que sabem tudo. Você passa a conviver com os livros e com os amigos que julgam a tudo muito menos, pessoas que julgam "saber" muito menos. 
             E ai você cresce e descobre na sua família, todos são como você, e como seus amigos.. que não existem "adultos", são crianças por dentro, nunca foram adultos. Aliás, não existe adultos no mundo todo!! Aprendi isso com o Neil Gailman... e por tanto tempo você ficou confuso.... pois embora fossem elas as pessoas que "vomitavam" pelas bocas, eram as mesmas que possuem valores lindos, pensamento revigorantes, atitudes extremamente prósperas e princípios inteligentes. E ai você volta a abraçar elas em outra fase de sua vida: adulto-adulto. Nesse momento, retorno a me perguntar sobre deportar pessoas que discriminam outras culturas: eu deportaria eles? Exilaria pessoas que eu amo? Então largo esse pensamento insensato e radicalista.

                 Estamos divididos dentro de nossas famílias, dentro de nosso país e de nós mesmos. Vetar os maus-hábitos e apontar as possibilidades poderia ser um começo... e é claro, como uma roda gigante, de novo de frente a educação nos encaramos. Aos poucos, aprimorar o raciocínio crítico. Só assim escavaríamos as dúvidas até o cerne do problema até chegarmos a um ponto aonde houvesse um posicionamento menos resistente a idéias culturais diversas e mais aceitação.

sábado, 12 de outubro de 2013

Leap of Faith

        Tudo aconteceu tão... na verdade, num átimo. Estava em casa...  em seguida fui parar dentro de mim! Através de sons e vento, acabei por conhecer um rumor sobre mim, imensamente desconsertante. Tanto que  quando voltei a minha alteridade em frente ao espelho eu estava. Meus braços carregavam palavras, que carregavam dúvidas, dúvidas indubitáveis e... sobretudo um mistério irreconciliável sobre o amanhã. 
         Empilhei meus livros no armário e fechei as portas. Caminhei para a sala de estar inquieto. Pronto! Havia organizado o interior do armário, atravessado a cozinha com pingos de cloro, logo após o rodo do banheiro, passado lustra-móveis na superfície dos cômodos, tudo estava no seu devido lugar. Quem dera eu pensei. Me joguei exaurido no sofá. Enquanto afundava na almofada, contemplei a janela com meu olhar fixo pra dentro de mim. O som da TV ecoava ao fundo. Mas a inquietação superava o seu eco aumentando meu interesse no Acaso
       Bom, embora houvessem alguns milhões desses - é claro que falo sobre as vicissitudes - dentro do breu, pontinhos líquidos flutuantes acinzentados e pontiagudos, compostos de pensamentos impensáveis, caminhos trafegáveis, prováveis e outros nem tanto, consegui concentrar-me naquele esquisito e aforme, contorcido e empoeirado, contornado por ideias obvias e por outras, de fato, curiosíssimas. Engraçado como as palavras interferem no seu dia-a-dia e como duas ou três tem o poder de formar ideias,  somá-las a sua percepção sobre as pessoas e o meio onde se vive, e como resultado, decompor  aqueles que as leem. A leitura delas, por mais legível que se fizesse, tornava-se talvez complexa e um pouco profunda. Era como velejar em águas helênicas, desvendar uma língua anciã, como perceber as arbitrariedades de um Outro, aprender a natureza da própria razão, que não é a sua, uma busca epistemológica focada nas escolhas do incógnito caminho que fora tomado.
        Havia algo muito pontiagudo entalado na garganta. Senti-o, e toquei-o de leve. Uma verdade afiada como ponta da espada. Quem poderia prever o Acaso e aonde ele poderia levá-lo? Um risco a se tomar... Seria o prelúdio de uma tragédia? Algo não foi dito, mas foi escutado, alguém mais havia ouvido ou era somente eu? Senti o toque em meu pensamento, de uma voz vindo do além, de um outrem, de um dia que passou, mas não percebi.
      Aproximou-se sem deixar-se percebido, assim da mesma forma que chega o Rumor. Sentou-se no mesmo banco. Estávamos em uma estação de trem. Ouvi sopros e eles me diziam coisas, enquanto os vagões passavam ganhando velocidade, só deixavam um assovio que se combinavam aos sopros. Perguntei seriamente o por quê disso neste instante. Estaria tudo tão no lugar, nunca esteve tão no lugar. As palavras vinham densas e discretas, invertidas, desmembradas, como em um exercício chato de morfologia. Vários lexemas atravessavam a estação, cantando canções sobre a mentira sobre a verdade. Sobre as coisas que eu acreditava. Mas, eu relutei, contando-lhe, que eu tinha escolhido o caminho e somente eu, ninguém mais. Um vagão transbordou  sua sombra em uma passagem sorrateira em frente aos meus olhos e de repente se fez luz. O sopro deslizou para meus ombros e me disse que não era amargura que eu sentia, era a minha condição. Eu estava preso nesse mundo, e sabe-se lá como ou quando iria retornar a realidade. No que exatamente estou preso, eu pensei, fadado a mentiras, " profanos contos de fadas", o sopro disse. Você não precisa se esconder de mim. Mas quem falava comigo? Não precisa selecionar as palavras. Do que falas exatamente? Não precisas de barras de ferro. Estava cada vez mais confuso. Parecia algo mais do que eu poderia em sã natureza ser capaz de entender, naquela plataforma, naquele lugar esmaecido da minha memória.
      Todas informações eram apenas ruídos, e o que aquele acaso estaria me dizendo...volúpia, mentiras, amor, o que raios seriam aquelas, palavras soltas, fragmentadas. Sobre eu mesmo. Sobre minhas ações. Mas por quê? Sinto muito por não entender o que isso simplesmente quer dizer. Nem tudo é tão obvio para ser assim, jogado ao vento, falado, expressado e dito. Se toda escolha fora de plena consciência, é mentira? E se não fora somente eu, não fora eu mesmo. A bagunça hedionda, a mesa desorganizada, os armários abertos e a pilha de pratos, em cima do balcão da pia? Aonde você me levou durante a tarde? - A um passeio sobre a feia verdade. - suspirou o rumor.