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quarta-feira, 30 de abril de 2014

***Ocaso em Jacarezinho


       
         Vivia uma vida mais ou menos. Um repúdio leve a todos acontecimentos mornos e acefalados sobretudo com todos e tudo o que lidava. Havia me mudado alguns anos. À trabalho. Num bairro classe média-baixa, de nome Onofre, nas redondezas do centro de Jacaré. Tive um pesadelo com meu chefe,Vilmar. Fogo. Ele descobria que eu era homossexual e me demitia. Mas ele não me demitia porque eu era homossexual, mas porque eu tinha visto ele com outra mulher que não era a esposa dele. Ele estava com medo que eu contasse para os outros. Que estupidez, pensei, assim que acordei. Acontece que nem sei se Vilmar é casado ou tem esposas. Sou legitimamente invisível na vida das pessoas de onde trabalho, o escritório de advocacia da cidade, no prédio mais alto do centro de Jacarezinho, lugar onde não existe prédios altos. 
         Aonde estaria minha mãe agora? Um simples devaneio. Casa. Eu nem estava lá, mas tirei uma de minhas pernas pra fora da cama. Senti um cheiro de fumaça. Ignorei o fato. Eu nunca tive uma, mas encharcado de sonolência, lentamente encaixei meus pés na pantufa. Caminhei para cozinha. Um pé atrás do outro. A visão hospitalar da cozinha, me causava ânsia. Era como se as paredes gritassem reclamando interruptamente "tirem essa camada de nada da minha superfície". Superei a reclamação quando meus ouvidos encontraram um eco irritante. Ah, o eco do movimento do braço dos segundos do relógio na parede de tinta branca que me insinuava coisas queimando minha paciência. Ironicamente já fazia alguns meses que deixei de me importar, embora eu esteja mentindo... Admito. A vontade de quebrá-lo em pedaços é imensa. Em alguns bilhões de pedaços. Isso sim, isso me faria feliz. Quem sabe em seguida pintar um quadro escuro e colar suas partes. Sempre quis uma pintura retratando a noite em minha sala ideal. O único amigo que fiz no trabalho disse que isso é índice de tratamento psiquiátrico. Outra noite convidei ele para jantar comigo. Rubens. Ele veio. Teceu milhões de comentários do tipo "que apartamento lindo você tem", "adorei sua sala", "seu quarto é bem espaçoso", "que cozinha limpa e impecável". Viado. Foi o que pensei. Transamos. Fingimos que nada aconteceu.
          Não abri direito os olhos, o caminho para cozinha aconteceu no tato naquela manhã de Abril. Ainda assim, avistei a marca do suor da minha mão na porta da geladeira. Na pia, os restos de comida e potes não lavados; cheiro a esgoto ( e talvez alguns fungos); panelas engorduradas, copos de vidro e copos de plástico todos uns sobre os outros. Envergonhei-me pela cozinha que não era minha. Aquela garota do escritório, de nome Liana, não estava me vendo. Ela era interessante, mas não mais. Talvez tivesse tudo para ser, mas acabou não sendo. Olhei para ela certa vez e a disse. Não me importo se você precisa procurar o seu Ex, não me interessa que você procura alguém, também não me apetece saber como você foi tratada pela mulher da recepção do seu prédio. Resumindo a disse que não tenho interesse na vida. Me chamou de grosso e disse que eu deveria ser amigo dela. Eram oito horas e meu coração disparou, eu estava atrasado das minhas obrigações, uma delas é confrontar-me com Liana. Um feixe de consciência afundou como um baú pesado num mar dentro de mim. Responsabilidades. Senti uma ardência em meu pescoço. De qualquer forma, era o que eles chamavam. Algumas que não eram minhas. Qual era meu nome mesmo? Atravessei o corredor desviando dos sacos de lixos para serem jogados fora, e pensei, como deixei eles serem formados no corredor da minha casa? Duvidoso, entrei no banho enquanto me despia de todas verdades, todos os gostos e sabores, um pouco dos meus sonhos, a maioria dos princípios... escorriam e deslizavam, drenados pelo ralo. O cactus havia morrido. Enquanto todas coisas outras, aquelas que absorvem o néctar da alma viviam. Eles mataram o cactus. Vilmar, Rubens, Lidia.. Eles me afastaram do cactus. Do verde, ele azulou. Depois tomou uma cor amarelada. Foi como uma faca pelas costas. Não ajudei quem nunca me julgou ou hesitou em silenciar-se. Sempre forte, dividindo o espaço com meu amor fraternal. Deixei-o para morrer, observando meus passos dentro da casa. Ele não era daqui assim como eu, o clima e a cidade também o matou. Assim como estava me matando.
           Apanhei uma toalha e vesti-me. Segurei alguns livros, coloquei-os no banco de trás e verifiquei minha aparência no espelho retrovisor. Mas não lembro direito o que vi. Liguei o carro e estacionei como de costume. Levei algum tempo caminhando para o prédio. O elevador pareceu levar uma hora inteira. Havia um chiclete no bolso da calça. Masquei para passar o tempo, pois o transito parecia mais rápido que o elevador naquele dia. Minha barriga parecia que girava. Me perguntei por quê de tanta ansiedade? Sentia como se algum tipo de reação orgânica acontece dentro de meu estômago. Além de um aperto no peito, como de quem perde um ente querido. Pensei no café que sempre me esperava, toda manhã, quentinho, do lado da porta do elevador.
        Escutei o sinal e o movimento das engrenagens do elevador preparando-se para abrir. Ao sair encontrei todos eles ao lado do café em um círculo estranho. Não consegui atravessa-lo eles estavam muito grudados como se estivessem de mãos dadas. Cena patética. Tive que contornar a cabine do Rubens. De costume sua mesa estava devidamente organizada. Sua xícara de café estava sobre o jornal do dia. Em letras maiúsculas a manchete era TRAGÉDIA EM RUA ONOFRE. Apressei-me para o café em passos rápido. E ao alcançar o balcão, meus olhos presenciaram uma cerimônia de adeus. Uma figura estranha em uma foto 15x16, fotos impressas com a família, o ex-namorado, algumas risadas. O que era aquilo? Havia uma foto de Lidia, Vilmar e Rubens bebendo juntos comigo. Meu pai e meus avôs. As flores decoravam o chão. Ajoelhei-me e segurei uma das cartas escritas por Vilmar, Lidia e Rubens "ao mais competente e intenso funcionário que existe.", "ao meu melhor amigo nas horas vagas, nas boas e ruins", "para o meu irmão, e a unica pessoa que um dia pode me ver como ninguem nunca poderá". Meu peito apertou, assim como a saudade que sentia deles. Aonde estava minha mãe? As fotos eram minhas. Eu havia morrido num incêndio e tudo havia queimado. Um sentimento ardente de vazio invadiu meu peito... nunca mais teria meus amigos de volta. A vida... Meus pais... como eles estavam? Eu fui invadido com um medo de uma dor, a qual não era minha, assim como me senti por toda vida. Levantei-me cambaleando até minha cabine em um desespero silêncioso.
            Meu facebook estava cheio de recados, amigos, ex-colegas, família, conhecidos.. "Meu filho, nós te amaremos pra sempre", "nunca será esquecido", "que a dor nunca volte". Do lado, do organizador de lápis havia uma poema Shakesperiano que encerraria minha dor para sempre:  " Farto de tudo, clamo a paz da morte/ Ao ver quem de valor penar em vida/ E os mais inúteis com riqueza e sorte/ E a fé mais pura triste ao ser traída/ E altas honras a quem vale nada / E a virtude virginal prostituída /E a plena perfeição caluniada/ E a força, vacilante, enfraquecida /  E o déspota calar a voz da arte / E o néscio, feito um sábio, decidindo / E o todo, simples, tido como parte /E o bom a mau patrão servindo/ Farto de tudo, penso, parto sem dor / Mas, ao partir, deixo só o meu amor".

                             ***No sentido figurado, ocaso significa fase de decadência ou fim. Define o período que antecede o fim de um acontecimento, a queda de algo. É também sinônimo de ruína ou morte.