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segunda-feira, 25 de junho de 2012

9 meses depois

           Sem me dizer nada, tu me disseste tudo que carrego em mim até hoje. Só pensava nos ventos da praia. Pensava em como eles sopravam em sincronia obscura. Refletia sobre a lentidão de cada uma das notas enquanto seus olhos fechavam-se no leito da sua ultima aurora.
         Outro dia estava submerso em mais de duzentos daqueles mesmos pensamentos fervorosos que costumava repassar como um filme preferido em um ataque de nostalgia nervosa. Não fazia muito que chegado das ruas bati a porta preparado para aproximar-me mais uma vez. Passei pela cozinha, apanhei uma garrafa de vinho e sentei-me junto as almofadas da sala, próximo a estante escura de riscos nublados. Abri a última gaveta para começar a busca a sua procura. 
             Meu coração palpitou mais alto, mas ignorei-o e prossegui com o processo pendente. As janelas da sacada estavam abertas e as estrelas me encaravam talvez tentando ler meus pensamentos enquanto eu vasculhava cada maço de papel que havia socado ali durante o ano anterior. Por um segundo, hesitei em um impulso artístico de levar meu violão até a sacada e representar o papel do bom homem bêbado do século 19. Ao contrario disso, resolvi concentrar-me em você. E como não poderia? Havia marcas de você por todo lado. E se hoje ainda comia na mesa é para recompensar os sermões tradicionais dos almoços que perdi. Joguei todos papeis e contracheques ao chão enquanto meu peito acelerava desesperadamente. Lembrei de mais um aniversário em especial. Foi quando senti teu riso em algum lugar da estação se aproximando... Continuei cavando meu caminho para as fotos que eu ainda guardava até o momento em que finalmente segurei o envelope que as contia. Parei por um segundo, retornando a minha sensatez monótona de ser, retirei o selo e o abri. Talvez todas as catarses se agruparam e resolveram acontecer dentro de meus sentidos: minha mão tremula, meu coração  pulsante, meus olhos lacrimejantes e  minha boca seca. Eu sabia que aquele era meu apartamento e que o condomínio era seguro, que nenhuma bomba ou asteroide colidiria com a Terra; nenhum desastre natural aconteceria, não estava para morrer ( ao menos no sentido literal), porem algo me dizia que aquele era o apse, a ponta do precipício, o limite, o momento em que minhas emoções se perderiam, como se as luzes fossem apagadas para sempre, e eu não fosse achar a saide de algum lugar esquecido dentro de minha memoria fraca e inútil. Parecia que aquela noite de caos interior, havia me mostrado algo que eu não podia ver. Talvez o que eu não podia ver. Talvez o que eu não pudesse ver viesse depois. Ao te tocar nas fotos, deslizei os dedos desejando que me abraçasse, e tu sorriu para mim de novo na estação. Minha alma lavava o chão da sala,  deturpada de historias e impossibilidades. O ar se mostrava rarefeito. Sentia minha cabeça ecoar seu nome. Debati-me contra os sofás segurando suas fotos e documentos que escapavam entre meus dedos. Tua ausência me subia a garganta, meu estomago queimava inconformado. Eu estava apagando, pensando que poderia ser nos teus braços. Deitado na cama, no outro dia, não entendi porque senti teu cheiro, ou porque havia um copo de leite no bidê ao lado da cama. 
             Mas só podia ser você. É por isso que te amo, mãe.





quarta-feira, 20 de junho de 2012

Esboço

             Era carnaval, e você me mostrando o caminho entre os desesperados, apenas isso. Um mentor constante perguntando "é isso?''. Deixei meus amigos no bar das mentiras e caminhei pela noite passando por outros bares de outras musicas, outros grupos, outros gêneros.  No final da rua dobrei ainda tonto e entrei em um banheiro publico. Aqui estávamos nós em um banheiro imundo, enquanto as certezas desmoronavam, e eu me via através de seu olhar incansável, como se me julgasse a toda brida, sem o medo e receio que eu tanto conhecia. As inverdades das ideias imperiais me assombrando, soprando em meu ouvido, uma dor levemente imperceptível aumentando com os tambores perdidos que restavam nas ruas, e você em mim, tentando reparar os estragos da educação tradicional. Fechei-me numa cabine, debrucei em um dos joelhos em  respondi a pergunta que você me dizia: - sou eu. Não sabia se era a resposta certa, e a tontura trazia a bile e as mentiras tocando a garganta, " vomitar as mentiras dói, mas é o primeiro passo para ser você a quem todos amam", eu perguntei se era por não ser eu que doía e você me disse que sim. Perguntei então: - Por quê?. Você me disse sem objeções "porque são todos iguais, e você apenas não está por inteiro." Talvez se vomitasse mais eu estivesse completamente desintoxicado. Lembrei de meus pais nesse processo de purificação, da minha infância e de como minha vó parecia feliz no meu primeiro aniversario. Tudo voltava ao normal em março; voltaria para minha cidade; e já teria atravessado mais essa tormenta.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ideias no cotidiano

           Eu era um organismo, e isso era uma das obviedades da vida. Isso, é claro, após os avanços da ciencia. No entanto, havia uma madrugada perdida em mim enquanto o universo se encontrava nas vias duplas dos meus pensamentos.
           Entre os que iam e os que vinham, um em particular chamou minha atenção. Como uma estrela cadente na imensidão negra da noite. Senti suas palavras derreterem-se sobre minhas ideias, desmistificando e distorcendo-as ao mesmo tempo. As sinapses transportavam códigos outros, de um novo formato, com novas regras e estratégias de organização. Senti alguns problemas desaparecerem em meio ao nada, e alguns restos de informações sendo etiquetadas, embaladas e predefinidas em seus devidos lugares dentro do vendaval de pensamentos.
           Olhei forte de volta para o nada remetendo-me a complexidade do que representaria o vazio. Tombei-me em silencio imprescindível ao esclarecimento das ideias,  - enquanto alguns diziam que era a caixa-do-nada, eu chamava de processo. - então, ouvi um zunido vindo daquela ultima sinapse cansada e sedenta por caos.
           Ultimamente, havia muitos ruídos entre as pessoas que rodeavam, emoções pulando das bocas, informações convulsivas, infarto de orações, hipertensão de monólogos sentimentais. Precisava de um canto vazio, em algum lugar esquecido, aonde as ideias não perturbariam nem mesmo o meu sono com seus sonhos dementes, loucos. Me perguntei já crescido se isso era ser 'ser humano': ser vitima das inúmeras razões irracionais e do mundo caótico dos pensamentos cortantes... E se eu pudesse retornar ao ponto em que os problemas não eram ideias; e ideias não eram problemas.